Vamos sair

Uma reflexão a partir de Mc 1 e dos desafios que a pandemia apresenta à Igreja. (Parte dois)

Vamos sair
Pe. Bruno Cunha, CM
16 de fevereiro de 2022

A primeira parte (1) deste tema terminou com a expressão do teólogo suíço Karl Barth que afirma que um cristão precisa de ter sempre “numa das mãos a Bíblia e na outra o jornal do dia”. Depois de uma reflexão sobre Mc 1, onde se destacaram as constantes «saídas» de Jesus, falta agora refletir sobre as notícias do «jornal do dia» que nos apresenta a grande notícia da «atualidade», mesmo que esta já tenha mais de um ano: a pandemia provocada pela covid19.

O mundo inteiro anseia sair das inúmeras crises que a pandemia pôs a descoberto e, embora se deseje «voltar à normalidade», o mundo não será mais o mesmo e pode pretender sê-lo. Nas catequeses sobre a «cura do mundo», publicadas no verão passado, o Papa Francisco diz claramente que a regeneração pretendida da sociedade não pode passar por voltar à chamada “normalidade”, pois é uma normalidade doentia que a pandemia tratou de realçar. Também na Igreja não se deve pretender «voltar à normalidade», mas aproveitar este tempo de confinamento ou, como diz Tomás Halík, «tempo das igrejas vazias», para preparar um futuro com esperança que passa por tornar o sonho do Papa Francisco uma realidade: “… hoje todos somos chamados a esta nova «saída» missionária” (EG 20).

Atenta aos desafios que a pandemia trouxe para o presente e futuro da Igreja em Portugal, em novembro do ano passado, a Conferência Episcopal Portuguesa publicou o documento «Desafios pastorais da pandemia à Igreja em Portugal», onde expressa uma das grandes inquietações da Igreja: “O problema mais sério não é como anunciar o Evangelho numa cultura diversa, mas como retomar o Evangelho dentro dessa mesma cultura” e “procurar novos areópagos” (nº 27). E mais adiante acrescenta: “Em tempo de pandemia percebe-se ser real o apelo a passar de uma atitude de “espera” à atitude de “saída”. Não basta a atitude cómoda de ficar à espera que as pessoas venham até nós. A paróquia é “extroversa” por natureza, ou seja, está atenta e “em saída”, vai onde se sente necessária. Passar de uma pastoral de manutenção a uma pastoral missionária é uma conversão que vai durar o seu tempo. Não pode haver pressa, mas é necessário planear, definir objetivos e percursos para lá chegar” (nº 47).

No intuito de apresentar pistas para este necessário planeamento e definição de objetivos pandemia/pós-pandemia aponta alguns caminhos de missão e apostolado: fomentar uma cultura de proximidade, sobretudo para com os que estão sós; atuar como «hospital de campanha» junto dos que estão nas periferias humanas; redescobrir a importância da «igreja doméstica», lugar de oração e de espiritualidade familiar; valorizar o sacerdócio comum dos fiéis que nasce do batismo; promover a comunhão relacional que vence o «confinamento em si mesmo»; construir a fraternidade universal (todos irmãos); usar os ambientes digitais como contributo subsidiário da pastoral; fazer prevalecer o primado da Palavra contra os muitos «cristãos analfabetos do Evangelho», que não conhecem a «gramática» usada na Igreja; cuidar a celebração da fé, especialmente da Eucaristia; prestar atenção redobrada aos novos desafios de serviço e de missão; e, finalmente, pensar a pastoral a partir das periferias.

Num olhar atento a todas estas propostas percebe-se que elas nos devolvem ao Evangelho e, concretamente, a Mc 1. O sonho do Papa Francisco por uma «igreja em saída» e o apelo dos bispos portugueses para que a Igreja passe de uma atitude de «espera» a uma atitude de «saída» encontram-se de forma evidente nas constantes «saídas» de Jesus, pois “foi para isso que Ele veio” (cf. Mc 1,38). Por sua vez, o cuidado da celebração da fé e a redescoberta da «igreja doméstica» estão expressos nas saídas de Jesus para «ensinar» na sinagoga (espaço religioso) e curar na casa da sogra de Pedro (espaço familiar), convertendo a sogra de Pedro na primeira discípula de Jesus. É também deveras manifesto que a cultura de proximidade na qual tanto se insiste, assim como a ação de «hospital de campanha» que se exige à Igreja, encontram em Jesus o seu grande artífice, Ele que saía ao encontro de todos e curava muitos (Mc 1,34). O próprio Mestre reconhece igualmente a urgência de ir a outros lugares para «anunciar» e apresentar um «novo ensinamento» (Mc 1,27), pois naquele tempo e cada vez mais nos dias de hoje «há cristãos analfabetos do Evangelho». Enfim, ontem como hoje, urge pensar a pastoral a partir das periferias e valorizar o sacerdócio comum dos fiéis como bem referem os bispos portugueses. É o que sucede com a ação de Jesus junto de todos os doentes e possessos, especialmente, com o exemplo do leproso, símbolo maior da discriminação e das periferias humanas, que se transforma em discípulo e assume para si a missão do Mestre de «sair» e «anunciar».

