Açaí com Ginja. Uma História de Amor Lusotropical
Encontrei, entre as bugigangas, uma caixa verde-amarela e, dentro dela, correspondências trocadas entre um misterioso ministro brasileiro e um certo agente especial infiltrado em Portugal. A leitura me deixou perplexa, pois continha até uma carta do futuro.


Paula Cavalcante
28 de janeiro de 2026
Ao Júri do Concurso Literário
Lisboa, abril de 2025
Exmos. Senhores,
Peço-vos, com todo o senso de urgência que me resta, que leiam com atenção as cartas que seguem. Sei que correm o risco de parecerem absurdas, ou até inspiradas por delírios. Mas a verdade é mais inquietante do que a ficção — e o que descobri nas últimas semanas pode mudar para sempre a forma como olhamos a história luso-brasileira.
Arrendei um quarto em Benfica. A senhoria me disse que podia deitar fora todas as tralhas. Encontrei, entre as bugigangas, uma caixa verde-amarela e, dentro dela, correspondências trocadas entre um misterioso ministro brasileiro e um certo agente especial infiltrado em Portugal. A leitura me deixou perplexa, pois continha até uma carta do futuro. Eram relatórios detalhados de uma operação de recolonização cultural silenciosa, conduzida pelo Brasil contra Portugal.
Achei, a princípio, que fosse brincadeira ou material de um romance inacabado. Mas depois tudo começou a fazer sentido: a expressão “há muito tempo atrás” na boca dos portugueses e até a recente mudança do SEF para AIMA… Tudo foi meticulosamente planejado.
E é aqui que entra a minha inconfidência para o presente concurso. José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta — autores brasileiros da genial obra Terra Papagalli — criaram um livro híbrido, satírico, que mistura ficção, história e ironia, desmascarando os bastidores da colonização do Brasil. O que ninguém percebeu é que eles próprios trabalharam como agentes secretos deste golpe, e as cartas contidas no livro nada mais são do que uma provocação encriptada. Portugal leu e riu... sem notar que o alvo era ele próprio.
Desde a primeira leitura, encantei-me com a história e com a forma como o livro une o destino entrelaçado de portugueses e brasileiros. Sempre procurei divulgá-lo por reconhecer a sua relevância para os nossos dias interculturais — ele promove uma necessária reflexão crítica sobre história, linguagem e migrações. Mas, na altura, eu ainda não sabia que se tratava também de uma denúncia velada.
E se, afinal, o colonizador tivesse sido colonizado? E se o Brasil, cansado de séculos de subordinação simbólica, decidisse agir em silêncio e devolver a história — com juros e correção tropical? Pois bem, foi exatamente isso que aconteceu.
Terra Papagalli mostrou-me que a sátira é, por vezes, a mais afiada das verdades. E as cartas que agora vos entrego revelam justamente isso: um mundo onde a cultura brasileira se infiltra sorrateiramente em Portugal, alterando costumes, vocabulário e referências, sem que ninguém se dê conta — uma “vingança” que é, no fundo, uma carta de amor travessa entre duas nações que são uma só em memória e língua.
Se puderem ler estas cartas e, quem sabe, partilhar esta história, talvez ainda consigamos travar os planos.
Com esperança (e algum receio),
Subscrevo-me,
Paula Cavalcante
Testemunha acidental da Nova Lusitânia
Brasília, 12 de outubro de 1930
Do Gabinete do Ministro da Cultura e Influência Internacional
Para o Ilustríssimo Capitão C. de Andrade, Agente Especial
Prezado Capitão,
Antes de mais nada, permita-me parabenizá-lo pela merecida promoção. Desde o primeiro dia em que o tive como aluno na Academia Diplomática e de Contracultura, soube que estavas talhado para voos mais altos — e discretos.
É com particular satisfação que comunico a aprovação presidencial da nossa proposta de longo curso: a Operação Nova Lusitânia. Após cuidadosas revisões — e uma ou outra troca de favores nas esferas mais altas — o Excelentíssimo Presidente autorizou o início da missão que poderá, finalmente, inverter o curso da História.
Vossa Senhoria liderará uma força-tarefa de 300 agentes especiais, todos cuidadosamente treinados, que serão enviados em grupos de dez às principais freguesias portuguesas. O disfarce será, como combinado, o de estudantes universitários.
O objetivo central da missão é simples: conduzir uma colonização silenciosa de Portugal, usando apenas armas simbólicas — vocabulário, culinária e música popular. Com engenho e paciência, e nas mais otimistas projeções, esperamos que, até o final do século, o velho continente nos restitua o ouro.
Na certeza de que fará história,
subscrevo-me com a mais alta estima e confiança.
Lisboa, 4 de março de 1937
Do Gabinete do Agente Especial C. de Andrade
Para Sua Excelência, o Ministro Gervásio Lima da Fonseca
Meu estimado mestre,
Conforme acordado, desembarcámos em solo lusitano há sete anos, disfarçados, como quem — por hábito ou hipnose — reafirma a servidão à velha metrópole.
Temos nos instalado com sucesso nas principais universidades. A fase inicial concentrou-se na área linguístico-cultural: disseminação de expressões brasileiras, introdução de ritmos tropicais nas festas e, um lento e constante, ataque ao vocabulário local.
