Ecos de um disparo
Baseado na megaoperação policial que deixou mais de cem mortos no sudeste brasileiro, este texto propõe uma reflexão sobre a violência urbana nas capitais do país. Não constitui fonte fidedigna de recolha de dados, apenas um retrato da dor humana por trás das estatísticas.


Paula Cavalcante
12 de novembro de 2025
Baseado na megaoperação policial que deixou mais de cem mortos no sudeste brasileiro, este texto propõe uma reflexão sobre a violência urbana nas capitais do país. Não constitui fonte fidedigna de recolha de dados, apenas um retrato da dor humana por trás das estatísticas.
Certo dia, Léo Carvalho acordou, mais uma vez, a resmungar por ter de se levantar tão cedo. Rebolou de um lado para o outro, até que o cheiro a café acabado de coar, vindo da cozinha, invadiu o quarto. Levantou-se e encontrou já a mãe a fritar os ovos, enquanto o pai ocupava a única casa de banho do lar. Bateu à porta:
— Pai, estou apertado, preciso ir.
— A porta está destrancada — ouviu em resposta.
Os três: diferentes membros de um mesmo organismo vivo, que funcionavam como se fossem um só, cooperando para tornar a vida mais fácil e feliz. Na biologia, chama-se a isso mutualismo. Na sociologia, chama-se família: a instituição sagrada do cristianismo que tantos homens solitários sonham em construir e ter.
Os pais viviam as suas vidas completamente adaptadas à realidade das crianças; e estas, com aquela certeza juvenil de que o mundo gira ao redor delas, só conseguiam pensar no aqui e agora — incapazes, ainda, de compreender que, paralelamente à sua visão, outras histórias se desenrolavam.
Imagina o susto que o Léo apanhou quando, mais tarde, antes do início da aula de Matemática, a diretora o chamou à secretaria e disse que o tio o aguardava na sala de espera.
— Precisamos de ir, pequeno. O teu pai foi assassinado.
Como assim? Algo capaz de mudar para sempre a vida de Léo acontecera sem que ele estivesse presente. O pai saíra para o trabalho, como todos os dias, mas, enquanto carregava a mochila pesada, de pé no autocarro apinhado rumo à empresa, foi baleado no coração. Nem teve tempo de perceber o que se passava.
Mais tarde, numa entrevista à televisão, o colega de trabalho do pai, João Silva, declarou, enquanto a mãe de Léo soluçava sem parar:
— Podia ter sido eu. Eu estava ao lado dele. Era um trabalhador, tinha família… e agora? Quem vai sustentar estas crianças?
Chorando, como quem leva um choque de realidade, João refletiu em direto:
— Aqui no Rio, o homem sai de casa e não sabe se volta.
Aquela frase ficou a martelar-lhe a mente durante dias, semanas, meses: “O homem sai para trabalhar e não sabe se volta.”
Quantas vítimas de homicídios João já conhecera? Quantos primos perdera para o tráfico de droga — esse mesmo tráfico que alicia rapazes como o Léo e que, mais tarde, quando já não têm dinheiro para sustentar o vício, os faz pagar com a própria vida?
João, porém, não conseguia afastar o pensamento do amigo que, num instante, estava ao seu lado e, no seguinte, sangrava nos seus braços.
Mas aquele tiro não fora uma execução nem uma bala perdida. Aquele tiro foi o resultado da Megaoperação realizada a 28 de outubro de 2025, nos complexos da Penha e do Alemão, com o objetivo de desmantelar a cúpula do Comando Vermelho (CV) no Rio de Janeiro (RJ).
O seu amigo, mesmo sendo um homem de bem, foi morto pelo CV, que, para impedir que as forças policiais subissem ao morro, disparou contra civis a fim de desviar a atenção das autoridades. Não apenas o senhor Carvalho, mas outros cinco civis foram mortos naquele dia para travar o avanço policial. Quatro agentes também perderam a vida.
Dias depois, João não conseguia acreditar no que via: o governador do Estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, do Partido Liberal, estava a ser condenado a 28 anos de prisão pela morte colateral de 120 criminosos. Além disso, a comunicação social discutia se o ex-presidente Jair Bolsonaro, a partir da prisão domiciliar, estava por trás desses números. Era mesmo inacreditável.
Para quem era obrigado a viver sob o jugo pesado das facções — que proibiam a comunidade de criticar o “governo paralelo” e de consumir água, energia, internet ou gás que não viessem das mãos superfaturadas dos mesmos que instauravam um Estado dentro do Estado — era evidente que a mídia procurava desviar a atenção do que realmente importava:
por que razão existem, no Rio de Janeiro, áreas onde o Estado brasileiro não manda, nem chega?
Áreas que o filósofo italiano Giorgio Agamben, no seu livro Stato di eccezione (2003), chamou de black spots — manchas negras de soberania suspensa.
João conhecia essa realidade. Se, certo dia, acordasse e visse no muro de casa uma pichagem vermelha com a sigla CV, teria de abandonar imediatamente o lar: a casa passaria a ser redistribuída entre os políticos e homens do partido que detinham o monopólio da zona.
Ele não estava bem. O trauma de ver o amigo morrer nos seus braços fê-lo deixar de sair de casa. Não permitia que as crianças fossem à escola e apenas a mulher trabalhava, vendendo bolos às famílias da vizinhança. — As meninas precisam de ir à escola, meu bem — insistia a esposa.
Ao olhar para as adolescentes, João tremia. Sabia que, se algum chefão do crime as visse na rua e as desejasse, elas passariam a ser dele — sem que ninguém pudesse impedi-lo de as tomar, nem de matar quem fosse preciso para isso.
Não era possível: naquele pedaço de inferno encravado na “cidade maravilhosa”, nem as virgens crianças escapavam. Durante o dia, João chorava. À noite, acordava a esposa com os gritos e os tremores do pânico que o assaltava nos sonhos. E, quando despertava, percebia que não era apenas um sonho.
Estava desesperado. Lembrava-se do pequeno Léo que, após a morte do pai, fora viver com a mãe e a avó. João ouvira dizer que, para ajudar a tapar o buraco na renda, o Léo arranjara um emprego e, tal como as suas filhas, deixara de ir à escola. A família era sagrada, e ele carregava a responsabilidade de proteger a sua. Foi difícil reerguer-se, mas precisava de ser homem.
Ao perceber que o Estado brasileiro abandonara por completo a zona onde vivia, João decidiu partir. Mas para onde, se o CV já marcava presença em 25 estados do Brasil?
Lembrou-se então de Portugal. Um amigo seu tinha ido no ano anterior e contara-lhe que estava a gostar, embora a vida lá fosse dura e de muito trabalho.
— Não há de ser tão diferente; aqui também trabalhamos muito — insistia João com a esposa.
— Não temos dinheiro para isso — respondia-lhe ela, sempre que o assunto vinha à conversa.
Era verdade. Não tinham dinheiro para isso.
E foi então que João percebeu: o luto que vivia não era apenas pelos mortos, mas também pelos mais de setecentos e trinta mil pessoas que, hoje, vivem reféns do Comando Vermelho no Rio de Janeiro — e que, assim como ele, não têm onde se refugiar.



