top of page
  • Facebook ícone social
  • Instagram
  • YouTube ícone social

O cuidado como eixo diferenciador das sociedades contemporâneas

As sociedades contemporâneas precisam de assumir é que o cuidado não é apenas uma tarefa individual. Mas, uma responsabilidade partilhada entre famílias, comunidades, profissionais, organizações e Estado.

O cuidado como eixo diferenciador das sociedades contemporâneas
Inês Guerra
22 de julho de 2026

Este texto nasce de um telefonema. Uma chamada simples, em que alguém me dizia, com a voz ainda marcada pela emoção, que o cuidado nas palavras de uma médica tinha feito toda a diferença num momento difícil. Não foi um diagnóstico, nem uma solução técnica: foi a forma como ela falou, o tom que escolheu, a delicadeza com que se aproximou. “Se todas as pessoas tivessem o cuidado que ela tem nas palavras”, dizia-me, “as coisas seriam diferentes”. E eu fiquei a pensar que, de facto, seriam mesmo.

Num tempo marcado pela velocidade, pela fragmentação e pela pressão constante para produzir, o cuidado emerge como uma das práticas mais decisivas para a qualidade da vida coletiva. Não é apenas um gesto de atenção ou uma forma de gentileza: é uma estrutura profunda que sustenta relações, comunidades e instituições. Cuidar é reconhecer a vulnerabilidade humana como condição universal e, a partir daí, construir modos de estar no mundo que não deixem ninguém para trás, mas principalmente que sejam ações que permitam a participação de todos.

O cuidado manifesta se primeiro naquilo que parece simples: a forma como falamos, como escutamos, como nos aproximamos do outro. Uma palavra dita com respeito pode abrir espaço para a confiança; um gesto atento pode interromper um ciclo de solidão; uma presença disponível pode transformar o dia de alguém. Nas sociedades contemporâneas, onde a comunicação é muitas vezes rápida, impessoal ou mediada por tecnologia, cuidar das palavras torna se um ato político, escolher não ferir, não apressar, não reduzir o outro ao mínimo necessário.

A médica daquele telefonema não fez nada extraordinário. Apenas escolheu palavras que não magoam, que não diminuem, que não apagam a pessoa. E isso, hoje, é extraordinário.

Há também um cuidado que se faz no quotidiano: preparar uma refeição, acompanhar a uma consulta, organizar um espaço, apoiar uma criança nos trabalhos da escola, estar ao lado de alguém num momento difícil. Estas atividades, tantas vezes invisíveis, são pilares silenciosos da vida social. Sem elas, a rotina desmorona, as relações enfraquecem, a saúde física e emocional deteriora se. Reconhecer o valor destas práticas é reconhecer que o cuidado não é um detalhe doméstico, mas uma infraestrutura essencial.

Podemos falar de vários tipos de cuidado, todos interligados: do cuidado emocional (escuta, empatia, presença), do cuidado físico (apoio nas atividades diárias, saúde, proteção), do cuidado social (redes de apoio, políticas públicas, serviços comunitários), do cuidado ético (respeito, dignidade, reconhecimento do outro como sujeito e pessoa com autodeterminação), do cuidado ambiental (responsabilidade pelo planeta que habitamos), e cuidado institucional (práticas profissionais que garantem direitos e bem estar).

Cada um destes tipos de cuidado tem impacto direto na vida das pessoas: melhora a saúde, reduz o isolamento, fortalece vínculos, cria segurança, promove autonomia e, sobretudo, devolve às pessoas a sensação de que pertencem a uma comunidade que as vê e as valoriza.

As sociedades contemporâneas precisam de assumir é que o cuidado não é apenas uma tarefa individual. Mas, uma responsabilidade partilhada entre famílias, comunidades, profissionais, organizações e Estado. Quando o cuidado é distribuído de forma justa, a sociedade torna se mais coesa, mais saudável e mais capaz de enfrentar crises, sejam elas económicas, sociais ou ambientais.

No fundo, cuidar do outro é reconhecer que a vida humana é sempre relacional. Nenhum de nós existe sozinho. Precisamos de ser vistos, acompanhados, lembrados, protegidos. E também precisamos de cuidar: porque o cuidado devolve sentido, cria laços e humaniza o quotidiano. Num mundo que tantas vezes nos empurra para a indiferença, cuidar é um gesto de resistência, uma forma de afirmar que a vida em comum vale a pena. Porque não começar a cuidar das pessoas mais próximas? Não é preciso muito….

Mesa Redonda
Missão onlife:
Cultura
Sociedade
Casa Comum
Missão
bottom of page