Liberdade: somente fazer o que se quer ou algo mais
A resposta à pergunta “será que somos realmente livres?” não será uma resposta simples de sim ou não, mas um convite constante ao crescimento e à reflexão. Ser livre não é apenas um direito, é também um caminho. E cabe a cada um de nós percorrê-lo.


Ana Cabral
06 de agosto de 2025
Hoje, dia 21 de abril de 2025 acordei às 09:00h decidida que ia começar a escrever sobre ‘ser livre’. De repente deparo-me com a triste notícia de que o Papa Francisco já não está entre nós. Fiquei sem palavras e, de certa maneira, comovida. Cresci a ouvi-lo e a ser inspirada por ele todos os dias. Por isso decidi escrever este ensaio com base na perspetiva que ele me deixou sobre a liberdade: uma liberdade que começa dentro de nós.
Vivemos muitas vezes a ilusão de que a liberdade é simplesmente “fazer o que se quer”, mas essa visão revela-se bastante superficial. O Papa Francisco, em diversas ocasiões, procurou aprofundar esta reflexão. Para ele, a verdadeira liberdade não é fazer tudo aquilo que nos apetece, mas sim termos a capacidade de escolher o bem. No seu discurso durante a audiência geral de 6 de outubro de 2021, disse: “A liberdade não é fazer o que se quer, isto é libertinagem. A liberdade é dom de Deus, que nos foi dado para que possamos amar.”
Este pensamento reflete com a visão clássica cristã: a liberdade não é um fim em si mesma, mas um meio para viver segundo o amor, a verdade e o bem. Quando vivemos apenas ao serviço do nosso próprio ego, acabamos por nos tornar escravos das nossas próprias ambições, dos nossos desejos, medos, ou até paixões.
O Papa Francisco sublinhou muitas vezes a importância da liberdade interior. A liberdade interior é a capacidade de agir a partir do que é bom e verdadeiro, não por impulso ou medo, mas com consciência e amor. É um tipo de liberdade que depende da maturidade interior da pessoa. Quando o Papa falou da liberdade interior referiu-se também aos obstáculos que muitas vezes nos limitam, como: o medo do julgamento dos outros, o orgulho, a vaidade, a raiva e a inveja, o apego ao dinheiro, e muito mais… Todos estes fatores tornam-nos prisioneiros por dentro, e desta maneira é impossível manter o coração livre. Num discurso em 2022, dirigido a nós, jovens, afirmou: “A liberdade não significa lançar fora todos os vínculos, mas sim viver plenamente, sem máscaras, livres dos condicionamentos que nos fecham.”
Também S. João Paulo II dizia que a liberdade só era verdadeira quando se orientava para o amor e para os outros.
A liberdade exterior refere-se à capacidade que temos de agir no mundo sem impedimentos, como: escolher a nossa profissão, praticar uma religião, tomar decisões políticas, entre outros. É o tipo de liberdade mais valorizado nas sociedades democráticas e protegida por leis e direitos humanos. O Papa Francisco sempre reconheceu a sua importância, principalmente em regimes onde esta liberdade é ameaçada, como em regimes totalitários ou de pobreza extrema.
Contudo, nunca deixou de alertar que este tipo de liberdade não garante a verdadeira realização da pessoa. Podemos ser extremamente livres, mas internamente escravos dos nossos vícios ou medos: Podemos ser livres por fora, mas por dentro continuar a ser prisioneiros.
A pergunta “Será que somos realmente livres?”, na minha opinião, não tem uma resposta simples. Vivemos num mundo onde a liberdade é muitas vezes entendida apenas como o direito de escolher: o que vestir, onde estudar, o que comer… Mas, como dizia o Papa Francisco, há uma dimensão muito mais profunda da liberdade: a liberdade interior.
Concordo com esta visão que distingue liberdade exterior de liberdade interior. Podemos ter todas as oportunidades do mundo, e mesmo assim, sentirmo-nos presos por dentro.
Seguindo isto, acho que somos livres em parte, mas também somos constantemente desafiados a conquistar a liberdade verdadeira. Não é algo que se tem de forma automática e imediata, mas sim algo construído com esforço interior, escolhas conscientes e coragem.
Por exemplo, há pessoas que vivem em contextos difíceis, com poucas liberdades exteriores, mas demonstram uma enorme liberdade interior, como aqueles que mesmo em situações de sofrimento, não perdem a esperança, a dignidade ou a capacidade de amar. E também há quem tenha todas as liberdades garantidas, mas viva escravizado por inseguranças e vícios.
Em conclusão, não sei se somos exatamente livres, mas sei que podemos crescer no que toca à nossa liberdade interior. Acredito que a liberdade verdadeira vem quando somos fiéis a nós próprios, quando escolhemos o bem mesmo quando não é o mais fácil, e quando somos capazes de viver com alegria e verdade.
Ser livre é mais do que poder escolher, é saber escolher bem, e com o coração livre. E esta é uma das caminhadas da vida que nunca estará completamente terminada.
Hoje, dia 25 de abril, Dia da Liberdade, acabo de escrever este ensaio com a certeza de que a liberdade é, simultaneamente um direito essencial e uma responsabilidade individual.
Assim, a resposta à pergunta “será que somos realmente livres?” não será uma resposta simples de sim ou não, mas um convite constante ao crescimento e à reflexão. Ser livre não é apenas um direito, é também um caminho. E cabe a cada um de nós percorrê-lo.
“Não deixem que o egoísmo, a indiferença ou o conformismo definam as suas vidas. Sejam instrumentos da paz!” – Papa Francisco, Sarajevo, Bósnia 2015.
Sugestões para continuar a leitura:
https://www.vatican.va/content/francesco/pt/cotidie/2018/documents/papa-francesco-cotidie_20180413_verdadeira-liberdade.html
https://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2021/documents/papa-francesco_20211020_udienza-generale.html



