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Para uma educação cultural da dor

"Saber sofrer não significa resignação, mas lucidez: é reconhecer que a vulnerabilidade faz parte da condição humana"

Para uma educação cultural da dor
Helena Rafael
14 de outubro de 2026

«Para muitos tipos de sofrimento que não anunciam uma doença terminal, considero que deve ser promovida uma educação cultural da dor […]. Como difundir e partilhar essa educação para a dor, não sei. Mas considero-a uma das fronteiras da medicina, da psicologia e talvez da filosofia do amanhã. Tal como o filósofo aprende a ser-para-a-morte, todos deveríamos aprender a ser-para-a-dor, alfabetizarmo-nos a esse respeito.» (in Reflexões sobre a Dor, Umberto Eco, Gradiva, 2026)

Até agora inédita em Portugal, a obra Reflexões sobre a Dor, de Umberto Eco, nasceu de uma conferência proferida pelo autor em 2014, durante a cerimónia de entrega de diplomas da Academia das Ciências de Medicina Paliativa, em Bolonha. Prefaciado por Guido Biasco, Director científico da Academia, este breve, mas actual ensaio aborda a relação entre o ser humano e o sofrimento, aprofundando o significado da dor – corporal, emocional, espiritual, afectiva e social – não apenas como experiência física, mas também como fenómeno cultural, filosófico e simbólico.

Com a erudição que caracteriza toda a sua obra, Eco conduz o leitor por um percurso fascinante através das múltiplas formas como a humanidade representou e interpretou a dor ao longo da História. O sofrimento surge, em diferentes épocas, ora glorificado, ora temido, ocultado ou mesmo transformado em espectáculo. Através de referências à tradição cristã, à iconografia medieval, à literatura clássica e ao pensamento moderno, o autor demonstra como a dor ocupou desde sempre um lugar central na existência humana, funcionando simultaneamente como castigo, purificação ou prova de fé.

Em pouco mais de sessenta páginas, Eco propõe uma reflexão sobre o sofrimento, afastando-se tanto da humanaglorificação da dor como da ilusão contemporânea da sua possível eliminação. A dor surge, assim, como uma realidade inevitável da existência, mas também como uma experiência que pode ser compreendida e transformada através do conhecimento. Ao defender uma «educação da dor», o pensamento do autor ultrapassa o campo da medicina e entra no domínio filosófico: compreender o sofrimento é, em certa medida, aprender a habitar a fragilidade humana.

Eco reconhece que a modernidade trouxe conquistas decisivas ao aliviar dores outrora consideradas naturais. Contudo, alerta também para o risco de uma sociedade que procura neutralizar toda a forma de dor, afastando-se da consciência dos seus próprios limites. Saber sofrer não significa resignação, mas lucidez: é reconhecer que a vulnerabilidade faz parte da condição humana e que o conhecimento pode tornar o sofrimento menos obscuro e aterrador. A reflexão culmina numa perspectiva profundamente existencial.

Tal como o ser humano aprende a pensar a morte, deveria igualmente aprender a pensar a dor - não para a aceitar passivamente, mas para compreender o seu significado biológico, psicológico e humano. Mais do que um livro sobre o sofrimento ou medicina, Reflexões sobre a Dor é uma meditação sobre a fragilidade humana. Eco mostra-nos que a dor possui uma dimensão paradoxal: é aquilo que mais profundamente rejeitamos e, simultaneamente, aquilo que mais nos aproxima da consciência da nossa humanidade. Sofrer é reconhecer os limites do corpo e a impossibilidade de controlar totalmente o mundo. E é com o seu desconcertante sentido de humor que Eco nos devolve ao corpo e ao quotidiano, terminando o livro com a lembrança de que estamos sempre à mercê «da nossa próxima dor de dentes».

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