Da resignação à conformação

Na tradição cristã, talvez se tenha confundido “conformação” com “resignação” quando, na realidade, são dois movimentos opostos. Na conformação o sujeito procura uma «nova forma» (com+forma) através da proximidade com alguém que estima e admira, nomeadamente, no âmbito espiritual, com o Mestre que segue.

Da resignação à conformação
Pe. Nélio Pita, CM
02 de março de 2022

O psicólogo norte-americano Anthony Klotz definiu o fenómeno do abandono voluntário do emprego por parte de milhões de trabalhadores, através do conceito «a grande resignação», aplicado ao contexto da Covid-19.

Este professor da universidade do Texas analisou o efeito desestruturante da pandemia na vida de muitos adultos, tendo concluído que um número significativo de pessoas tinha deixado de trabalhar motivada por uma reflexão a partir de questões essenciais, tais como: porquê, onde e para quem trabalho? Segundo os dados da Labor Turnover, só em novembro de 2020/2021, cerca de 4,5 milhões de trabalhadores abandonaram os seus postos de trabalho.

Compreendemos o que está em causa porque já estivemos em situações semelhantes. Quando há incerteza, medo e desconfiança, a atitude normal é a estagnação, o bloqueio, o deixar-se ficar porque «não vale a pena o esforço». É evidente que a «grande resignação» teve um impacto na saúde das organizações e na economia de um país.

Sophia de Mello Breyner, no conto Praia, faz uma pungente descrição de um grupo de músicos falhados que regularmente, duas vezes por semana, se juntavam para animar uma festa de uma espécie de clube de verão, num grande casarão quadrado. Vendo-os de perto, parecia-lhe que eram sujeitos de pouca arte, sem dinheiro nem fama. E interrogava-se se eles seriam revoltados ou resignados. Admite que preferia que fossem revoltados porque «é menos triste». O revoltado, mesmo estando vencido à priori, como um soldado ucraniano desarmando diante de um poderoso exército, não desiste. Luta, até ao fim, por uma causa. A vida faz sentido. Ele está animado por um propósito. Vale a pena qualquer sacrifício, mesmo que seja aparentemente sem glória, como aquele que morreu ingloriamente num calvário. O resignado, sobretudo quando é uma «resignação passiva, a resignação por ensurdecimento progressivo do ser», é um falhado sem remédio, uma alma penada que deambula sem esperança de redenção.

Na tradição cristã, talvez se tenha confundido “conformação” com “resignação” quando, na realidade, são dois movimentos opostos. Na conformação o sujeito procura uma «nova forma» (com+forma) através da proximidade com alguém que estima e admira, nomeadamente, no âmbito espiritual, com o Mestre que segue. O aspirante nunca se resigna. Anseia alcançar uma performance e, por isso, não cruza os braços, nem encolhe os ombros, nem se autojustifica com sentenças definitivas que se assemelham a um ponto final na evolução de uma personalidade: «eu sou assim». Aqueles que estão seriamente comprometidos com o sempre inacabado processo de conformação são os sujeitos revoltados do conto de Sophia. Eles «não aceitam a imperfeição. E por isso a sua alma é como um grande deserto sem sombra e sem frescura onde o fogo arde sem se consumir». Os crentes permanentemente insatisfeitos com a sua falta de conformidade, pedem perdão todos os dias, pelo menos sete vezes, reconhecendo que é «por minha culpa, minha tão grande culpa» que se distanciam da forma perfeita. E, por isso mesmo, aceitam que cada amanhecer é uma oportunidade para renascer de novo.

Nem sempre os revoltados são bem-vindos. Aliás, diríamos que as organizações, sobretudo quando estão fortemente estratificadas, preferem que os novos elementos tenham uma atitude resignada, mas não muito resignada, apenas o suficiente para a manutenção da instituição sem sobressaltos. Eles são bem aceites desde que não façam ondas e vivam resignadamente contentes. Os revoltados-inconformados são seres imprevisíveis e cronicamente atribulados. As suas perguntas causam mal-estar e, por isso, o melhor é deixá-los a falar sozinhos. Só Deus sabe o que dizem.

A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano é um apelo a que «não nos cansemos de fazer o bem» que é como quem diz, permaneçamos unidos e perseveremos nos compromissos inerentes à vocação batismal, não desistamos de viver segundo a forma perfeita, Jesus. Não nos resignemos porque «o bem, como aliás o amor, a justiça e a solidariedade não se alcançam duma vez para sempre; hão de ser conquistados cada dia».

A Quaresma, com o contínuo apelo à conversão, pode ser uma máquina aceleradora de partículas de um espírito semi-resignado, capaz de alterar uma espiritualidade morna, um seguimento de Cristo sem lavar-de-pés nem calvário, uma paz alimentada pela indiferença, um conforto selado em princípios vagos, uma caridade postiça numa aventura sem riscos. Ao resignado, que tende a abandonar a Barca, justificando a saída com os pecados da tripulação ou a falta de ritmo e rumo na viagem, é preciso dizer-lhe que este é o momento oportuno: «converte-te e ajuda-me nesta árdua tarefa de conFormação».

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