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Homilia na Eucaristia do Encontro Nacional da FamVin

...Parece-me importante lançar-vos um desafio: potenciar estratégias de apoio aos irmãos mais carenciados que não se limitem à assistência imediata, mas que procurem também transformar as situações e as estruturas que geram pobreza e exclusão.

Homilia na Eucaristia do Encontro Nacional da FamVin
D. Nélio Pita, CM
07 de outubro de 2026

Queridos irmãos e irmãs,
É bom estarmos reunidos como família, neste santuário consagrado à Santíssima Trindade, em Fátima. A Santíssima Trindade é, na sua essência, um modelo admirável e uma imagem inspiradora para todas as famílias. Nela, unidade e diversidade coexistem harmoniosamente. Nela, o amor autêntico une as diferentes Pessoas.

Também nós somos membros da mesma família: fomos batizados no mesmo Batismo e partilhamos o mesmo carisma. Somos Família Vicentina. Demos graças a Deus por isso. Aproveitemos esta ocasião para rezar pelos que já partiram e por aqueles que atravessam momentos de dificuldade.

O Evangelho deste dia constitui uma interpelação para cada um de nós, vicentinos. Já conhecemos a parábola do Bom Samaritano, mas, como demonstra um estudo realizado em 1973, nem sempre o conhecimento ou a devoção nos tornam mais disponíveis para ajudar quem mais precisa.

Nesse estudo, os investigadores envolveram cerca de 40 seminaristas, que tinham de se deslocar a outro edifício para realizar uma pequena apresentação. A alguns foi pedido que falassem sobre a parábola do Bom Samaritano. Pelo caminho, encontravam uma pessoa aparentemente doente que pedia ajuda. O resultado foi particularmente significativo: sob pressão para chegar a horas, apenas uma minoria, 10% dos participantes pararam para ajudar(1).

O estudo demonstra que o conhecimento e a meditação sobre a parábola do Bom Samaritano não se traduziram, por si só, numa maior disponibilidade para ajudar. A maioria dos participantes não parou, mesmo depois de ter refletido sobre a parábola. Um dos fatores determinantes para esta indisponibilidade foi o sentido de urgência, a «pressa».

Vivemos vidas apressadas e, por isso, nem sempre estamos disponíveis para estar com quem precisa — por vezes, até na própria família ou no seio de uma comunidade paroquial.

O outro, porém, sobretudo quando se encontra numa situação de vulnerabilidade, deve estar sempre no centro do pensamento e da ação dos seguidores de Jesus, particularmente dos vicentinos. Como ainda recentemente nos recordava o Papa Leão, na visita a França, «para os cristãos, os pobres não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo». Com as nossas habituais pressas, o risco é de os tornar invisíveis e irrelevantes.

O diálogo entre Jesus e o doutor da Lei recorda-nos que o amor a Deus é inseparável do amor ao próximo. A compaixão por quem está ferido e a disponibilidade para socorrer quem precisa devem constituir traços fundamentais da identidade cristã.

Em tantas passagens dos Evangelhos, Jesus coloca no centro a pessoa vulnerável: uma criança, uma mulher considerada pecadora, um cego, um doente… Jesus coloca no centro os que são marginalizados. No centro.

Recentemente, a capital espanhola foi palco de um acontecimento que colocou uma mulher de 87 anos no centro de uma disputa com uma empresa proprietária de um imóvel. A disputa judicial suscitou um complexo dilema ético.

Durante mais de sete décadas, Maricarmen viveu num apartamento no centro de Madrid. Na sequência de alterações substanciais ao valor da renda e depois de uma longa batalha judicial, o Tribunal Supremo espanhol acabou por dar razão ao proprietário. Maricarmen foi despejada. Quando um imóvel é visto apenas como um ativo destinado a gerar rentabilidade, a vida humana corre o risco de ser considerada um mero obstáculo num balanço financeiro.

