Habitar o sentido do Humano

Anunciar a indispensabilidade da fé para abraçar a verdadeira felicidade que tem nome de salvação, num mundo onde a proposta crente parece dispensável e acessória, é o nosso maior e principal desafio.

Habitar o sentido do Humano
Pe. Sérgio Leal
04 de maio de 2022

Como aprendiz na arte de fazer Teologia Pastoral, muitas vezes, sou interpelado sobre quais os mais urgentes desafios que se colocam, hoje, à acção evangelizadora da Igreja. Quer a consciência dos meus limites, quer a multifacetada realidade social e cultural que a Igreja deve saber habitar e incarnar, não permitem uma resposta pronta e imediata que esteja isenta de insuficiências ou riscos. Contudo, parece-me claro que o principal desafio que se coloca à nossa acção evangelizadora pode traduzir-se na necessidade de saber habitar o sentido do humano.

Estamos conscientes que cada tempo tem a marca da mutabilidade e que a mudança caracteriza o devir dos dias e das gerações. As diferentes análises sociológicas, ao lerem as últimas décadas, apontam sempre as rápidas e profundas alterações nos mais diversos âmbitos da vida social e cultural. A pandemia, que parece dar algumas tréguas, colocou em evidência diferentes realidades que teimávamos não aceitar e que revelam que estas rápidas e profundas transformações possuem um forte impacto no horizonte antropológico.

O Papa Francisco tem vindo a afirmar, em diversas circunstâncias, que «não vivemos uma época de mudanças, mas uma mudança de época». Na verdade, vivemos um tempo em que «a única constante é a mudança e a única certeza é a incerteza» (Zigmut Bauman). Um tempo marcado pela provisoriedade e pela flutuação que irrompe, para nós crentes, como uma oportunidade para que o Evangelho se faça presente, aqui e agora, como Palavra de Vida Eterna geradora de um horizonte de sentido que rasga novos horizontes de esperança.

A consciência que «Deus de tal modo amou o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito» (Jo 3,16) recorda-nos que o mundo amado apaixonadamente por Deus, não pode ser amado por nós de outro modo. Este amor absolutamente centrado em Deus que nos faz partir ao encontro dos irmãos, desafia-nos a um amor universalmente alargado aos irmãos que nos desafia a levar o coração da humanidade ao encontro de Deus. Deste modo, devemos evitar sempre o saudosismo do passado que nos conduz a um mau juízo do tempo presente, bem como a tentação de dominar o presente para que saibamos servir as mudanças que o Senhor continua a suscitar. Não nos serve nem um pessimismo paralisante, nem um optimismo desencarnado, mas um olhar kairológico que nos faz entrever, em cada tempo, um lugar que Deus quer habitar e que a nossa acção deve saber servir.

Mais do que nos centrarmos nos sintomas que caracterizam a cultura hodierna, devemos saber ler as reais causas que geram uma verdadeira mudança de época, que nos coloca diante de uma nova etapa evangelizadora. Há um mundo que terminou e teimamos em fazer renascer e um mundo novo que se ergue diante de nós e que teimamos em não acolher. Uma sociedade monolítica e uniforme, onde a fé é o único critério de leitura e doador de sentido de existência, que caracterizava um tempo de societas christiana, é um mundo caduco que dá lugar a um tempo de biodiversidade cultural, onde a proposta da fé se apresenta como uma entre tantas outras propostas de sentido, tantas vezes mais atractivas e apetecíveis que a proposta crente. A passagem de um cristianismo de convenção e tradição a um cristianismo de adesão livre e convicta, marca a passagem de uma pastoral de manutenção a uma verdadeira opção missionária que coloca a Igreja num estado permanente de missão (EG 27).

Anunciar a indispensabilidade da fé para abraçar a verdadeira felicidade que tem nome de salvação, num mundo onde a proposta crente parece dispensável e acessória, é o nosso maior e principal desafio. Contudo, este exercício de evangelização só será real e fecundo quando soubermos habitar o sentido do humano, fazendo ressoar no actual contexto social e cultural a Boa Notícia que é o próprio Jesus Cristo. Este anúncio deve saber articular a novidade de cada tempo com a novidade permanente do Evangelho, para que a dinâmica evangelizadora seja geradora de um verdadeiro encontro com Jesus Cristo e criadora de um sentido de pertença à comunidade cristã.

O Evangelho não pode ser um conjunto de conteúdos doutrinais que oferecemos a cada homem e a cada mulher, nem tampouco um manual de boa conduta para alcançar a salvação, mas uma Boa Notícia que vai ao encontro da real experiência de cada pessoa e que a transforma, gerando a conversão.

A Igreja sinodal e samaritana que responde com ousadia e coragem ao convite que o Senhor lhe faz para partir, levando ao mundo inteiro a Boa Nova da salvação, tem de percorrer permanentemente a estrada de Emaús, cruzando a sua vida com a vida de quantos partem desiludidos e desanimados para o sofrível ponto de partida, de onde foram convocados para a missão (Lc 24,13-35). O Senhor convida-nos a abrir a nossa vida ao horizonte maior e mais largo da salvação, atravessando necessariamente o caminho estreito e exigente do encontro da verdade do humano inscrita no nosso coração, com a Verdade inscrita na Palavra da Escritura. Tal como o Ressuscitado na estrada de Emaús, a Igreja é chamada a ir ao encontro de cada homem e de cada mulher, escutando com liberdade e docilidade as angústias e esperanças, as desilusões e anseios do coração humano, para os iluminar com a Palavra da Escritura, fazendo «abrasar o coração dentro do peito», gerando o encontro com Cristo, Pão partido e repartido, e enviando em missão para anunciar que o Senhor está vivo e ressuscitado, actuante no tempo e na história, transformando o mundo pela transformação do coração de cada homem e de cada mulher.

A Igreja sinodal, sonhada pelo Papa Francisco, tão viva e real na vida da Igreja Nascente, é uma Igreja da Escuta, que se coloca com os olhos e o coração abertos sobre o mundo, para conhecer a realidade que tem diante de si, para que nada do que é humano seja estranho à acção evangelizadora da Igreja, que deve iluminar o humano na sua verdade, oferecendo um horizonte de esperança que nos projecta para a eternidade e que nos faz superar o imediatismo em que, tantas vezes, as nossas vidas estão inscritas.
Uma Igreja sinodal ao serviço da evangelização e da missão irrompe no tempo e na história como sinal de que a diversidade e pluralidade não são um obstáculo à acção evangelizadora, mas o desafio a fazer da diversidade lugar de comunhão e unidade, pela força vivificadora do Espírito Santo.

Jesus Cristo é o único caminho de salvação para a humanidade e a acção pastoral o lugar que torna a salvação viva e operante na história, num anúncio que não pode ser apenas crente, mas credível, para que por meio de palavras e gestos intimamente ligados entre si (DV 2), o amor de Deus habite o coração de cada homem e de cada mulher, iluminando a sua experiência e rasgando novos horizontes de realização e felicidade, que tornam o mundo num átrio de fraternidade que procura realizar, no aqui e agora do tempo e da história, o Reino que um dia espera habitar em plenitude no Céu.

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