Pobre Judas

Penso em Judas e penso no excluído, no deslumbrado com a riqueza fácil, no malandro que quer conseguir o proveito próprio à custa de um expediente mais ou menos mal urdido. Penso no espertalhaço que prepara a trapaça com os olhos na recompensa fugaz e não nos danos permanentes.

Inês Espada Vieira
01 de abril de 2021

Tenho pena de Judas. A sério. Não consigo olhá-lo como o mau, o traidor, o culpado que nos ensinaram, que repetimos em dizeres ofensivos, e que continuamos a encontrar cada Páscoa nas invocações da paixão.

Pobre Judas; era um dos doze, mas nunca realmente o foi. Estava excluído desde o início e coube-lhe na história a personagem do mau que, como em todas as narrativas tradicionais, serve de oponente ao bom, para que este último possa superar-se e concretizar como herói. Não me atrevo a fazer uma exclusiva leitura literária dos textos bíblicos, nem me fico no pensamento medieval de São Tomás de Aquino sobre um Deus que permite males menores com vista ao maior bem. Porém, é certo que me interpela, na história de Judas, o momento do seu arrependimento por ter entregado Jesus.

Penso em Judas e penso no excluído, no deslumbrado com a riqueza fácil, no malandro que quer conseguir o proveito próprio à custa de um expediente mais ou menos mal urdido. Penso no espertalhaço que prepara a trapaça com os olhos na recompensa fugaz e não nos danos permanentes. O pobre do Judas, com a mania de que era esperto…

Como num desmedido julgamento público, Judas ficou para sempre em estado de condenado. Condenamos-lhe a trama, a escolha, a decisão, o beijo. Só condenamos. Não o ouviram os sumos sacerdotes e os anciãos a quem foi pedir para desfazer o negócio, nem o ouvimos nós. Ninguém olhou para ele. Nem quando se arrependeu, nem quando tentou resolver a situação. É verdade que não procurou quem o podia perdoar, mas tivesse ele ido falar com um dos discípulos, teria sido diferente? O mesmo Pedro, que acabava de renegar Jesus, teria estendido a mão a Judas? Quem o teria procurado entender em vez de responder que o assunto era ele apenas?

O que mais temo não é ser Judas; na nossa imperfeição somo-lo. Somos Pedro, somos Tomé, conhecemos bem a luta interior e o ensaio permanente que é a nossa procura de sermos melhores, e como nessa demanda assumimos diferentes papeis, nos aproximamos de diferentes personagens.
O que mais temo não é ser Judas, é não ouvir Judas se ele vier ter comigo.

Precisamos de saber ouvir o pedido de ajuda, a falta de esperança de quem está só com as suas imperfeições, o mundo unívoco que se configura na cabeça daquele que não é capaz de ver que esse futuro não é uma via rápida em direção ao horizonte, mas um entramado de vias que se constituem em mapa, numa cartografia de superação.

Tenho pena de Judas. Ter pena do outro é um passo da compaixão e da misericórdia. É comover-se com o “lá fora” (de mim, do meu contexto, da minha geografia), é chorar a primeira lágrima, é o aperto do peito e o ímpeto de estender as mãos. Ter pena, creio, não é um sentimento pequeno e miserável, próximo de certo desprezo.

Talvez ter pena seja o princípio da nossa salvação como seres humanos, seres de humanidade. Mesmo ter pena do pobre Judas.

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