Quem pode segurar o Homem?

O Homem domina mesmo o mundo, o conhecimento duplica de forma cada vez mais acelerada, mas continua a persistir aqui uma mão invisível, como em tempos Adam Smith aplicou à Economia, que revira as certezas e que em sobressaltos súbitos nos faz acreditar que o Homem não é o dono e o senhor da criação...

Quem pode segurar o Homem?
Maria Suzana Ferreira
11 de agosto de 2021

“Para lá do Marão, mandam os que lá estão”, ouvimos desde sempre a sabedoria popular reivindicar uma vincada autonomia, fictícia por imposição legal, porém concretizada na forma de viver de quem habita terras configuradas na nossa cartografia como “um fim de mundo”. A ser bem verdade o adágio e percorrendo uma parte do território esquecido, convenço-me que, de facto, pelas aldeias desertas do país, são as gentes locais que com a sua resiliência, se organizam e se fortalecem, se motivam e desenvolvem, muito para lá do que sabemos nas grandes cidades e ainda mais além do que a mão humana pode controlar.

Em passeio pela zona raiana da Beira Baixa dou-me conta de uma paisagem fronteiriça bem próxima das mais altas planícies alentejanas. Por lá não se vê vivalma, mas percebemos que em tempos aquela zona camuflou negócios de contrabando, emigração a salto e nos tempos mais recônditos, lutas de conquista e reconquista que agitavam os ares e que, hoje, a aldeia de Segura não conseguiu, de facto, segurar!
Dali parti para um novo paraíso, este outro um tanto mais povoado. Fiquei uns dias na albufeira do Cabril, precisamente numa antiga casa destinada aos engenheiros responsáveis pela construção da barragem. Uma obra de envergadura monumental que, integrada na paisagem, modificou substancialmente a vida daquela zona. A intervenção humana alterou o curso da água, tornou os terrenos mais férteis, desenvolveu a região, gerou um potencial de energia, não somente a elétrica e materializou uma mudança que hoje se espelha numa beleza de encantos multiformes.

Temos por certo que o homem é um ser dotado de uma força inaudita e de uma inteligência indizível. Em conversas de férias com amigos, alguns deles dados a temas um tanto visionários, referiram-me um autor, arquiteto e pensador Buckminster Fuller, que confesso, desconhecia. É apontado como um dos primeiros a afirmar que, até 1900, o conhecimento produzido pela humanidade dobrava aproximadamente a cada 100 anos. No final da Segunda Guerra Mundial, esse período já havia caído para 25 anos. Hoje, esse cálculo é um pouco mais complexo devido às diferentes formas de conhecimento, mas em média o conhecimento humano duplica em cada 13 meses. Nesta perspetiva, custa a crer que todo o conhecimento produzido pela humanidade no ano de 2020 seja superior que todo o saber gerado pela humanidade, desde sempre e até àquela data.

Com a certeza desta magnanimidade, deslizamos de carro pela Nacional 2, são percursos sinuosos em direção às múltiplas e belíssimas praias fluviais da região. Passados os incêndios que fustigaram toda esta zona, contemplam-se agora paisagens verdes a perder de vista, onde ainda espreitam as copas depenadas de troncos escurecidos pelas chamas, despidos pela força voraz do fogo e que constituem uma marca de sofrimento de uma remota lembrança que habita naquelas populações.

Percorro as praias fluviais da zona, ainda sem os habituais imigrantes, nota-se a alegria das famílias ansiosas pelas almoçaradas dos domingos quentes e secos de um agosto que se avizinha quase normal. Por seu lado, as máscaras avistam-se pouco, usam-nas por um imperativo legal, presas no pulso por quem se encontra algemado por outras preocupações que não as decisões de um governo central que só se lembra destas gentes quando o rei faz anos ou, dito de outro modo, quando há uma calamidade ou uma inauguração bruscamente antecipada. Noto que as populações pouco se importam, ali o ritmo é outro, é outro mundo. Há um sentimento de desejo de normalidade acompanhado pelo entusiasmo que a natureza, sem o saber, gera em cada um de nós.

Nestas incursões reflito sobre esta realidade de contrastes abruptos, como a calma das águas da barragem a montante e a força invisível de uma turbina com a passagem da água na abertura das comportas. De facto, olhamos para trás e percebemos o impacto dos inúmeros progressos da medicina e da tecnologia na vida das pessoas, os avanços dos transportes inimagináveis há décadas, a estonteante loucura das comunicações, escusando-me a tecer comentários ao tempo que demorou a conceber uma vacina para toda a humanidade.

Como é possível que o Homem domine desta forma o mundo, com um conhecimento sem limite e, porém, sejamos fustigados com notícias que dão conta das graves inundações da Alemanha e da Bélgica, dos incêndios na Califórnia para não falar sobre um vírus na China que jamais chegaria à Europa. Com uma distância esbatida por uma objetiva pouco científica, parece que a natureza e o planeta teimam em marcar posição, com avanços e retrocessos numa conquista desequilibrada.

O Homem domina mesmo o mundo, o conhecimento duplica de forma cada vez mais acelerada, mas continua a persistir aqui uma mão invisível, como em tempos Adam Smith aplicou à Economia, que revira as certezas e que em sobressaltos súbitos nos faz acreditar que o Homem não é o dono e o senhor da criação, que o HomoDeus de que se fala poderá não passar de uma verdadeira ilusão.

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