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Os óculos da dignidade

Talvez o maior desafio dos nossos dias não seja a falta de informação, mas a perda de significado.

Os óculos da dignidade
Aline Villas Boas
07 de janeiro de 2026

No passado dia 10 de dezembro assinalou-se o Dia Internacional dos Direitos Humanos. A data surgiu no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, como resposta às atrocidades que marcaram aquele período e como compromisso coletivo de que a dignidade humana deveria ser protegida, sempre e em todo o lado. Durante muitos anos, este dia foi celebrado de forma ampla: por responsáveis políticos, escolas, trabalhadores, comunidades religiosas. Os seus símbolos espalharam-se por cidades inteiras — murais no metro, mensagens em hospitais, discursos em parlamentos, palavras de líderes religiosos, incluindo vários papas.

Nos últimos anos, porém, algo mudou. A simples referência a “direitos humanos” passou, para muitos, a provocar incómodo, desconfiança ou mesmo desprezo. O mesmo acontece com palavras como proletariado, elite, ONGs ou luta. Não porque o seu significado tenha desaparecido, mas porque foram capturadas por disputas políticas. Hoje, muitas pessoas rejeitam estas palavras sem sequer se deterem no que elas representam. Os olhos reviram-se antes da reflexão começar.

Talvez por isso valha a pena afastar o ruído das palavras e regressar ao essencial. Mais do que discutir termos, importa lembrar aquilo que está no centro de tudo isto: a dignidade humana. Não como conceito abstrato, mas como realidade concreta, sentida no corpo e na vida de cada pessoa. A dignidade percebe-se, sobretudo, quando falta.

Só quem já passou um dia inteiro com sede, num calor sufocante, sabe o que isso significa. Quem já fez um jejum involuntário conhece a fraqueza, a confusão, a irritação. Quem já apanhou uma chuva forte, com a roupa encharcada e o frio a cortar a pele, sabe como isso mina qualquer resistência. Quem já esteve doente na rua e sentiu olhares de nojo entende o peso da humilhação. Quem não conseguiu chegar a tempo a uma casa de banho conhece a vergonha silenciosa. E quem já teve um filho a pedir comida sem poder oferecer, por falta de dinheiro, sabe o que é a impotência mais dura.

Estas experiências são apenas pequenos fragmentos daquilo que boa parte da população mundial vive todos os dias. E não falamos apenas de números ou estatísticas distantes. Falamos das nossas cidades. Dos nossos bairros. De vizinhos desalojados que vivem em tendas improvisadas. De famílias que passam noites em estações de comboio. De pessoas que pedem dinheiro na rua sem acesso a higiene básica. De famílias que recorrem às paróquias para conseguir alimentar-se. A lista é longa e repetitiva — talvez por isso aprendemos, sem perceber, a não olhar.

Aqui entra a necessidade de mudar o olhar. Para quem se inspira no cristianismo, há uma referência incontornável: Aquele que veio para ensinar a ver as pessoas para além das aparências, dos rótulos e das culpas fáceis. Especialmente neste tempo de Advento, em que se prepara a celebração do seu nascimento, somos convidados a recuperar esse olhar atento e humano.

É aqui que surge a metáfora dos óculos da dignidade. Quando os nossos olhos já não conseguem ver sozinhos, quando a rotina, o medo ou o cansaço toldam a perceção, colocar estes óculos ajuda-nos a ajustar o foco. Não são lentes que inventam problemas nem que romantizam o sofrimento. São lentes que revelam a verdade do ser humano e da sua situação. Ajudam-nos a ver pessoas onde antes víamos incómodos, histórias onde víamos apenas números, dignidade onde o hábito nos ensinou a ver indiferença.

Talvez o maior desafio dos nossos dias não seja a falta de informação, mas a perda de significado. Símbolos e palavras tornaram-se motivo de rejeição, como se a luta pela dignidade fosse vazia ou excessiva. Ou o Dia dos Direitos Humanos seja pra uns e não para outros. Mas quando falamos de dignidade, falamos de vidas reais. E vidas reais não cabem em disputas ideológicas.

Recuperar o sentido da dignidade humana é, no fundo, reaprender a olhar. Reconhecer que “todos, todos, todos” merecem condições dignas de vida. E aceitar que essa responsabilidade não é abstrata nem distante — é nossa, enquanto comunidade, enquanto sociedade e enquanto pessoas que escolhem não desviar o olhar.

Foto: Imagens coladas com ajuda da IA
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