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Os desafios da Inteligência Artificial - MAGNIFICA HUMANITAS

Na atualidade, existe um consenso generalizado sobre o potencial da Inteligência Artificial (IA) como meio que inaugura uma etapa crucial na história humana.

Os desafios da Inteligência Artificial - MAGNIFICA HUMANITAS
D. Nélio Pita, CM
24 de junho de 2026

Há períodos na história da humanidade em que são dados passos de gigante. Há milhões de anos, a descoberta e o controlo do fogo ou a invenção da roda foram marcos significativos na transformação da vida das pessoas. Muito mais tarde, a arquitetura das relações dos homens entre si foi alterada com a Revolução Industrial. A concentração da riqueza nas mãos de um punhado de patrões, em detrimento do sacrifício de milhões de trabalhadores, proporcionou a emergência de novos sistemas políticos e económicos que estiveram na origem de revoluções e de guerras. A humanidade nunca mais foi a mesma.

A Igreja não vive fora deste mundo. Por isso, no contexto do crescente fosso entre ricos e pobres, na segunda metade do séc. XIX, com publicação da encíclica Rerum Novarum, o Papa Leão XIII lança as bases da Doutrina Social da Igreja, uma reflexão sobre a sociedade, a economia e a política. Também nessa altura, como lembra o atual papa, algumas pessoas, motivadas por uma espiritualidade desencarnada, consideravam que a «Igreja não devia desperdiçar energias em questões mundanas, mas preocupar-se em comunicar uma mensagem de vida eterna». Em resposta, Leão XIII sublinhava que o «anúncio do Evangelho não podia negligenciar a vida concreta dos povos» (RN, 3). A proclamação da Boa Nova tem claras implicações existenciais e, por isso, a Igreja é chamada a ser uma voz que promove a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Na atualidade, existe um consenso generalizado sobre o potencial da Inteligência Artificial (IA) como meio que inaugura uma etapa crucial na história humana. A IA é o motor de uma revolução cujas consequências são ainda imprevisíveis, mas cuja funcionalidade é já bem conhecida, nas mais variadas situações, desde as rotinas mais simples até às decisões mais complexas. Recentemente, por exemplo, ouvia o testemunho de um professor que diante de um grupo de alunas angustiadas lhes perguntava o que é que tinham. «Pedimos ajuda à IA para superar a crise de ansiedade…», respondeu a porta-voz das aflitas. O que antes era dialogado com um outro, um semelhante, agora o interlocutor é a máquina sem coração.

A IA pode ser motivo de esperança e de muitas alegrias. Em áreas como a medicina, tem sido possível obter respostas para problemas que até agora pareciam insolúveis. Mas é também causa de preocupação. Não é difícil imaginar a IA em mãos erradas e os seus efeitos nefastos na vida de terceiros. A título de exemplo, o Papa Leão XIV refere a ideologia transumanista e a pretensão de recriar o ser humano num modelo híbrido, uma versão aparentemente aperfeiçoada da condição humana, o Homo Sapiens 2.0. A chave de aceso à nova versão, que será aperfeiçoada com constantes “upgrades”, é o capital. Para isso, é preciso que outros, os mais pobres e imperfeitos, sejam sacrificados. Eles são os meios indispensáveis para alimentar a ambição dos eleitos, os mais ricos, a raça superior, aqueles que querem superar os limites da temporalidade e evitar todas as formas de sofrimento (cf. MH, 115-126).

Outra área em que o recurso à IA fere gravemente a dignidade humana é a guerra (MH, 182s). O Papa Leão XIV destaca a alteração da gramática dos conflitos motivada pela revolução digital. Por isso, deixa um apelo urgente: «A IA precisa ser “desarmada”, libertada das lógicas que a transformam em instrumento de dominação, exclusão ou morte. Assim como a energia nuclear, ela deve servir a todos e ao bem comum» (cf. MH, 110). Está em causa o futuro da humanidade.

Para o bom uso da IA, no segundo capítulo da MH (n. 46-89), em conformidade com a Doutrina Social da Igreja, o Papa Leão relembra o conjunto de cinco critérios para o discernimento na tomada de decisões. São eles: 1) o Bem Comum; 2) o destino universal dos bens; 3) a subsidiariedade; 4) a solidariedade; 5) a justiça social.

Podemos qualificar de magnífica a humanidade que faz a guerra, que promove a desigualdade, que ergue muros, que explora os recursos naturais, indiferente ao amanhã? A resposta é clara: não! Ela só é magnífica quando reconhece a sua vocação como finita e amada pelo Criador, destinada a «construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos» (MH, 1).

+ Nélio Pita, CM

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