O cristão diante das desordens do mundo
Como referi no meu artigo na Mesa Redonda de 10.12.2025, "Cristo não é apenas uma figura histórica central, mas uma pessoa que atua na história; Ele convida os cristãos — por meio de sua participação em ações de pequena, média e grande esperança — a agir para que a finitude e o mundo da injustiça não se tornem as realidades últimas e definitivas no planeta Terra"


Silvino Dias Ruivo
19 de agosto de 2026
"Ele te declarou, ó homem, o que é bom e o que o Senhor requer de ti: nada mais do que praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus" (Miqueias 6,8).
Por meio da voz do profeta, em um único versículo, a Palavra do Senhor nos chama à justiça, à misericórdia e à humildade — tanto como atitudes pessoais quanto como imperativos da missão —, particularmente em três áreas:
1. A pobreza, fruto da injustiça
Como referi no meu artigo na Mesa Redonda de 10.12.2025, "Cristo não é apenas uma figura histórica central, mas uma pessoa que atua na história; Ele convida os cristãos — por meio de sua participação em ações de pequena, média e grande esperança — a agir para que a finitude e o mundo da injustiça não se tornem as realidades últimas e definitivas no planeta Terra".
Cristãos que afirmam preocuparem-se e preocupam-se com a pobreza de seus irmãos e irmãs, mas não atribuem importância significativa à política, contentam-se em participar de ações de pequena e média esperança, acreditando que, assim, estão aliviando significativamente a pobreza. Essas ações de pequena e média esperança, conforme as defini no texto citado, são louváveis, mas carecem de eficácia real.
O sonho de erradicar a pobreza — ou, pelo menos, reduzi-la consideravelmente — só pode ser realizado por meio do exercício do poder político. É, portanto, dever imperativo dos cristãos leigos participar em movimentos ou partidos políticos, exigindo que esse poder gerencie com prudência e circunspeção o neoliberalismo e o ultraliberalismo económico — esses modos de produção e distribuição dos bens que perpetuam a pobreza e constituem "a economia que mata", nas palavras do Papa Francisco. No entanto, nessa esfera, a luta para erradicar a pobreza só é possível no âmbito de uma prática política guiada pela ética da justiça, como nos lembra o profeta Miqueias.
2. A paz, fruto da misericórdia
Como cidadãos, em geral, e cristãos, em particular, vivemos num planeta — obra-prima de Deus criador — ameaçado de destruição e aniquilamento pelas guerras em curso, nomeadamente aquelas que assolam a Ucrânia, o Oriente Médio (Israel e Irão) e o Sudão. São guerras profundamente injustas porque, para um cristão, não existem "guerras justas". Elas são fruto da ação de políticos mentirosos ao serviço de interesses económicos obscuros. Estes políticos exercem o poder contra o bem comum e atropelam a dignidade humana ao desrespeitar o direito de todos a viverem em paz. Essa situação perdura com a cumplicidade de muitos outros atores — que também detêm poder, mas se distinguem pelo cinismo de seu silêncio —, anuindo, assim, de facto, com a irresponsabilidade daqueles. Todo o cristão, digno da honra e da responsabilidade inerentes à sua situação de cidadãos do Reino de Deus, deve condenar a corrida armamentista, bem como a ilusão de que a paz pode ser estabelecida por meio da guerra. Para a Igreja, assim como para todo cristão, não basta lamentar as situações de guerra, é preciso encarnar e testemunhar a alternativa cristã. Como discípulos de Jesus, a mera lamentação é insuficiente. É missão da Igreja — e, portanto, missão de cada um de nós — viver e testemunhar essa alternativa cristã, pois somos destinatários da proclamação de Jesus: "Bem-aventurados os pacificadores". Quais as condições necessárias para nos tornarmos pacificadores: a) devemos sacudir a nossa letargia e superar as narrativas dos meios de comunicação social em contínuo, insípidas e acríticas, empenhando-nos em buscar as verdadeiras causas das guerras em curso; b) devemos instar os líderes políticos a priorizar o diálogo — fundamentado na verdade e na justiça — para resolver as causas profundas dos conflitos e conciliar os interesses legítimos dos povos. Sem diálogo, os únicos resultados são sofrimento, morte e o agravamento da injustiça.
Para além dos conflitos armados, parece que estamos a entrar numa guerra geracional, uma guerra profundamente desprovida de humanidade. Desde a ascensão do individualismo nas relações humanas — afetando sobretudo aqueles nascidos antes da década de 1970 —, testemunhamos a inquietante ausência de gentileza e de boa vontade entre os humanos. Em ambientes urbanos, cumprimentar um transeunte com um "olá" honesto, sincero e alegre pode levar a pessoa a olhar para quem a cumprimentou como um "excêntrico" ou alguém que "não bate bem da cabeça". Isto contrasta fortemente com o que o profeta Zacarias previu para Cristo — e, a fortiori, para os cristãos: pessoas que depõem as armas da guerra para se revestirem de humildade, simplicidade e proximidade com o próximo.
No mundo de hoje, o cúmulo dessa guerra intergeracional reside na sentença de morte imposta aos pobres e aos idosos considerados "inúteis" — decretada "democraticamente" pelas autoridades políticas: a eutanásia. Resta-nos apenas a oração e a misericórdia de Deus, na esperança de que a humanidade encontre o caminho do diálogo para pôr fim às guerras bélicas e intergeracionais.
3. A comunhão eclesial, fruto da humildade
Para além dos conflitos armados entre nações e das disputas entre gerações, a Igreja atravessa uma "guerra doutrinal" que afeta a Igreja una e santa — embora, por vezes, pecadora — unida em torno do sucessor de Pedro.
Cito da Grande Ladainha da Paz e da Comunhão da liturgia bizantina: "Pela paz de todo o mundo, pela estabilidade das santas Igrejas de Deus e pela unidade de todos, oremos ao Senhor." Num momento em que o mundo necessita da unidade das Igrejas cristãs como sinal de harmonia, à luz da oração de Jesus Cristo: "Que todos sejam um", é difícil compreender o cisma instigado pela Sociedade de São Pio X.
Os nossos irmãos cismáticos justificam as suas ações invocando a necessidade da Missa Tridentina e o apego à Tradição — uma posição que me parece profundamente errónea e injusta.
De facto, a decisão do Concílio Vaticano II de celebrar a Eucaristia nas línguas nacionais, em vez do latim, foi um ato de justiça para com o povo cristão, permitindo-lhe compreender a proclamação da Palavra de Deus! Tal como no passado, a proclamação da Palavra em latim — em vez de em grego, a língua utilizada na Europa Oriental, mas não compreendida no Ocidente — tinha sido um ato de justiça.
A decisão litúrgica de celebrar a Eucaristia versus populum (voltada para o povo) baseia-se num princípio lógico que as Sagradas Escrituras não contradizem, mas antes pressupõem: a Tradição, com raízes nos Padres e Doutores da Igreja, é de grande valor. No entanto, ela representa a Palavra interpretada, e não a santa Palavra revelada. Ora, a interpretação da Palavra — por mais preciosa que seja, pelos Padres e Doutores da Igreja — não pode substituir o Evangelho de Jesus Cristo! Oremos a Deus para que, com uma humildade libertadora, os irmãos da Sociedade de São Pio X encontrem o caminho de regresso à comunhão, à reconciliação e à unidade desejada e implorada por Jesus Cristo.
