Conversão e Missão rimam
Conversão e missão estão, pois, profundamente associadas e até rimam. Assim como a missão de Jesus começa com um apelo à conversão, também a Congregação da Missão é posta em ação pela confissão de um campesino e pelo primeiro «sermão da missão» no dia litúrgico da conversão de São Paulo.


Pe. Bruno Cunha, CM
22 de abril de 2026
A Congregação da Missão (CM) encerrou, no dia 17 de abril, o jubileu dos 400 anos da sua fundação, ocorrida em 1625. Contudo, o acontecimento fundante teve lugar 8 anos antes, a 25 de janeiro de 1617, num sermão de São Vicente de Paulo, na igreja de Folleville -França, ao qual chamou de «primeiro sermão da missão» (repetição da oração de 25 de janeiro de 1655 e conferência de 17 de maio de 1658). Mas, ainda não é tudo. Precisamos de recuar uns dias mais até ao desabafo de um camponês que afirmou que estaria condenado à perdição, se não tivesse recebido a absolvição durante o sacramento da confissão. Foi esta evidência e o zelo pela salvação das almas, partilhado por São Vicente e pela Sra. de Gondi, que motivou o «primeiro sermão da missão» e a fundação oficial da CM, em 1625.
Podemos dizer que estes 400 anos de história começaram num sacramento, a confissão. Naquela época, havia padres que nem sequer sabiam a oração da «absolvição» e as pobres gentes do campo, abandonadas pelo clero que fugia para as cidades, ignoravam as principais verdades da fé cristã. A confissão daquele simples camponês foi um «sinal dos tempos» que São Vicente soube interpretar como um apelo à conversão em vários sentidos e dimensões. Primeiro, a conversão do próprio camponês que se sentia condenado e precisava do perdão para um recomeço e para alimentar em si a esperança da vida eterna. Como ele, muitos outros na mesma situação precisavam da ação misericordiosa de Deus, pela Igreja. Segundo, a confirmação da conversão do próprio São Vicente que passou por uma crise de fé durante anos e o fez, definitivamente, renunciar aos desejos e projetos pessoais enquanto presbítero, para ser instrumento nas mãos da Divina Providência. Terceiro, conversão do próprio agir do clero que era ignorante e mundanizado, ao ponto de não acompanhar devidamente o povo de Deus. Quarto, a conversão da própria Igreja que necessitava de implementar as diretrizes do Concílio de Trento que implicavam reformas internas profundas.
Por tudo isto, não pode ser apenas coincidência que o tal «primeiro sermão da missão» tivesse acontecido no dia em que a Igreja celebra a «conversão» de São Paulo, 25 de janeiro. Registe-se que se trata da única «conversão» que é celebrada liturgicamente. É na conversão de São Paulo, que tem a sua origem no encontro com Cristo a caminho de Damasco, que ele inicia a sua missão de apóstolo de Cristo. Esta íntima ligação entre conversão e missão está profundamente enraizada no Evangelho. Basta recordar que dois dos evangelistas descrevem o início da vida pública e da missão de Jesus com um apelo à conversão. "Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo" (Mt 4,17) é a expressão usada por São Mateus, muito semelhante à que encontramos em São Marcos: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho.» (Mc 1,15). Note-se, também, que, em ambos os Evangelhos, estas são as primeiras palavras de Jesus.
Conversão e missão estão, pois, profundamente associadas e até rimam. Assim como a missão de Jesus começa com um apelo à conversão, também a Congregação da Missão é posta em ação pela confissão de um campesino e pelo primeiro «sermão da missão» no dia litúrgico da conversão de São Paulo. Pode, pois, afirmar-se que qualquer que seja a missão ou tentativa de revitalização missionária deve passar, primeiramente, pela conversão: pessoal, comunitária, mental, estrutural e até espiritual. Ela é o alicerce no qual se enraíza e cimenta toda a missão eclesial.
