Norte de Moçambique: alerta contra o esquecimento

É visível que a eclosão da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, há mais de 4 meses, no coração da Europa, polariza as atenções, deixando na sombra, ou esquecidos, outros conflitos e tragédias, com o seu cortejo de mortes, crueldades, migrações forçadas, vagas de deslocados e sofrimentos indescritíveis.

Norte de Moçambique: alerta contra o esquecimento
Pe. Luciano Ferreira, CM
06 de julho de 2022

A opinião pública segue as ondas dos meios de comunicação social. Quando os holofotes mediáticos se fixam num novo ponto do mundo e nos acontecimentos chocantes que aí se desenrolam, esquecem-se facilmente outros lugares da terra, por mais pungentes que sejam os seus dramas. É visível que a eclosão da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, há mais de 4 meses, no coração da Europa, polariza as atenções, deixando na sombra, ou esquecidos, outros conflitos e tragédias, com o seu cortejo de mortes, crueldades, migrações forçadas, vagas de deslocados e sofrimentos indescritíveis.

Gritos de alerta surgem de vários quadrantes contra o esquecimento da guerra terrorista que persiste em Cabo Delgado, há quase 5 anos, apoiada pelo extremismo islâmico internacional, que já afeta quatro das províncias do norte de Moçambique. Na sequência dos artigos anteriores (08/08//20 e 14/07/21/21), desejo aqui ampliar os clamores que desde finais de 2021 se fazem ouvir através das principais fontes de informação da Igreja católica, das organizações humanitárias na região, e dos missionários no terreno.

Novos ataques, novas vagas de deslocados de guerra
É verdade que, desde julho de 2021, uma ofensiva das tropas governamentais com o apoio do Ruanda, a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), permitiu recuperar zonas onde havia presença de rebeldes, mas a fuga dos rebeldes tem provocado novos ataques noutros distritos (Lusa, 09/06/22). Ao longo deste ano, apesar de alguns avanços militares, a insurgência violenta continua a fazer-se sentir e, desde o mês passado, a expandir-se mais para sul, para distritos, como o de Ancuabe, lugares mais próximos da capital provincial (Pemba).

Mas a realidade é que “este conflito corre o risco de ser esquecido com a eclosão da guerra entre a Rússia e a Ucrânia; grande parte da Comunidade Internacional concentra as suas atenções sobre aquela situação, que também é dramática” (Arceb. de Nampula, Vatican News, 09/06/22).

A pior consequência do esquecimento em relação a este conflito é a diminuição da solidariedade com as populações afetadas – 784 mil deslocados, de acordo com a Organização Internacional das Migrações (OIM), e cerca de 4.mil mortos, segundo o ACLED. As novas incursões terroristas de junho e julho aumentaram o número de desalojados ou em fuga para mais 25 mil deslocados (O País, Maputo, 27/06/22).

“A guerra na Ucrânia está a criar uma tempestade perfeita, especialmente em África; esta crise está a resultar num aumento exponencial de custos para os alimentos, energia e fertilizantes, com consequências devastadoras para os sistemas alimentares e de nutrição, e torna mais difícil mobilizar os recursos financeiros necessários para investir no seu povo” (DN, Secr. G., ONU, 25/05/22).
Lamentavelmente, a redução da ajuda acontece quando há aumento de deslocados com novos ataques (Voa, 27/07/22). Sem meios, várias organizações começaram a lançar apelos para se evitar um colapso humanitário. Entre elas, agências das Nações Unidas, como o PAM e a Unicef, mas também da sociedade civil e da Igreja católica.

A vaga de deslocados está a pressionar a capacidade de assistência humanitária naquela região, segundo o PAM, em Moçambique: “Temos que manter a assistência a cerca de 941 mil pessoas em Cabo Delgado, Nampula e Niassa; são pessoas deslocadas e famílias de acolhimento que são vulneráveis. Devido à redução de fundos, o PAM foi obrigado a cortar para metade a cesta alimentar entregue; o que significa que a comida dá para suprir menos de 40% das necessidades calóricas". A população (cerca de metade, crianças e jovens) foge e deixa tudo o que tem, procurando refúgio em zonas seguras de Cabo Delgado, Nampula e Niassa”.

“Renovo o apelo para que o mundo não esqueça Cabo Delgado…; é preciso continuar a salvar vidas em condições de extrema pobreza; a violência terrorista e a crise humanitária continuam” (bispo de Pemba, Ecclesia e AIS, 23/05/22).

“O discurso nos últimos anos por parte das forças de segurança tem sido de que está tudo controlado e volta e meia acontece o mesmo. Portanto continuamos a sentir um ambiente de insegurança total,” (Ricardo Marques, Boa Nova, há 7 anos em Pemba, Jornal I, Lisboa, 01/07/22, num artigo que importa ler).
“Muitos financiamentos têm vindo da Europa … grande parte dos doadores está a tentar dar a mão aos irmãos ucranianos”. Mas é preciso olhar com urgência para a situação humanitária da província (Coordenador da Cáritas de Pemba, Voa, 27/06/22.

Por sua vez, o coordenador da Plataforma Makobo, uma instituição de responsabilidade social moçambicana com base na iniciativa “Coração Solidário para Cabo Delgado”, observa que o novo clima de insegurança frustra a implementação dos vários projetos em curso, sobretudo, na componente de meios de subsistências aos deslocados, na medida em que a insegurança aumenta entre os beneficiários.
Caminhos de futuro e de esperança:

É papel de Igreja apontá-los e abri-los a partir do Evangelho de Jesus e numa ação empenhada, com as comunidades cristãs e com todos os homens de boa vontade. E o papel que ela está a assumir, desde os primeiros sinais violentos da insurgência, com o bispo D. Luiz Lisboa e o seu sucessor em Cabo Delgado (Pemba), D. António Juliasse, é reconhecido e elogiado, merecendo apoio e confiança (cf. Coordenador Helpo, RR, 10/05/21 e 09/06/22). Foram testemunhados por ocasião do centenário da 1.ª Missão de Cabo Delgado, em Namuno (Vatican News, 26/05/22).

E é na verdade admirável o trabalho conjunto que se vai realizando, com escassos recursos, com a entreajuda duma rede de colaborações nas dioceses do Norte, na assistência humanitária à multidão de deslocados, em enormes centros de emergência. Vale a pena ler atentamente o relatório do bispo de Nacala (março 2021) ou as recentes declarações do Arcebispo de Nampula (Vatican News, 09/06/22). Jovens e Irmãs Vicentinas (FC), assistidas pelos missionários, também estão envolvidos em programas de assistência e promoção da saúde e da educação, em 3 enormes campos de deslocados de guerra, em Nacala e Nampula.

A concluir, lembro o comunicado de solidariedade de mais de 30 organizações católicas de Portugal, em Outubro de 2021: “As organizações signatárias apelam ao incremento da ajuda humanitária e à promoção do desenvolvimento como meio de alcançar uma paz efetiva e duradoura, em particular aos meios de comunicação social, pedindo que “informem sobre a crise humanitária de Cabo Delgado e investiguem as diferentes causas desta violência, evitando leituras parcelares.”

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