Vamos sair

Uma reflexão a partir de Mc 1 e dos desafios que a pandemia apresenta à Igreja. (parte um)

Bruno Cunha, CM
24 de março de 2021

Há bem pouco tempo e em pleno contexto pandémico, o Papa Francisco, debilitado pela idade avançada e pela doença, visitou o Iraque, terra periférica de guerra, de pobreza e de perseguição aos cristãos. Com este gesto corajoso, ele próprio dá o exemplo, convida a «sair do sofá» e concretiza o seu sonho de “uma igreja em saída”. Partilha este seu sonho com toda a Igreja repetidas vezes, começando pela Evangelii Gaudium (nº 9, 20, 24, 27, 46), passando pela sua Carta às famílias de março 2017, pelo encontro internacional “A Igreja em saída” de 30 de novembro de 2019 e pela oração do ângelus do dia 20 de setembro de 2020 na qual diz perentoriamente que “A Igreja deve ser como Deus, sempre em saída. E quando não está em saída, adoece”.

A sua insistência nesta ideia «chave» do seu pontificado não se trata de nenhuma novidade, mas sim de uma chamada de atenção de alguém que, atento aos sinais dos tempos, vê a Igreja algo acomodada, inerte e a correr o risco de perder a sua identidade missionária. Como bem refere no nº 20 da Evangelii Gaudium “na Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de «saída», que Deus quer provocar nos crentes”. A respeito, reveste-se de singularidade o primeiro capítulo do Evangelho de São Marcos que a liturgia do Ano B (o atual) nos ofereceu para alimento e alento nos primeiros domingos do Tempo Comum e primeiro domingo da Quaresma. Detenhamo-nos um pouco neste capítulo de São Marcos que se reveste de um profundo cariz programático ao descrever e apresentar a identidade e a ação de Jesus como modelo de ação para a própria Igreja.

Composto por 45 versículos, Mc 1 surpreende pela quantidade invulgar de verbos que implicam «movimento». Especial relevância tem o verbo ἔρχομαι/ἦλθον (ir, vir, entrar, sair) e seus derivados ao surgir 20 vezes. E se lhe juntarmos o emprego de outros verbos de movimento (trazer, deixar, seguir, passar, despedir, enviar, etc.) o número de ocorrências sobe para perto de 40, perfazendo praticamente uma ocorrência por cada versículo. Igualmente surpreendente é o facto de a grande maioria destes verbos de movimento se referirem quase sem exceção a Jesus e à sua relação e encontro com o Homem: Ele sai, entra, aproxima-se, vai ao encontro do Homem; ao invés, o Homem (discípulos, multidão, doentes, possessos…) deixa tudo, aproxima-se, é levado, vai até Ele. Cabe dizer também que estes verbos se referem essencialmente à dimensão física e espacial, mas algumas vezes também podem aludir a uma dimensão espiritual.

Ao mesmo tempo, é interessante notar que o evangelista inicia o seu Evangelho citando o profeta Isaías “preparai o caminho do Senhor” (Mc 1,2.3), definindo a sua chegada e ministério como um «caminho sagrado». Esta «chave de compreensão» inspirou profundamente a espiritualidade cristã ao longo dos séculos desde o próprio Jesus que se auto apresenta como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), passando pela conceção do «homo viator» de Santo Agostinho na sua obra “Cidade de Deus” e pelos santos carmelitas, especialmente, Santa Teresa de Ávila na sua obra “Caminho de perfeição”, cuja espiritualidade tão bem define o dizer do carmelita Carlos Mesters “conhece-se a Deus pelos pés”.
É neste dinamismo da fé, entendida como caminho, movimento e desejo de encontro com Jesus, tal como o expressam os seus discípulos nas palavras “todos te procuram” (Mc 1,37), que o Evangelho vai paulatinamente desvelando a identidade e missão de Jesus. Na verdade, o primeiro versículo de Marcos deixa claramente expressa a identidade de Jesus: “Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, filho de Deus”. Numa sociedade onde o valor mais importante e escasso era a honra, afirmar que alguém é o Cristo e o filho de Deus estava acima de todas as honras possíveis.

Com esta afirmação o autor sagrado define um dos grandes objetivos do seu Evangelho: provar que Jesus é, verdadeiramente, o Cristo e filho de Deus. Para alcançar este objetivo começa por recorrer à Sagrada Escritura e apresentar Jesus como o ponto culminante da história da salvação anunciado pelo profeta Isaías e cujo caminho é preparado por João Batista. Terminada a missão de João Batista como precursor, surge Jesus, batizado no rio Jordão, apresentado por Deus como o «seu filho muito amado» e sobre o qual desce o Espírito Santo. Eis a Santíssima Trindade unida, pela primeira vez, para confirmar a identidade de Jesus como filho de Deus, Ele que até agora havia sido pura passividade, sem falar nem atuar. Investido pelo Pai e pelo Espírito como Filho está agora preparado para a ação e para a missão cujo primeiro destino é o deserto, lugar da tentação, mas também de interioridade e proximidade com Deus.
Segue-se o início do seu ministério público que se resume no anúncio (κηρύσσω) do Evangelho: “arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1,14). O verbo κηρύσσω aparece 6 vezes em Mc 1 e constitui a essência da missão e da vinda de Jesus tal como o próprio afirma: “Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois foi para isso que Eu vim” (Mc 1,38). O seu anúncio (Palavra), sinal de que o Reino de Deus está próximo, é posteriormente confirmado pela cura dos doentes e pela expulsão dos demónios (ação) que fazem parte da sua missão libertadora em favor do Homem.
Depois, para cumprir a sua missão, chama a si colaboradores, os discípulos. Desengane-se quem pensa que Jesus escolheu os mais simples e humilde sem seguir qualquer critério. Na verdade, os primeiros quatro discípulos, todos eles pescadores, são de classes sociais distintas, tal como se pode comprovar pela técnica de pesca usada. Os primeiros, Pedro e André, usam a chamada técnica de «arrasto» praticada pelos pescadores mais humildes que não tinham possibilidade de possuir barcos. Os segundos, Tiago e João, usam barcos e trabalham junto de assalariados do seu pai. Isto denota um estrato social distinto de Pedro e André. Não deve perder-se de vista também as suas origens distintas: Pedro e André são nomes gregos e João e Tiago nomes hebraicos. Acrescente-se também o chamamento de Levi (Mateus) narrado em Mc 2,13-17 e perceberemos mais claramente que parece haver um critério bem definido de Jesus na escolha dos seus discípulos. Agora, chama um publicano, pecador público desprezado pelos judeus, pertencente a outro estrato social e cultural distintos. Quem sabe, não está aqui um belo ensinamento sobre critérios a definir na Pastoral Vocacional…