O caso tornou-se amplamente conhecido. Maricarmen foi inesperadamente colocada no centro da atenção pública. Milhares de pessoas manifestaram-se em sua defesa, e a sua situação tornou-se um foco de mobilização nacional em torno do problema da habitação.

Quantas Maricarmen existem neste mundo? Qual deve ser a atitude da comunidade crente perante situações concretas em que a dignidade daqueles que deveriam estar no centro da nossa atenção se encontra ameaçada?

O vicentino é aquele que se faz próximo, que se coloca ao lado do outro… Mesmo com sacrifício pessoal, não vira as costas a estes irmãos e irmãs.

Alguns dirão: «Mas a senhora não tinha direito àquela casa». Pode ser verdade. Mas, ainda assim, não podemos ficar indiferentes. Porque a caridade, o amor, vai muito para além das fronteiras da justiça humana.

Queridos irmãos e irmãs,
Vivemos tempos desafiantes. Como todos sabemos, a revolução digital e, em especial, a emergência da inteligência artificial oferecem ferramentas poderosas, capazes de transformar profundamente a sociedade, mas também de agravar as desigualdades e criar novas formas de exclusão.

Neste cenário, urge reavivar o debate sobre os critérios éticos que devem orientar o agir humano. É precisamente esta reflexão que o Papa Leão XIV propõe na sua encíclica Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. A encíclica recorda-nos que os grandes princípios da Doutrina Social da Igreja — a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a justiça social e a atenção aos mais frágeis — devem continuar a orientar o desenvolvimento tecnológico. O mundo precisa de novos Bons Samaritanos.

Neste sentido, parece-me importante lançar-vos um desafio: potenciar estratégias de apoio aos irmãos mais carenciados que não se limitem à assistência imediata, mas que procurem também transformar as situações e as estruturas que geram pobreza e exclusão.

Lembro o exemplo de São Vicente de Paulo que conjugava a atividade caritativa com a denúncia das políticas e das circunstâncias que estavam na origem do sofrimento de tantos homens e mulheres, vítimas da guerra e da desigualdade económica.

Lembro também o Beato Frederico Ozanam que articulava a reflexão e a apresentação de propostas para uma sociedade mais justa com a assistência quotidiana aos mais pobres.

Somos chamados a manter vivo este modelo de ação, conjugando a caridade que socorre com o compromisso que procura transformar.

Bom seria que da família vicentina surgissem propostas concretas capazes de interpelar a Igreja, em geral, e as comunidades paroquiais, em particular, a colocar o amor ao próximo no centro da vida cristã.

Estou certo de que este compromisso poderia constituir uma oportunidade para o necessário rejuvenescimento das comunidades diocesanas, das paróquias e suas instituições. Precisamos de uma atitude mais ousada e corajosa, capaz de responder aos desafios do nosso tempo e de tornar mais visível, através de gestos concretos, o amor de Deus pelos mais pobres.

Recentemente, fui convidado a participar na celebração do aniversário da fundação de uma Conferência Vicentina. São já 112 anos de presença e de serviço aos mais pobres e desprotegidos. São poucos os grupos que conseguem manter, durante tanto tempo, uma presença tão significativa ao serviço dos outros.

A Família Vicentina tem uma bela história, mas tem também um futuro muito promissor, se permanecer fiel ao carisma recebido e souber encontrar novas formas de o viver e testemunhar.

Peçamos ao Senhor, por intercessão dos santos da Família Vicentina, que nos conceda um coração atento à dor dos outros, olhos capazes de reconhecer quem precisa de ajuda e coragem para abrandar o ritmo das nossas correrias e nos fazermos próximos de todos os que sofrem.

Que São Vicente de Paulo nos ajude a manter viva a chama da caridade, para que nunca nos faltem a alegria em servir, a inteligência para transformar e a audácia de amar.
Ámen.

(1) Cf. Darley e Batson,(1973) «From Jerusalem to Jericho». Journal of Personality and Social Psychology (27/01), p 100-108.
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