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Presente e futuro de Moçambique

Moçambique é um dos países mais jovens do mundo: cerca de 60 % da população tem menos de 25 anos e mais de 50 % tem menos de 18 anos, refletindo um enorme potencial de capital humano para o futuro socioeconómico do país.

Presente e futuro de Moçambique
Pe. Luciano Ferreira, CM
15 de abril de 2026

1. Cascata de emergências
Moçambique é considerado um dos países mais severamente afetado pelas alterações climáticas globais, enfrentando ciclicamente cheias e ciclones tropicais durante a época chuvosa, que decorre entre outubro e abril. O Instituto Nacional de Meteorologia alertou, em 24/03/26, para o agravamento dos fenómenos climáticos extremos com aumento de temperaturas, chuvas intensas e subida do nível do mar, numa altura em que o país enfrenta novas inundações,

O número de mortos na atual época das chuvas no País subiu para 306, com 1,05 milhões de pessoas afetadas, desde outubro (INGD, dados de 30/03/26)). Ao todo, 304 unidades de saúde, 109 locais de culto e 764 escolas foram afetadas em menos de seis meses. Os dados indicam também que 316.267 hectares de áreas agrícolas foram perdidos, afetando 371.320 agricultores; 531.116 animais morreram, entre bovinos, caprinos e aves. Foram ainda afetados 9.522 quilómetros de estradas, 51 pontes e 237 aquedutos.

Desde outubro, o Instituto de Gestão de Desastres ativou 197 centros de acomodação, que chegaram a albergar 139.461, dos quais 29 ainda estão ativos, com pelo menos 9.751 pessoas, além do registo de 7.214 que tiveram de ser resgatadas.

Acresce que grande parte da população é incapaz de atender às suas necessidades básicas: 60.7% é afetada pela pobreza multidimensional, 38.8% vive em condição de pobreza severa, 74.5% vive com menos de 2.15 dólar/dia e 46.1% sobrevive abaixo da linha nacional de Pobreza, com apenas 1.90 dólar/dia.

O Índice de Desenvolvimento Humano coloca o país na posição 183 (de 193), com 0.461, sendo o décimo país mais pobre do mundo e o mais pobre da África Austral. Faz parte, ainda, dos países costeiros mais pobres do mundo (apesar das grandes reservas de recursos naturais, como gás natural e pedras preciosas).

2. Solidariedade
Embora a concentração internacional das atenções esteja a incidir, há mais de 4 anos sobre as guerras Rússia/Ucrânia, Israel/Palestina e, ultimamente, Estados Unidos-Israel/Irão, desviando a atenção de outros conflitos (como o que se regista no Norte de Moçambique) e, por isso, enfraquecendo, em alguns casos propositadamente, as formas e meios de apoio humanitário, é mesmo assim apreciável a lista de países que têm vindo a ajudar o Pais nas recentes calamidades: a União Europeia, os Estados Unidos, Portugal, Angola, Espanha, Timor-Leste, Suíça, Noruega, Japão, China, França e Alemanha, além de países vizinhos, enviaram ajuda humanitária de emergência, num total de 4,3 milhões de meticais, segundo o Governo. Aquando da visita do Presidente Chapo a Bruxelas, a União Europeia doou mais 20 milhões de euros (cf. o País,18/03/26).

Para além disso, várias organizações humanitárias de diversos países, como a Cruz Vermelha, os Médicos sem Fronteiras, o PAM, diversas confissões cristãs, dioceses e congregações missionárias conjugaram esforços e canalizaram ajudas de emergência para relançar a vida das populações.

Dentro do País, muitas iniciativas envolveram entidades de boa vontade, confissões religiosas, famílias e, em especial a comunidade católica e seus pastores. Em relação às cheias, foi notável a recolha e organização de meios de socorro da Cáritas Nacional (em colaboração especial com a Cáritas portuguesa) e das Cáritas Diocesanas, nomeadamente no Sul e o acompanhamento de centros de acolhimento e trânsito, com apoio de Congregações Religiosas (como foi o caso das FC e voluntários vicentinos em Chiaquelane, com 11.142 deslocados; ou em Chinhacanine/Chirrundzo, com 9.213). Sobressaiu o empenho de muitos voluntários jovens e de gente solidária, sob o lema “A solidariedade não se afoga, mesmo quando tudo se encontra submerso”!

