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A fé e as férias em tempo de pandemia

03 de Agosto de 2020, por M. Suzana Ferreira

Bruno Cunha

Inês Espada Vieira

João Pires Silva

Luciano Ferreira

Mafalda Guia

Manuel Guedes

Miguel Carvalho

Nélio Pita

Pedro Guimarães

Ricardo Cunha

Suzana Ferreira

Aquele mergulho profundo nas águas da Berlenga lavou o meu espírito do cansaço arrastado, da clausura da cidade poluída e da rotina empurrada nos infinitos dias de teletrabalho inesperado. Foi como se aquele deslize no mar turquesa centrifugasse os últimos meses da minha vida para me conferir uma maior nitidez.
É inequívoco para todos que os tempos que vivemos são inéditos, chega quase a ser um lugar comum falar da pandemia como uma realidade súbita que nos devastou e angustiou a todos. De facto, chegamos a este agosto com um elevado desejo de ar puro, liberdade e acima de tudo, com um enorme anseio de um horizonte mais limpo e de um céu mais azul.

 

O confinamento ofereceu à minha família, em especial, um tempo de partilha privilegiado materializado na oração diária que se tornou num tempo quase sagrado. O medo associado à sensação de fragilidade conduzia-nos todos os dias à sala, logo após o jantar. Era ali que repousávamos o pensamento e elevávamos ao céu as nossas preces, umas ditas e outras silenciadas na reserva interior de cada um. Somos cinco em casa, contas feitas dá um mistério do terço a cada um. Uns dias mais apressados, outros mais meditados, aquele tempo funcionou como uma purga de viroses, tanto as causadas pelos múltiplos tormentos da alma como as motivadas pelos vírus externos a que todos estávamos e estamos expostos. Tempos de paz que se prolongam nas férias, certamente porque em cada um de nós reside a certeza apaziguadora de que no céu há um Senhor que nos protege e em quem confiamos profundamente.
Oiço amiúde que o tempo de férias não é sinónimo de férias de Deus, na catequese repito essas e outras verdades com a certeza de que, se não as digo com o coração elas se espraiam tão rapidamente como a espuma das ondas. Tenho a firme convicção que a experiência da fé cristã só se enraíza em nós se assim o quisermos. É certo que os pais podem transmitir aos filhos todo um conjunto de princípios, saber e doutrina. Mas reside em cada um a procura, a busca incessante desse Jesus que transforma os nossos dias. É um ideal que se alimenta, temos de querer, temos de desejar, buscar, tornar realidade o Evangelho. Acredito que só assim os ideais de Jesus transpiram para os outros e reconvertem a nossa vida. Acima de tudo, é uma experiência individual que nos torna mais próximos uns dos outros na aceitação das diferenças e na procura espiritual.

 

Precisamente por isso, na minha família como certamente em tantas outras, vivem-se estes tempos de cinco formas tão diferentes. Cada um de nós percorre um caminho, mais ou menos tortuoso, tal como os trilhos percorridos na Berlenga. Recordo deste passeio, em conversa com um pescador, ter percebido que a única autoridade na ilha é, neste momento, o Instituto de Conservação da Natureza. São eles que protegem a paisagem como um bem precioso de todos, velam pelo seu cuidado e guardam-na para que a ordem se mantenha. Ali não há vestígios de pandemia, o ar e a brisa são tão puros que nos oxigenam a alma. Ao percorrer os caminhos da ilha não pude deixar de agradecer. A experiência do belo extravasa os nossos limites naturais. Incontornável não pregar os olhos no céu e dar graças por este equilíbrio invisível que para uns advém da força humana, mas que para mim, indubitavelmente, se alavanca no Deus que me protege, me cuida, guarda os que são meus e que me faz viver.
Há dias assim. Estava longe de pensar que naquela semana de férias, o dia vivido na ilha pudesse tatuar em mim um marco destes tempos. Conjugou-se tudo: a viagem de barco foi um purgatório em vida. Os marinheiros avisaram: “O mar hoje está picade!” na pronúncia que só as gentes de Peniche conhecem. Tortuoso o caminho até chegar ao paraíso, pensei. A nossa capacidade de arcar com as agruras reside sempre na forma como encaramos as adversidades. Na minha família, os mais otimistas estavam prontos para a aventura, os cautelosos (para não os rotular de amedrontados) tentavam a todo o custo enganar uma potencial agonia causada pelas ondas. É assim na vida. Tudo é uma questão de perspetiva.

 

Também nas férias, como ao longo da vida, importa ser capaz de parar para escutar o nosso coração e contemplar a beleza de Deus que está presente na natureza, nos acontecimentos, e nos outros. Depois, seguir em frente com mais otimismo, coragem e contemplação, permitindo dar um novo rumo à nossa vida. 
Este trilho é exigente, principalmente ao nível da nossa capacidade interior de renovação, e enquanto o vamos percorrendo talvez seja também necessário repensar no que nos torna pessoas com mais coração e com mais disponibilidade. Repensar o que nos transforma realmente. É isso que importa transmitir aos nossos filhos para que, com serenidade, possam também eles percorrer os seus caminhos.

 

Tenho como certo que quando estamos bem, equilibrados, conseguimos vencer melhor os obstáculos. O olhar modifica-se, a paisagem adquire outra cor e como que por surpresa, a cartografia percorrida altera-se. Assim é em tempo de pandemia e em tempo de férias. Para mim, é a fé que subjaz a esta diferente perspetiva porque afinal de contas, a fé subsume-se nas férias, na família, na pandemia e em toda a vida.

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