No baú da pandemia um punhado de ansiedade e a esperança de que tudo passe

A pandemia Covid-19 obrigou-nos a ajustar e a reajustar rotinas, procedimentos e relações, enquanto se assola, do outro lado do espelho, o vírus da invisibilização da saúde mental.

No baú da pandemia um punhado de ansiedade e a esperança de que tudo passe
Joana Portugal
18 de agosto de 2021

Vivemos dias de incerteza, dias que nos acompanham sem que os passos coincidam com a nossa caminhada. Vivemos tempos difíceis. A pandemia Covid-19 obrigou-nos a ajustar e a reajustar rotinas, procedimentos e relações, enquanto se assola, do outro lado do espelho, o vírus da invisibilização da saúde mental. O medo da compaixão.

Dados recentes da Organização Mundial de Saúde, citando apenas uma fonte e poupando-nos à múltipla confirmação de uma realidade taciturna, mostram que em 2020 registou-se um aumento de 200%, relativamente a 2019, de novos casos de ansiedade ou depressão.

Não fossem as evidências contrariar aquilo que nos passa ao lado – vidas em desalinho, sobrecarregadas, preocupações exacerbadas e constrangimentos relacionais. Vidas em suspenso, propícias para o estalar da ansiedade, da depressão, da solidão.

A propósito deste tema, convido a uma leitura ao Coisas de Loucos, da jornalista Catarina Gomes, que a partir de uma caixa de objetos abandonados no Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, em Lisboa, resgata as pistas do esquecimento de demais pacientes que ao longo de décadas ali permaneceram confinados. O Miguel Bombarda foi o primeiro hospital psiquiátrico em Portugal – inaugurado em 1848 – e o primeiro a fechar portas, em 2011.

A arca de objetos esquecidos ou não reclamados fazem-nos viajar por múltiplas estórias, famílias e esvaziamento de existências que, até serem numeradas, tinham um nome - o grito de uma pessoa. O grito que a autora repesca assemelha-se a um policial – vamos com ela na retina à procura da vida destes antigos loucos, como medicamente se nomenclava à época, numa busca também ela insana. Passam-nos na memória os instrumentos de exatidão de Noé Falcão, relojoeiro; as fotografias de Simão Carvalho Proença; os papéis desaparecidos de Manuel de Avelar Rodrigues, capitão de longo curso; as cadernetas bancárias de Ricardo Vinte Um; os lavores de Valentim, bailarino perseguido pela sua orientação sexual.

Sobre Valentim que foi internado numa enfermaria-prisão, cujo crime era a livre expressão dele próprio, é descrito por outros colegas de cela, como Manuel Oliveira internado por homicídio, como um homem muito trabalhador que passava dia e noite no crochet.

Surpresa dele, surpresa nossa - afinal, nada se sabia sobre saúde mental, mas sim sobre marginalizar. Quem ousasse molhar o pé no mar em dias de Inverno era internado num qualquer Rilhafoles. Presos por estarem sozinhos, presos por verem o céu em tons diferentes, presos por amarem quem queriam amar, presos por já nada servirem aos seus pares.

Presos, confinados, sem acesso a qualquer acompanhamento ou tratamento digno. Ali chegados, eram encostados e fechados do e ao mundo.

Era assim o desconhecimento da saúde e da doença mental. Já não é assim. Hoje sabemos que a saúde mental é a base do bem-estar geral e, por isso mesmo, não é preciso ficar à espera que passe. Há muitas respostas para as perguntas e outras tantas pessoas para nos ouvirem. É este o sentido da expressão “mente sã em corpo são” ou, noutra formulação, que “não há saúde sem saúde mental”.

A pandemia que atravessamos chegou sem avisar e sem tempo de treino ou preparação para este feroz campeonato. As nossas vidas mudaram. Reconhecer os sinais e pedir ajuda é um sinal de etapa ganha.

Num clique: saudemental.min-saude.pt

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