Tem razão: a mais eficaz das colonizações é aquela que se faz em ritmo de dança — e na qual o colono não se apercebe de que mudou de dono. É agora, com nossos diplomas em mãos e os agentes infiltrados em bibliotecas, rádios e câmaras municipais, que o verdadeiro trabalho começa.
À espera de vossa orientação, sigo ao serviço da Nova Lusitânia.
Lisboa, 8 de outubro de 1957
Do Gabinete do Agente Especial C. de Andrade
Para Sua Excelência o Ministro Gervásio Lima da Fonseca
Excelência,
Venho, por meio desta, apresentar o relatório referente aos vinte primeiros anos de execução da gloriosa e silenciosa Operação Nova Lusitânia.
Tal como a moqueca de peixe já divide espaço com o bacalhau à Brás, a feijoada convive pacificamente com a tripa à moda do Porto. Já se serve “feijoada com laranja” nos bistrôs com a mesma naturalidade com que, outrora, se servia caldo verde.
Doce de leite: Introduzido em diversas confeitarias tradicionais. Estamos tentando convencer os responsáveis pelos pastéis de nata a diversificarem o cardápio. Um chef camarada sugeriu ao patrão incluir empadinhas de doce de leite e brigadeiro. Foi demitido. Justifico que o referido agente não estava sob minha jurisdição, tampouco o conheço pessoalmente. Era, ao que tudo indica, um entusiasta gastronômico infiltrado por conta própria.
A orientação para que os artistas brasileiros aceitassem cachês inferiores ao dos europeus surtiu efeito imediato. Em certas casas de espetáculo lisboetas, os brasileiros já são maioria no elenco. Vamos expandir essa técnica. Já consigo ouvir o murmúrio portugueses do próximo século: “eh pá, estão a roubar-nos os empregos!”.
A juventude já ama os artistas brasileiros. Podem dizer aos meninos Caetano Veloso e Gilberto Gil que levem a sério o treinamento, quando forem deportados, terão o caminho desimpedido para conquistarem o imaginário popular. Recomendo, com máxima urgência, o envio de mais raparigas. Distraídas, sorridentes, nem precisam ser agentes: basta que estejam disponíveis para o convívio casual. Deste cruzamento espontâneo, surgirão mestiços de primeira geração que hão de sustentar o projeto nos anos vindouros.
Vossa sugestão, de embalar o pagode como se fosse cante alentejano, foi um êxito absoluto. Lançámos o CD cante de Ipanema e vendemos milhares de cópias. Bastou incluir uma música com participação especial do grupo coral de serpa para adormecer qualquer suspeita.
Gírias como “cara de pau” circulam entre a juventude, embora ainda não tenham destronado o “teve a lata de”. A previsão é que, com a chegada das telenovelas brasileiras, esse obstáculo seja superado.
Três dos nossos agentes tornaram-se professores universitários em Coimbra. Estão a disseminar, com requinte disfarçado, a noção de que “todo tipo de português é valioso”. Alegam que, com reforços estratégicos de pós-graduandos, poderão implementar um Acordo Ortográfico moldado ao estilo brasileiro. Embora eu ache essa ambição ousada, os avanços do grupo são notáveis.
Conclusão: os primeiros vinte anos demonstraram que a paciência dá frutos.
Lisboa, 15 de julho de 2085
Do Agente Especial C. de Andrade Filho
Para Sua Excelência, o Ministro da Reconstrução Histórica Tropical
Excelência,
É com grande entusiasmo que vos envio o último relatório da operação. Confesso que, mesmo não tendo sido um dos primeiros a pisar este solo lusitano orgulho-me do caminho que percorremos.
Com grande satisfação informo que a cobrança do Imposto de Gratidão Histórica foi finalmente aprovada pelo Parlamento Luso-Brasileiro, com sede em Brasília-Nova (antiga Figueira da Foz). Cada cidadão português contribui agora com 7,5% do seu rendimento bruto para o Tesouro Brasileiro, sob o lema “Quem colonizou, agora compensa”.
As escolas públicas oferecem o obrigatório Curso de Fluência em Brasileiro Avançado, ministrado por professores nascidos em São Luiz do Maranhão, com currículo que inclui gírias essenciais como “tu sabia que” e “mó legal”. A sofrência do sertanejo universitário superou, definitivamente, o tradicional fado. Entre os salgados, a coxinha de frango e o pastel são os mais consumidos. A sangria foi destronada pela caipirinha e pelo caldo de cana.
No setor da migração, a situação é deveras emocionante: as agências da República Federativa do Brasil para Processamento de Vistos de Portugueses (RFBPVP) têm filas quilométricas. O tempo médio de espera para um visto para morar em São Paulo ou Recife é de 14 anos e meio.
As mudanças culinárias são impressionantes: servir feijão sem farinha é agora considerada infração alimentar grave, punida com uma aula obrigatória de culinária baiana. Além disso, a substituição dos pastéis de nata por “tortinhas de paçoca” e do arroz doce pelo sagu foi noticiada pela RTP como um movimento de progresso.
Por fim, gostaria de registar que a Universidade de Coimbra obrigou os estudantes a recitarem trechos de Machado de Assis em voz alta, de olhos fechados e que cinco navios portugueses aportaram esta manhã, em Santos, devolvendo parte do precioso ouro mineiro.
Excelência, a missão está quase completa. Se me permite o atrevimento: o senhor devia ver com os próprios olhos. Venha, traga protetor solar e havaianas. Este país já fala e sente brasileiro.