3. Proximidade missionária ao povo:
Perante a conjugação impressionante de flagelos no País – desastres naturais, insurgência armada e corrupção – a Comunidade Católica e seus Pastores, com os agentes leigos e missionários no terreno – dão claro testemunho de proximidade ao povo mais frágil. O enviado do Papa a Moçambique nos começos de Dezembro 2025, elogiou esse testemunho de amor e serviço:

“As partilhas dos agentes pastorais da diocese de Pemba (Cabo Delgado) me comoveram. Alguns padres, forçados a deixar suas paróquias, continuam acompanhando seu rebanho como "pastores deslocados". Comunidades religiosas que vivenciam a insegurança, em vez de fugir, abriram as portas para quem está situação pior. A Igreja local não abandonou o povo que sofre. Agradeci-lhe sinceramente por este testemunho. Há também todo o esforço humanitário para lidar com as muitas emergências resultantes da situação. Ela colabora com outras organizações das Nações Unidas e com a sociedade civil para fornecer o necessário aos deslocados: alimentação, vestuário e abrigo seguro. O serviço concreto e eficiente da Caritas Diocesana de Pemba deve ser apreciado e apoiado. Além disso, a Caritas se esforça para promover a paz e a harmonia socio-religiosa. Em Pemba, participei de um breve encontro inter-religioso, organizado pela Diocese, com a participação de representantes muçulmanos e de outras religiões”.

Segundo o Arcebispo D. João Carlos, durante os dias mais aflitivos das inundações que, afetaram sobretudo as Províncias do Sul, “o Papa Leão deu voz e visibilidade ao drama que se vive em Moçambique, e a todos interpelou à proximidade para com os que sofrem”. Desde o primeiro momento, as Caritas, os Bispos, os Religiosos, as Paróquias, lançaram apelos à solidariedade. Foi possível, só em Maputo, criar 60 centros, e em Gaza 42. A ação concertada e intervenção de muitos ajudou a evitar o pior… (cf. Vat. News, 04/02/26)
Em relação ao grande obstáculo que é guerra em Cabo Delgado, com tantos anos de conflito, são milhares os deslocados e comunidades destruídas. Um país que vive em guerra numa das suas regiões mais ricas em recursos naturais não pode falar seriamente de desenvolvimento.

Daí a importância da presença e ação da Igreja Católica, em especial na Diocese de Pemba, através dos missionários e religiosas(os), das paróquias e comunidades cristãs, assistindo, formando, socorrendo, promovendo a dignidade e os direitos das populações mais desamparadas.

"Podemos afirmar que a Igreja Católica é insubstituível na promoção da paz, da justiça social e da reconciliação entre os moçambicanos e respeita os demais intervenientes nesta empreitada de paz", escreveu Filipe Nyusi, anterior Presidente, na sua página da rede social Facebook, após a missa, em Pemba, do enviado de Leão XIV.

Durante a visita do secretário de Estado do Vaticano (10-14/12/25) em nome do Papa, Parolin foi claro sobre a situação angustiante deste conflito que se arrasta há mais de oito anos, sem fim à vista, após ter contactado a realidade dos deslocados de guerra no campo de Naminawe, com cerca de 9.200 pessoas, incluindo cerca de 3.700 crianças… Apesar do apoio de algumas organizações, sofrem com a falta de alimentos, medicamentos e até mesmo água potável. As crianças nesse acampamento, assim como centenas de milhares em outros acampamentos espalhados pela região, correm o risco de perder o futuro pela falta de educação adequada. Foi uma experiência profundamente dolorosa. Tanto sofrimento, tanta tristeza, tantas perguntas sem resposta emergiram daqueles rostos!

Preocupação da Igreja é que este conflito no Norte não venha a cair na categoria de "conflitos esquecidos". Daí este gesto de profunda solidariedade para com as populações atingidas pela violência armada. A visita, realizada em nome do Papa Leão XIV, pretende encorajar as comunidades que há anos enfrentam ataques, deslocações e instabilidade.

4. Olhando o amanhã
Moçambique é um dos países mais jovens do mundo: cerca de 60 % da população tem menos de 25 anos e mais de 50 % tem menos de 18 anos, refletindo um enorme potencial de capital humano para o futuro socioeconómico do país. Com uma população total que já ronda os 35 milhões, a juventude constitui uma parcela substancial da força social e produtiva. Contudo, mais de 55 % dos jovens não estão empregados.

São pois aqui adequadas as palavras do referido Cardeal em visita a Cabo Delgado: “É preciso reforçar a convivência pacífica e promover a reforma institucional, com o processo de "diálogo nacional inclusivo". “Espero que seja bem-sucedido, também para dar esperança aos jovens que constituem a maioria do país, cujo entusiasmo pude constatar durante a Santa Missa conclusiva da Jornada Nacional da Juventude”.

Para Severino Ngoenha, conhecido professor universitário, o País possui um núcleo de valores, tradições e esperanças que devem ser preservadas e nutridas. Este núcleo representa a identidade da nação, sua cultura rica e diversificada, e a resiliência e esperança de seu povo. (em: “Carta”, Maputo, 20/11/23)

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