Repare-se agora nos lugares que Jesus percorre na sua jornada em Cafarnaum que culmina no paradigmático encontro com o leproso (Mc 1,40-45). A jornada começa a um sábado com a «entrada» em Cafarnaum, mais precisamente, na Sinagoga, um espaço religioso e sagrado (Mc 1,21). Terminada a sua intervenção na sinagoga, onde cura um possesso, o evangelista regista que Jesus «saiu» para a casa da sogra de Pedro, um espaço privado e familiar, onde opera muitas curas (Mc 1,29). Já de madrugada, assistimos a mais uma «saída» de Jesus, desta vez para um lugar solitário e íntimo (Mc 1,35) e, quando os discípulos o encontram, ouve-se um convite para «sair» novamente, desta vez para lugares públicos: “Vamos a outras partes, a fim de pregar aí o Evangelho, pois foi para isso que eu vim” (Mc 1, 38). O cumprimento do convite de Jesus é prontamente registado pelo evangelista “e saíram por toda a Galileia”. Finalmente, é narrado o «inesperado» encontro entre Jesus e o leproso. O «inesperado», aqui, entre outros aspetos, é que o leproso vem ter com Jesus, obtém a cura e, é ele próprio que «sai» a anunciar, assumindo o que até aqui era característico de Jesus (Mc 1,45). Ao «sair» e «anunciar» não cumprirá a ordem de silêncio pedida por Jesus, facto que o vai impedir de entrar abertamente nas povoações e cidades, pois transgrediu uma norma judaica da purificação ao tocar num leproso. Note-se, igualmente, que o tempo e o lugar onde ocorre esta cura não estão definidos, facto que difere dos anteriores encontros de Jesus detalhadamente delimitados no tempo e no espaço. Quererá isto dizer que o leproso se apresenta aqui como «discípulo» de Jesus ao «sair» para «anunciar» e que a sua ação não está circunscrita a nenhum tempo ou lugar?

Sucintamente, a progressão dos acontecimentos que marcam a vida pública de Jesus após a escolha dos discípulos pode esquematizar-se da seguinte forma:
1. Entrada de Jesus na Sinagoga (Mc 1,21);
2. Saída de Jesus da Sinagoga (espaço litúrgico e religioso) para a casa da sogra de Pedro (Mc 1,29);
3. Saída da casa da sogra de Pedro (espaço privado e familiar) para um lugar solitário (Mc 1,35);
4. Saída de um lugar solitário (espaço pessoal e íntimo) para outras aldeias vizinhas (espaço público) (Mc 1,39);
5. Saída do leproso para «anunciar» sem espaço e tempo indefinidos (Mc 1,45).

Facilmente se constata que, após a entrada de Jesus na Sinagoga, sucedem-se três saídas de Jesus para lugares distintos (religioso, privado/familiar, pessoal e público), dando a clara ideia de que a missão de Jesus passa indubitavelmente por «sair» para todos os lugares a fim de alcançar o maior número de pessoas com o seu anúncio por «palavras» e por «obras». E Mc 1 termina com uma outra «saída» para «anunciar», não do próprio Jesus, mas de alguém que experimentou o seu poder salvador e que, de alguma maneira, se tornou seu discípulo.

No conjunto de Mc 1 e em jeito de síntese deparámo-nos com um número invulgarmente alto de verbos associados à ideia de movimento quase sempre relacionados com Jesus ou alguma das suas ações, aspeto que se coaduna com o apelo inicial do Evangelho a “preparar o caminho do Senhor” (Mc 1,2.3). Este dinamismo de busca e de movimento, por sua vez, insere-se num duplo propósito presente em Mc 1 que se prolonga por todo o Evangelho: provar a identidade de Jesus como Messias e filho de Deus (Mc 1,1) e descrever a sua missão. A sua missão, por sua vez, resume-se ao «anúncio» do Evangelho por palavras e por obras segundo um esquema bem delineado de sucessivas «saídas» de Jesus ao encontro do Homem para todos os lugares onde quer que ele se encontre. E, finalmente, surge o discípulo (leproso) que assume a missão do mestre Jesus e «sai» para «anunciar», em qualquer lugar e tempo, prefigurando a própria missão que caberá à Igreja assumir como sua prioridade.

Segundo o teólogo suíço Karl Barth, um cristão atento aos sinais dos tempos precisa de ter sempre “numa das mãos a Bíblia e na outra o jornal do dia”. Até este momento colocou-se numa das mãos Mc 1, que destaca as constantes «saídas» de Jesus. Visto que esta reflexão vai já bastante longa, é conveniente deixar a outra mão, a do «jornal do dia», para uma segunda parte… E, provável e infelizmente para todos nós, não haverá o risco de as notícias perderem a atualidade e, consequentemente obrigarem a alterar o que resta desta reflexão…

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