Unidade dos cristãos: a Charta Oecumenica 2025
Todo o eco que possam fazer da apresentação da Carta Ecuménica 2025 – nos órgãos de comunicação, nas vossas comunidades locais ou nas redes sociais – é bem-vindo e a nosso ver um serviço prestado ao País.


Pe. Peter Stilwell
21 de janeiro de 2026
A Charta Oecumenica (CO) de 2025 refere-se ao ecumenismo na Europa. Foi redigida e pela Conferência das Igrejas Europeias (CEC) e o Conselho das Conferências Episcopais Europeia (CCEE).
As origens da Carta Ecuménica remontam a 1997. Nesse ano, a Assembleia Ecuménica, reunida em Graz, Áustria, no rescaldo do colapso da USSR, que marca o fim da Guerra Fria, respondeu à necessidade de sarar as feridas do passado na Europa, nomeadamente no campo de religioso – uma Europa que conheceu milénios de conflitos culturais e religiosos, interrompidos pelo braço de ferro ideológico e militar do pós Segunda Guerra Mundial. Era preciso um documento que elencasse critérios e desafios para as confissões cristãs intervirem positivamente na reconstrução da Europa: (1) distinguir entre proselitismo e testemunho, (2) entre fundamentalismo e fidelidade, e (3) estabelecer critérios que moldassem relações entre confissões maioritárias e minoritárias, finalmente (4) dar juntos testemunho do Evangelho de Jesus Cristo.
Em 2001, a Charta Oecumenica foi assinada pelos presidentes da CEC e da CCEE o em Estrasburgo. Em 2020, no 20º aniversário da aprovação da CO, decide-se iniciar um período de consulta larga e profunda, a fim de a rever.
Em 2025, recolhidos e tratados os dados da consulta (setembro), as alterações foram aprovadas e a CO revista foi assinada a 5 de novembro pelo arcebispo ortodoxo Nikitas de Tyateira e Grã-Bretanha (presidente da CEC e da Churches Together in England) e o arcebispo Gintaras Grusas de Vilnius, Lituânia (presidente da CCEE). A cerimónia decorreu na Igreja do Martírio de São Paulo, na Abadia de Tre Fontane, em Roma. Na ocasião, recordou se que as várias denominações celebravam em 2025 os 1700 anos do Concílio de Niceia. Nesse encontro, o arcebispo Nikitas recordou que a CO Pretende ajudar as confissões cristãs na Europa testemunhar, num mundo caótico, que a verdade e a esperança perduram.
Recordo as origens do Movimento Ecuménico. O Movimento Ecuménico surgiu no século XIX, algumas franjas das confissões da Reforma. Ganhou estatuto formal em 1910, na Conferência Missionária de Edimburgo. A noção e o movimento respondiam a uma inquietação surgida entre missionários protestantes de que a imagem fragmentada do cristianismo (protestante), transmitida nas terras de missão, surgia como obstáculo à mensagem do Evangelho, porque contradizia na prática o perdão e a reconciliação que o Evangelho anunciava. Num mundo dilacerado pela Grande Guerra (1914-1918), foi ganhando relevância a urgência evangélica de responder às grandes carências sociais, de colaborar na construção da paz. Nasceu assim uma linha de reflexão e colaboração intitulada “Vida e Trabalho” (1925). Dois anos depois, nasce uma segunda linha de trabalho conjunto, intitulada “Fé e Ordem” (1927). Terminada a II Guerra Mundial, é fundado o Conselho Mundial das Igrejas (1948).
A Igreja Católica despertou a nível institucional tardiamente para a importância do ecumenismo. Foi sobretudo com o Papa Leão XXIII (1958-1963) e o Concílio Vaticano II (1962-1965). Mesmo, então, contudo, ela assumiu-se como “observadora” apenas e não integrou como membro o Conselho Mundial das Igrejas. A razão foi então e continua a ser que o Movimento Ecuménico não reconhece o princípio do Primado, ou seja, do ministério de Pedro na articulação das comunidades cristãs. Terá pesado também seguramente o facto de que, ao inscrever-se, seria um membro entre cerca de 350, embora representasse duas a três vezes o número de cristãos do que as demais denominações juntas. Apesar disso, a cooperação fraterna entre comunidades cristãs tem aumentado muito significativamente nas últimas décadas. Quase que se podia dizer, na razão inversa do ritmo em que as sociedades se tornam mais religiosa e etnicamente plurais.
Ao terminar, resta-me testemunhar o trabalho positivo que tem sido feito em Portugal, no campo do diálogo inter-religioso, tal como a CO recomenda na sua penúltima secção. Tem sido uma área a que, por mandato de sucessivos patriarcas de Lisboa, me tenho dedicado desde o ano 2000. Graças a uma Constituição da República clarividente, e a uma Lei de Liberdade Religiosa das mais avançadas do mundo, a relação entre comunidades de religiões distintas tem sido muito positiva.
Recordo que há duas instâncias governamentais que refletem a clarividência do nosso sistema: a Comissão para a Liberdade Religiosa – na dependência do Ministério da Justiça – e o Grupo de Trabalho para o Diálogo Inter-religioso – coordenado pela AIMA, Agência para a Integração, Migração e Asilo. Na migração, na vacinação, nos hospitais, nas prisões, nas forças armadas, nas escolas, e até nos cemitérios, a sociedade portuguesa está a evoluir rapidamente. O que nalguns países tem sido fonte de atrito, felizmente, entre nós, tem-se revelado em geral uma experiência de “boa vizinhança”. Com isso, todos ganhamos.
Falando da Igreja católica, os Papas têm dado o exemplo, de João XXIII a Leão XIV. Entretanto, em Portugal, a rede nacional de responsáveis diocesanos pelos contactos ecuménicos e inter religiosos foi institucionalizada pela Conferência Episcopal e está em expansão. Se me é permitido um aparte pessoal – a tradição cristã fala do “Pai da mentira”, que se regozija nas inimizades que suscita. Oxalá saibamos desarmar as suas incursões. Já nos bastou o dedinho da política na nefasta experiência da Inquisição em Portugal e Espanha, e as Guerras das Religiões um pouco por toda a Europa.
Todo o eco que possam fazer da apresentação da Carta Ecuménica 2025 – nos órgãos de comunicação, nas vossas comunidades locais ou nas redes sociais – é bem-vindo e a nosso ver um serviço prestado ao País.
A CO é um importante instrumento de trabalho que visa facilitar: (1) a atenção à sociedade, em Portugal e na Europa, (2) a reflexão sobre os desafios que aí se colocam, e (3) a colaboração entre cristãos na construção de uma sociedade mais fraterna.



