Eu sou a capitã da minha vida, não os protocolos: O grito de uma assistente social face à burocracia
Porque sou humana e sou mulher, não aceitei nem aceitarei viver uma vida desenhada para mim. Eu sou a capitã da minha vida, não os protocolos.


Daniah Alkaram
06 de maio de 2026
Começar uma nova vida num país estrangeiro não é, de todo, fácil. Independentemente das formalidades estatais e da burocracia, o que complica visivelmente a vida dos refugiados ou imigrantes em Portugal são, ironicamente, os assistentes sociais responsáveis por prestar o apoio social — seja ele apoio financeiro, procura de emprego ou qualquer tipo de suporte que o ser humano necessite para iniciar uma vida com dignidade humana.
Quando chegamos a Portugal, devido ao desconhecimento dos direitos e deveres, vivemos com o coração nas mãos, sob o medo do que a assistente social responsável pelo nosso apoio e integração possa fazer. Mas hoje, na qualidade de Assistente Social licenciada pela Universidade Católica Portuguesa, ou seja, formada tal como a assistente social da Santa Casa ou da Segurança Social, e vivendo no mesmo país, pergunto-me: como pode esta profissão ser humanamente ausente? Como se podem procurar soluções ilógicas e indisponíveis apenas para aplicar leis, protocolos e burocracia?
Nós, que aprendemos a mesma teoria, como pode um profissional esquecer o que é realmente a profissão de Serviço Social? Esta profissão existe para um objetivo nobre e humano, sendo o principal deles a aplicação dos Direitos Humanos. Como pode, então, ser a própria profissão a que retira os direitos à pessoa?
Há sete anos, assistentes sociais em Portugal deram-me uma lição de "desconfiança" que jamais esquecerei. Hoje, como assistente social licenciada há apenas um mês, ainda a tentar recompor-me e definir os meus objetivos neste novo país, vi-me na posição de "utente". Ao solicitar orientação para o mercado de trabalho, encontrei-me sob a pressão de uma procura de emprego forçada, com reuniões obrigatórias a cada 15 dias. E a assistente, abrindo o seu caderno e a sua caneta — objetos sempre presentes — pergunta-me, com um "sorriso amarelo": "Quer trabalhar na venda de roupa? Ou num Call Center?".
E os anos da minha vida que estudei para realizar o meu sonho? O que devo fazer com eles? E a minha crença de que eu seria a versão diferente, que mostra a verdadeira essência do que deve ser o Serviço Social hoje — humanidade, compreensão e apoio? Não compreendo como o conhecimento profundo em que mergulhei na Universidade se pode resumir da pior forma humana possível: o desrespeito pela opinião, desejos e aspirações do utente em ser o gestor da sua própria vida e voar no seu próprio mundo.
Recordo-me de, durante o curso, perguntar repetidamente às professoras: "Pode o assistente social obrigar o utente a algo que ele considera correto ou que o protocolo exige?". E a resposta era sempre: "Não. O utente tem direito à autodeterminação". Sempre que não haja perigo, violência ou algo grave que exija intervenção real, falamos da liberdade do utente em decidir o seu destino e da importância de respeitar essa liberdade na gestão da sua vida.
Aprendemos que não é nosso papel pensar pelo utente; ele tem todo o direito de pensar no que é melhor para si. Por mais que tentemos conhecer a sua história e pontos fortes, o nosso conhecimento sobre ele resume-se a poucas horas, o que não nos permite conhecer o que está verdadeiramente no seu interior. Como pode uma profissão de Direitos Humanos transformar-se no confisco do mais básico desses direitos: a autodeterminação?
Como ser humano e como assistente social, não abdicarei do meu direito de decidir o meu destino. Sou a única que sabe o que é melhor para mim. Não preciso de um tutor; sou suficientemente madura para ver a realidade em que vivemos — a escassez de emprego, as guerras, a inflação e as responsabilidades que carrego. Eu sei exatamente qual é o meu dever para comigo mesma e para com a minha vida, e não a senhora assistente social.
Se o meu castigo for a privação do apoio social, que assim seja. Pelo menos saberei que escolhi a minha saúde mental e emocional — algo que nunca foi uma decisão minha ou teve importância no meu passado, enquanto errava entre países até chegar aqui. Esta é a minha paragem, onde pousei toda a carga que trazia, reorganizei as minhas prioridades e libertei-me do passado para começar uma vida desenhada por mim. É meu direito viver uma vida que eu tracei, e não que outros tracem por mim, eu que estava habituada a viver vidas desenhadas em nome do patriarcado, da religião ou do machismo.
Hoje, como mulher de meia-idade, não aceitarei viver uma vida desenhada por uma assistente social sob o nome de "protocolos" — o nome não me interessa. O que me importa é que, se eu ou outros nos perdermos sob esta pressão, no final, a senhora assistente social continua a fazer o seu trabalho e a receber o seu salário, enquanto eu serei a "assistente social" que se perdeu por causa de outra assistente social que exerceu pressão porque me viu como um "número" ou um "caso", e não como um ser humano.
Porque sou humana e sou mulher, não aceitei nem aceitarei viver uma vida desenhada para mim. Eu sou a capitã da minha vida, não os protocolos.
