Mais do que uma vida multicultural

A curiosidade pelos outros, ou seja, a vontade de conhecer os outros, leva-nos a compreendê-los a fim de que eliminemos conflitos e aproveitemos um mundo com diversidade e paz. Não é preciso aceitarmos ou gostarmos de tudo. Basta compreendermos e respeitarmos.

Mais do que uma vida multicultural
Cho Ian Lei
12 de outubro de 2022

“A cultura dela não reclama”, disse a minha personal trainer, Bárbara, que é uma brasileira com quem me dou muito bem, numa pausa da minha primeira aula de crosstraining no ginásio.

Foi numa aula em grupo de nove pessoas. Todas eram portuguesas menos eu. Eram todas simpáticas e dinâmicas, seja no treino, seja nas conversas durante as pausas. Como os exercícios cansavam muito e não as conhecia muito bem, não falei muito nas pausas, mas fiquei a ouvir. Falaram muito entre elas e com a Bárbara, que não só me deu aulas privadas, mas também ficou responsável por essa aula de crosstraining. Não percebi tudo o que elas estavam a dizer. Parecia-me que eram queixas sobre a intensidade dos exercícios. Contudo, não eram queixas a sério porque vê-se que toda a gente gostava de treinar e que estavam a brincar. Perante essas “queixas”, a Bárbara disse: “olhem vocês, a Giovanna não reclama”. Depois, veio a frase que marcou o início do texto.

Toda a gente riu, incluindo eu. Expliquei que nem tive força para falar. Por isso, fiquei um bocado silenciosa. Conheço bem a Bárbara e sei que não foi de má vontade, mas esta frase fez-me pensar muito. Se a aula se realizasse em chinês, que me dava mais jeito para falar, iria também “reclamar” da intensidade do treino? Talvez não. Será verdade que os chineses não reclamam muito ou não costumam dar a própria opinião em público? Não sei. O país e a população são enormes. Por isso, não posso falar em nome de toda a gente, mas pensando na maioria das pessoas que conheço, diria que é verdade. Todavia, há mais para eu refletir do que esta verdade.

Começou há pouco o quarto ano da minha estadia em Lisboa. Notei que a cidade é muito multicultural. Quando ando na rua, oiço muitas vezes não só português, mas também inglês, francês, espanhol, alemão, mandarim e muitas línguas que não consigo identificar. Graças a Deus, a cidade tem cozinhas de todo o mundo. Posso provar a comida autêntica de Portugal para satisfazer a curiosidade bem como encontrar bons restaurantes asiáticos para matar saudades da minha terra.

Viver nesta cidade multicultural faz com que consiga ter muitas vivências interculturais. O episódio no início de texto é uma delas. Aqui gostaria de contar mais uma interessante.

Vivo com duas portuguesas e uma brasileira. Dou-me muito bem com elas. Têm sempre curiosidade pela comida que faço e pela minha língua. Convidam-me para almoçar. Ensinam-me expressões coloquiais em português e também lhes ensino umas palavras simples em cantonês.

Uma vez, perguntaram-me como é a comida tradicional em Macau. A seguir, apareceram-me na cabeça pratos, petiscos, sobremesas saborosas de que tinha imensas saudades e que comia sempre quando vivia em Macau. Logo, apercebi-me de que nenhum deles são tradicionais de Macau no sentido de origem porque uns vêm do Sudeste Asiático, uns são mistura de estilo ocidental e oriental, uns são comuns também em Hong Kong e têm origem na província Guangdong (perto de Macau). Fiquei a pensar por uns minutos e respondi: “é um bocado difícil de responder. Se a comida tradicional se referir à comida que tem origem único de Macau, talvez seja a comida macaense, que foi inventada nas famílias que consistem em portugueses e chineses, mas os pratos macaenses não estão muito presentes na nossa vida diária porque a comunidade macaense é muito pequena. Se for comida que se come no dia a dia, há muitas coisas para explicar.”

Já me aconteceram muitos episódios semelhantes. Perguntam-me muito sobre a cultura, o ritmo de vida, a comida, a língua, seja de Macau, seja da China. Às vezes, acho difícil dar uma resposta clara porque quando tento responder a essas perguntas, apercebo-me de que estou, talvez estejamos, tão dentro da nossa própria sociedade e cultura que nem conseguimos ver claramente o contorno e as caraterísticas delas. Se calhar nunca iria ter consciência de que somos relativamente mais tímidos, ou da diversidade da comida em Macau, se não tivesse comunicação e interação com pessoas de culturas diferentes.

Por isso, nos últimos anos, tenho reolhado mais para a minha cultura e sociedade bem como repensado mais nelas para que, por um lado, as pessoas de lugares diferentes as conheçam melhor e corretamente, e por outro lado, eu própria as conheça melhor.

Esta viagem de redescoberta até me deixa ver uma das essências para mantermos a paz no mundo, que vale tanta a pena conhecer porque é formado por tantas diferenças, isto é, culturas diferentes, pessoas diferentes, perspetivas diferentes. Entre estas diferenças, é possível haver conflitos causados por preconceitos e mal-entendidos. Para os evitar, não é correto que toda a gente se feche na própria comunidade, mas, como Ricardo Dias Felner refletiu no seu artigo “A cozinha do Ku wa zi e a paz no mundo”, publicado em agosto no Expresso, devemos “variar a dieta, [e] termos curiosidade pela comida dos outros, pelos outros”. Eis a posição correta que devemos tomar. A curiosidade pelos outros, ou seja, a vontade de conhecer os outros, leva-nos a compreendê-los a fim de que eliminemos conflitos e aproveitemos um mundo com diversidade e paz. Não é preciso aceitarmos ou gostarmos de tudo. Basta compreendermos e respeitarmos.

Com estas vivências em Portugal, acabei por conhecer melhor o mundo e a minha terra. Aprendi como me devo comportar perante as diferenças. Agora sou mais rica, porque adquiri mais do que uma vida multicultural.

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