Ao longo dos séculos foram muitos os que, atentos aos sinais dos tempos, souberam reler os acontecimentos da sua época à luz da Palavra de Deus e atualizar a sua mensagem. Um deles foi, sem dúvida, São Vicente de Paulo. Patrono de todas as obras de caridade da Igreja, promoveu o laicado, a ação caritativa junto dos pobres e de todas as periferias humanas, o anúncio do Evangelho para combater a ignorância religiosa das «pobres gentes do campo» e a instrução do clero, também ele ignorante. Procurou que a Igreja fosse um «hospital de campanha», mobilizando os poderosos e ricos para ajudar os mais pobres e foi inclusive deveras inovador ao mandar imprimir pequenos «folhetos» posteriormente distribuídos pela cidade de Paris nos quais pedia ajuda para os pobres. Algo, com as devidas distâncias, equiparado aos benefícios da internet e redes sociais ou ambientes digitais, como lhe chamam os nossos bispos, quando colocados ao serviço do Evangelho e da pastoral.

Para levar a cabo toda esta grandiosa ação missionária e caritativa fundou as Filhas da Caridade e a Congregação da Missão (Padres vicentinos). Desde o primeiro momento, não quis que estivessem «confinados» a um mosteiro ou convento como os religiosos, mas que, a partir da vida comunitária, vivessem disponíveis para a missão e o apostolado junto dos pobres. No caso das Filhas da Caridade foi inovador ao criar uma sociedade de vida apostólica feminina, segundo designação do atual Código de Direito Canónico. Vale a pena recordar duas passagens dos seus escritos nas quais revela o desejo de estar sempre em missão e em «em saída».

Na primeira, dirigindo-se às Filhas da Caridade, revela a perspicácia própria de quem conhece profundamente a realidade, os seus problemas e desafios, e procura encontrar formas eficazes para lhes dar resposta de acordo com as máximas evangélicas: “…tereis por mosteiro as casas dos doentes, por cela um quarto alugado, por capela a igreja paroquial, por claustro as ruas da cidade e as salas dos hospitais, por clausura a obediência (…), por grades o temor de Deus, por véu a santa modéstia” (Cf. Conferência de 24 de agosto de 1659). Na segunda, dirigindo-se aos missionários, mostra a centralidade de Jesus na missão evangelizadora: “Portanto, a nossa vocação consiste em ir, não apenas para uma paróquia ou para uma diocese, mas por toda a terra; para quê? Para inflamar o coração de todos os homens, para fazer o que fez o Filho de Deus que veio trazer fogo à terra para inflamar o seu amor... Fui enviado não apenas para amar a Deus, mas para fazê-lo amado. Não basta amar a Deus se o meu próximo não O ama» (XI, 553-554).

A Igreja tem na sua longa história muitos homens e mulheres que, como São Vicente de Paulo, servem de inspiração para enfrentar os desafios que a pandemia veio trazer. Uns dizem que é um tempo de prova e de crise. Outros que é um tempo de reflexão e de purificação. Seja o que for, certo é que é tempo de «sair». Como diz Fernando Pessoa “Ir é ser. Não parar é ter razão” (do poema Qualquer caminho leva a toda a parte). E, já agora, sair sem medos, pois, como diz o Papa Francisco, é preferível uma Igreja acidentada, porque não tem medo de sair a uma Igreja doente, porque «confinada» e fechada em si mesma. E talvez assim, com esta coragem de «sair», possamos no futuro vir a descobrir o profundo sentido do poema de Robert Frost:
“Hei de contar isto suspirando,
Daqui a muito tempo, nalgum lugar:
Dois caminhos divergiam num bosque,

E eu segui o menos trilhado.
E isso fez toda a diferença.”
(do poema O caminho não trilhado)

(1)
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