Saudades ... só do futuro

Jamais pensei que a experiência vivida anos atrás em Jerusalém, Nazaré e Belém fosse agora tão configuradora de uma quarentena e de uma Quaresma sentida de forma tão sui generis. Jamais achei possível que ao final de um dia de trabalho ... unida a mais de 13 mil pessoas.

Saudades ... só do futuro
Maria Suzana Ferreira
21 de abril de 2021

A desculpa de não poder atender a chamada pareceu-me bizarra. Era o aniversário da minha filha mais nova e eu devolvia um telefonema de parabéns também por mim não atendido. Era da sua madrinha de batismo, uma amiga muito querida com quem não falava há tempos. A pandemia tem destas coisas. A resposta foi: “Ligo-te mais tarde porque estou em peregrinação!”. Esta frase inesperada, dita em pleno confinamento, justifica o adjetivo por mim utilizado.

Mais tarde e abreviando a história, percebi do que se tratava: era uma peregrinação virtual pela Terra Santa, pelos locais que havia visitado faz agora três anos. Tratava-se de um caminho quaresmal capaz de ser percorrido a partir da minha secretária de trabalho, realizado com a mestria de um sacerdote, mexicano de origem, mas israelita de coração, que coloco ao nível dos atuais influencers digitais. Embrenhado pela beleza cinematográfica e inédita de uma Terra Santa deserta pelo Covid, e por isso plena de paz, a que não é alheia a crueza das paisagens do deserto e dos locais onde se deu a paixão de Jesus.

Suscitou-me a curiosidade e em poucos minutos percebi que não era só a minha. Em cada sessão diária de catequese e visita aos lugares sagrados, seguida da eucaristia diária, geralmente campal, estavam 13500 pessoas on line, peregrinos fidelizados que não arredaram pé ao longo dos 40 dias da Quaresma. Interpelou-me profundamente a dimensão e a abrangência do que podem ser os católicos pelo mundo, cujas diferenças horárias se derrubam ante a magnitude da mensagem de Jesus partilhada pelos 5 continentes.

É certo que o tema é apetecível, mas não deixa de ser significativo que no horário marcado, no minuto de início, o número de conexões disparasse e subisse em grupos de 100 seguidores, ora 600, ora 1100, ora 3000 e num ápice transformavam-se diariamente numa comunidade de pessoas que se conecta, caminha, reza a um Deus que nos une independentemente da hora e do local, da pandemia e de tantas outras patologias de que enferma a realidade de cada um. Senti o mundo em quarentena unido numa Quaresma viva e real.

Reconheço que os tempos que vivemos convidam à esterilidade das sementeiras no que à fé diz respeito. As pessoas fecham-se sobre si mesmas em egocentrismos dissonantes e perdidos na busca de antídotos esotéricos, voltamo-nos para o casulo das nossas casas de onde sairá a crisálida, não se sabe bem quando. O carisma de uma mensagem intemporal, transmitida por um sacerdote que fala de uma forma apaixonada sobre o que verdadeiramente o faz viver toca as pessoas, contagia, faz-nos regenerar e renascer nesta primavera tão desejada.

Dito de outro modo, percorrendo o credo de Niceia-Constantinopla, recorta-se cada verdade da fé e, com um realismo teológico explicado, decalcamo-la em paisagens reais que evocam o passado de há 2000 anos, reatualizado hoje e tornado presente em cada dia. Acompanha-me a certeza de que o futuro se concretiza numa dinâmica de vasos comunicantes em que o que me foi transmitido, é agora vivido e daqui depende a solidez dos meus alicerces futuros. A verdade emerge naquelas terras com uma evidência comovente.

Não obstante a aridez dos ecrãs, pudemos sentir o que é o cristianismo comprometido dos pastores desta nossa Igreja, por vezes tão diferente do que experimentamos na presença de santos sacerdotes desalentados, que não passam de funcionários tristes de uma estrutura cuja seiva, por isso, se pode manifestar escassa.

De facto, peregrinar à Terra Santa sempre foi um sonho que alimentei desde jovem, uma prioridade que integrava nos destinos de viagens para quando houvesse condições para tal. É de tal modo estruturante que desejo que os meus filhos possam ter essa experiência o quanto antes. Acompanho a obrigação muçulmana da importância de peregrinar à cidade sagrada, e até a ancestral prática do judaísmo de ir, pelo menos uma vez por ano, ao templo! Conhecer o passado do que nos molda no presente, experimentar a riqueza da comunhão, é quase como, para mim católica, respirar o ar que Jesus inspirou.
Sem memória não há profecia e fechar os olhos ao passado torna-nos irremediavelmente mais pobres e tristes em relação ao futuro. Isto é tão mais verdade quando se trata do que molda a nossa existência: a fé. Quer queiramos quer não, a forma curiosa de ver e encarar a vida está dependente da realidade objetiva e da consequente interiorização do que já vivemos no passado e do que estamos no presente a viver.

Jamais pensei que a experiência vivida anos atrás em Jerusalém, Nazaré e Belém fosse agora tão configuradora de uma quarentena e de uma Quaresma sentida de forma tão sui generis. Jamais achei possível que ao final de um dia de trabalho, entre pareceres jurídicos e elaboração de projetos normativos pudesse, após uma caminhada higiénica no exterior, sentar-me na secretária do meu escritório artificial, na sala da minha casa, que partilho com o meu marido em teletrabalho, e estar unida a mais de 13 mil pessoas. Impensável ajoelhar-me com elas diante de um ecrã, na consagração ou mesmo em veneração diante da gruta da natividade, enquanto ouvia, ao meu lado, a discussão de um qualquer orçamento para os pontões de um traçado de engenharia de uma nova linha de comboios. Todos são itinerários que o homem percorre, uns de ligação terrestre entre localidades, e outros, o meu, de ligação espiritual entre a terra e o céu.

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