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Uma história humana, feita de perdas, adaptação e reconstrução

O meu nome é Mahdiya. Sou afegã, refugiada em Portugal, estudante de Medicina, e tenho formação em Ciência Política. A minha história cruza diferentes mundos — o Afeganistão, o exílio, a Academia, a saúde — mas acima de tudo é uma história humana, feita de perdas, adaptação e reconstrução.

Uma história humana, feita de perdas, adaptação e reconstrução
Mahdiya Erfani
18 de fevereiro de 2026

O meu nome é Mahdiya. Sou afegã, refugiada em Portugal, estudante de Medicina, e tenho formação em Ciência Política. A minha história cruza diferentes mundos — o Afeganistão, o exílio, a Academia, a saúde — mas acima de tudo é uma história humana, feita de perdas, adaptação e reconstrução.

Cheguei a Portugal num contexto de rutura. A saída do Afeganistão não foi apenas uma mudança geográfica; foi uma interrupção brusca da vida como a conhecia. Deixei para trás estudos, amigos, referências culturais e um sentido claro de futuro. Quando cheguei, estava fisicamente segura, mas emocionalmente em suspenso — entre o que fui e o que ainda não sabia que podia ser.

No dia a dia, a vida de uma pessoa refugiada é feita de pequenos desafios constantes. Aprender uma nova língua. Compreender sistemas administrativos complexos. Tentar fazer reconhecer anos de estudo e trabalho. Construir relações num contexto em que, muitas vezes, somos vistos primeiro como “refugiados” e só depois como pessoas. Atualmente, divido os meus dias entre os estudos, a formação académica e o esforço contínuo de integração — um processo que exige energia emocional, paciência e resiliência.

Migrar provoca também uma crise de identidade. De repente, deixamos de ser apenas quem somos — passamos a ser “a pessoa que veio de fora”. Muitas vezes somos pressionados a escolher entre integrar-nos ou manter a nossa identidade, como se estas duas coisas fossem incompatíveis. Na realidade, integração saudável acontece quando há espaço para coexistência: pertencer sem apagar a origem.

Quando falamos do Afeganistão, hoje, é essencial fazê-lo a partir de uma perspetiva humanitária e social, não apenas política. O país enfrenta uma crise profunda: insegurança alimentar generalizada, colapso de serviços de saúde, falta de acesso a cuidados básicos, especialmente para mulheres grávidas, mães e recém-nascidos. A saúde materna e neonatal está gravemente comprometida — não por falta de conhecimento médico, mas por restrições estruturais, pobreza extrema e exclusão das mulheres dos sistemas de decisão.

A situação das mulheres afegãs é particularmente crítica. Não se trata apenas de direitos formais, mas de dignidade diária: acesso à educação, ao trabalho, à saúde, à participação social. No entanto, é importante sublinhar algo fundamental: as mulheres afegãs não são apenas vítimas; são agentes, cuidadoras, profissionais, estudantes, líderes comunitárias. Mesmo em contextos de opressão, existe resistência silenciosa e força coletiva.

Enquanto cientista política, compreendo os mecanismos de poder, exclusão e controlo. Mas como futura médica, vejo sobretudo as consequências humanas dessas decisões: corpos vulneráveis, saúde fragilizada, sofrimento evitável. A política torna-se real quando afeta a alimentação de uma criança ou o parto seguro de uma mulher.

Gostaria também de tocar num ponto menos óbvio, mas importante: o diálogo inter-religioso e cultural. Tendo vivido em contextos muçulmanos e agora em contacto próximo com comunidades cristãs, reconheço muitas semelhanças profundas entre o Islão e o Cristianismo – valores como compaixão, hospitalidade, dignidade humana, cuidado do próximo. Estas pontes são muitas vezes invisíveis, mas essenciais num mundo marcado por polarizações.

Neste percurso, a Igreja teve, e pode continuar a ter, um papel muito específico e insubstituível. Diferente de outras instituições, a Igreja não atua apenas através de serviços ou políticas. Atua através da presença, da escuta, da relação. Para muitas pessoas migrantes, a Igreja é o primeiro espaço onde não são interrogadas, mas acolhidas. Onde não precisam de justificar a sua existência.

A diferença entre a Igreja e outros setores está precisamente aqui: a capacidade de ver a pessoa antes do estatuto. De criar comunidades, não apenas respostas. De acompanhar processos longos, em que a confiança é construída com tempo.

É também importante distinguir entre refugiados e imigrantes. Ambos enfrentam desafios, mas partem de realidades diferentes. O refugiado foge por necessidade, muitas vezes sem escolha, sem preparação, sem tempo. O imigrante, em geral, planeia, escolhe, projeta. Misturar estas realidades pode invisibilizar necessidades específicas, sobretudo ao nível psicológico e emocional.

A Igreja pode ajudar reconhecendo estas diferenças, oferecendo acompanhamento personalizado, mediação cultural, espaços seguros de diálogo, e sobretudo algo simples mas poderoso: continuidade. A integração não acontece num mês nem num ano. Acompanhamento humano de longo prazo faz toda a diferença.

Gostaria de terminar com esta reflexão: as pessoas refugiadas não trazem apenas carências, trazem histórias, competências, perspetivas e vontade de contribuir. Quando criamos espaços de encontro verdadeiro, não estamos apenas a ajudar quem chega. Estamos a transformar a comunidade inteira.

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