Sou português emigrante
Quando se insinuam divisões e semeiam lágrimas desnecessárias, é preciso lembrar as lições básicas, aquelas que deveríamos ter aprendido num catecismo elementar e que nunca deveriam ter sido esquecidas, sob pena de facilitarmos as nascentes torrentes de lágrimas.


D. Nélio Pita, CM
11 de fevereiro de 2026
A música traduz a alma de um povo. Recentemente, no encerramento de uma visita a uma comunidade, o grupo de cantares da terra avivou a festa com um rico repertório de música minhota. Concertinas, acordeões, guitarras, cavaquinhos e vários instrumentos de repercussão acompanharam a intensidade das vozes projetadas por cabeças orgulhosas. A terra parecia tremer. A certa altura, alguém do público sugeriu: «cante lá o português emigrante». E de imediato, o homem de bigode farfalhudo, agitou a guitarra pintada com as cores da bandeira portuguesa, e entoou:
- Sou português emigrante
O grupo, maioritariamente de mulheres, de mãos nas ancas, olhar fixo em alguma estrela, respondeu em uníssono:
- Chora, chora, linda chora.
O diálogo entre o solista e o coro manteve-se até ao fim:
- Vou-me embora pró estrangeiro
- Chora linda que eu vou embora
- Deixo pai e deixo mãe
- Deixo a mulher a chorar
O rosto do grupo de cantares, embalado ao som dos ritmos, parecia evocar cenas de outros tempos. Cantavam como quem reza. Rezavam como quem protesta. Protestavam como quem se lamenta de ter perdido algo de muito valioso e irrecuperável. Ali, naquela terra, como em muitas terras deste país, sob o olhar protetor de S. Bartolomeu, brotaram rios de lágrimas pelo «português emigrante».
Entretanto, com o passar dos anos, a paisagem da velha aldeia foi redesenhada graças ao contributo daqueles que regressam, ainda que provisoriamente. As novas casas são como monumentos aos heróis. Na pequena capela, entre as imagens de santos, uma ocupa o lugar cimeiro. A Senhora dos Emigrantes é uma jovem de ar sereno que tem um menino ao colo. Ele tem a mãozinha levantada como quem abençoa e aponta numa nova direção. Ela, na mão direita, tem pousada uma pombinha, animal manso e errante, como foram muitos daqueles que partiram destas terras.
Tão antigo como a humanidade, o fenómeno migratório configurou o ambiente social de tantos lugares. Esvaziou terras, enfraqueceu comunidades, semeou abundantes lágrimas, mas também teceu sonhos e esperanças, transformando vidas e nações. Hoje, na aldeia junto ao mar, à sombra da velha igreja, a melodia entoada pelas novas famílias marcadas pela migração, podia ser atualizada com a seguinte letra:
- Sou nepalês emigrante
- Chora, chora, linda chora
E se déssemos um ritmo mais acelerado, poderia ter outras variantes:
- Sou venezuelano emigrante…
Na escola primária da aldeia, fomos recebidos pelo professor natural do Brasil. Algumas das salas da escola só se mantêm abertas por causa das crianças estrangeiras. «Já são 19 nacionalidades», disseram. Vejo-as no recreio em brincadeiras e algazarras e não sou capaz de diferenciar um português de um estrangeiro. Sei, porém, que algumas destas famílias recém-chegadas, em longas noites, cada uma na sua língua, canta como quem reza, como quem protesta, como quem se lamenta:
- Ó minha mãe, minha mãe
- Tantas vezes me faz lembrar
- Daquela velha casinha
- Onde ficaste a chorar
Na Igreja, desde muito cedo existe a consciência de que somos todos irmãos. Mesmo quando percorremos caminhos diferentes para chegar a Deus ou para dissertar sobre a eternidade, crentes ou não crentes, asiáticos ou europeus, africanos ou americanos, partilhamos o mesmo património, somos da mesma natureza, fomos criados à imagem e semelhança de um único Deus. Por isso, quando se insinuam divisões e semeiam lágrimas desnecessárias, é preciso lembrar as lições básicas, aquelas que deveríamos ter aprendido num catecismo elementar e que nunca deveriam ter sido esquecidas, sob pena de facilitarmos as nascentes torrentes de lágrimas. Hoje, é também nosso dever reavivar a memória dos esquecidos e consolar os que choram.



