Cabo Delgado no coração

A Família Vicentina em Moçambique está implicada no terreno, sobretudo através das Filhas da Caridade, e reforça parcerias para uma ação conjunta nos acampamentos e nas famílias de acolhimento da região, seguindo as orientações das igrejas locais.

Cabo Delgado no coração
Pe. Luciano Ferreira, CM
14 de julho de 2021

1 - Clamor solidário
Em agosto de 2020, escrevi para a “Missão Onlife”(1), indo ao encontro das interrogações de muitos sobre “o que se passa em Cabo Delgado” e “porque se fala tanto desta Província do nordeste moçambicano”. Mencionei então as grandes riquezas e a cobiça que despertam dentro e fora do País, chamando a atenção para o imenso drama humano ali vivido pelas populações, desde que, em outubro de 2017, uma “insurgência” crescente de grupos rebeldes, maioritariamente constituído por jovens descontentes, alguns associados ao extremismo jihadista do “Al Shabaab” e do Estado Islâmico, aterroriza e devasta quase todos os distritos costeiros. Apontei causas, internas e externas, que têm alimentado e prolongado esta guerra, cada vez mais sangrenta e desumana, destroçando famílias inteiras, afetando sobretudo as crianças e mulheres, e adiantei também algumas soluções de futuro.

Olhando a situação de hoje, continuam não apenas válidas as indicações referidas, como até são reforçadas pelos factos e acontecimentos trágicos dos últimos meses.

É muito difícil, para quem está longe, fazer uma ideia do que está a acontecer, “por causa da indiferença e das muitas guerras e tragédias dos nossos dias...», como denunciava o anterior bispo D. Luiz Lisboa (Lusa, 23/07/20). Por isso os gritos e alertas dos missionários e organizações humanitárias próximas do povo sucedem-se, pungentes:
- “Até quando e quantas mais pessoas precisam de morrer e de fugir para que se ponha fim a estes conflitos armados e as populações possam recomeçar do zero a reconstruir?” (Ira. Mónica da Rocha, natural de Arouca, que acolhe em Lichinga centenas de deslocados (Cf: Ecclesia, 12/04/21).
- “Não podemos deixar este assunto no esquecimento. É necessária uma intervenção urgente, antes que seja tarde demais… Apelo a uma intervenção contundente da comunidade internacional…” (P. Ricardo Marques, da Boa Nova, (Cf: Ecclesia, 09/04/21).

Segundo um relato recente de uma deputada do Parlamento Europeu, que visitou Pemba, sem o choque mediático do ataque a Palma, em 24 de março último, “ainda hoje continuaríamos de olhos fechados” (Cf: “Cabo Delgado não pode esperar”, https://Observador.pt/opinião, 26/06/21).
Infelizmente, a situação agravou-se em extensão e crueldade, ameaçando atingir mais cidades e aldeias. A invasão e ocupação da cidade de Palma, próxima de Afungi (a zona dos principais investimentos para a exploração dos grandes poços de gás liquefeito…), com as posteriores incursões dos “insurgentes”, e as contraofensivas das Forças de Defesa governamentais, continuam a aumentar o número de deslocados e de campos enormes de tendas, como o de Metuge. Só daquela cidade fugiram mais de 60 mil, das formas mais dramáticas, para esconderijos no mato ou em direção a Pemba e à Tanzânia.

2 - Âncoras de esperança num mar de sofrimento
Não obstante a dimensão de grande catástrofe que se mantém e aumenta (contam-se agora: mais de 2 mil mortos, 800 mil deslocados e centenas de pessoas em fuga diariamente) quando se torna clara a urgência de maior solidariedade e conjugação de esforços, são de realçar iniciativas e testemunhos, verdadeiras “âncoras de esperança num mar de sofrimento”.

Nota-se uma crescente onda de solidariedade que, através da Igreja Católica, das Congregações missionárias, da Cáritas, da Ajuda à Igreja que Sofre, ou através das Organizações da ONU (Acnur, Save the Children, PAM, Unicef), da Cruz Vermelha e de ONG (como Oikos e Helpo), promove campanhas e redes de apoio, na construção de infraestruturas de proteção, na alimentação, nas escolas e na saúde, com agentes voluntários no terreno, nos acampamentos dos deslocados internos ou dos refugiados nas províncias vizinhas do Niassa e Nampula. “As organizações humanitárias que trabalham ali são “autênticos portos de abrigo para os deslocados” (Isabel Quintão, Cáritas Portuguesa, 24/06/21).

A ponte aérea da União Europeia com três voos de equipamentos “salva-vidas” diretamente descarregados em Pemba, entre 3 e 9 de julho, resultantes de esforços conjugados dos governos português e italiano, e a doação de milhares de doses de vacinas contra a Covid, epidemia também a aumentar em Moçambique, são apoios encorajadores, mesmo que insuficientes.

Merecem todo o aplauso os vídeos de 30 das organizações acima mencionadas, que vão aparecendo nas redes sociais e de agências como a Ecclesia e a Vatican News, e em particular o realizado pelo Pe. Nélio Pita, Provincial da CM em Portugal, associado à Família Vicentina e divulgado no dia 08/06/21: “Cabo Delgado: não nos conformamos com a violência…, não podemos ficar indiferentes…, porque Cabo Delgado somos todos nós!”

O magistério do Papa Francisco, em especial a Encíclica social Fratelli Tutti, o seu testemunho vivo, e os apelos da nossa identidade e carisma, não cessam de encorajar a ir mais longe, na vivência da caridade e missão de Jesus Cristo. Porque a solução desta guerra não pode ser apenas militar, por mais que apareçam agora reforçadas a formação do exército e os equipamentos à altura, com a intervenção de forças da SADC.

A Família Vicentina em Moçambique está implicada no terreno, sobretudo através das Filhas da Caridade, e reforça parcerias para uma ação conjunta nos acampamentos e nas famílias de acolhimento da região, seguindo as orientações das igrejas locais. Para as apoiar neste trabalho de amor sacrificado, foi enviada a renúncia quaresmal da PPCM e uma generosa ajuda das FC em Portugal.

A recente Assembleia dos membros da CM em Moçambique mandatou a comunidade de Nacala para desenvolver com as Filhas da Caridade a trabalhar com os deslocados em Montepuez (sudoeste de Cabo Delgado) a colaboração adequada, na linha da vocação comum de filhos de S. Vicente de Paulo. Estão em curso as diligências necessárias.

A CM e a FV têm atualmente na Diocese de Nacala, junto de Cabo Delgado, uma comunidade de missionários, duas de Filhas da Caridade e grupos leigos das associações vicentinas, para o serviço dos pobres. Há também, em Nacuxa (Missão de Matibane), várias obras de promoção para jovens e 22 seminaristas candidatos da CM, na etapa propedêutica. Na Matola, estudam 23 seminaristas, sendo seis de Teologia, dois dos quais continuarão em breve a formação em Portugal num projeto de colaboração com a PPCM. Há ainda quatro a frequentar o Teologado Internacional da CM na Nigéria.

(1)
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