Cabo Delgado: falar, falar, falar, rezar e partilhar

Como irmãos que somos, sofremos com as notícias que nos vão chegando da Diocese de Pemba. Queremos o melhor para os nossos irmãos! E como podemos nós contribuir para isso?

Cabo Delgado: falar, falar, falar, rezar e partilhar
Sara Poças
19 de maio de 2021

Todos temos acompanhado a situação de conflito a norte da província de Cabo Delgado, em Moçambique, em que mais de 700 mil pessoas já deixaram as suas casas e as suas terras, lugar do qual depende a sua sobrevivência e onde estão os seus antepassados(1), para fugirem das suas aldeias que estão a ser atacadas por um grupo sem rosto que semeia o terror, matando e queimando. Estas pessoas submetem-se a uma viagem de barco ou a fugir pelo mato, até encontrarem um local seguro onde possam refazer as suas vidas, em casa de familiares ou em campos destinados para o seu alojamento e/ou reassentamento. E o que tenho eu a ver com isto?

Temos prestado mais atenção a este conflito porque, por razões históricas, e consequentemente afetivas, temos afinidade com Moçambique: todos nós temos uma avó ou um avô, tia ou tio, mãe ou pai que nasceu ou viveu ou que fez a tropa neste país, na altura sob a dominação portuguesa, como colónia, e do qual guarda recordações marcantes, geralmente intensas. Porém, estes ataques, que já decorrem desde 2017, só se tornaram mediáticos desde o final de março deste ano de 2021, aquando do ataque à vila de Palma, ali bem perto de Afungi, onde estão as instalações do megaprojeto de exploração de gás natural, que é, atualmente, o maior investimento privado em África. Neste ataque, foi atingido um hotel, morreram cidadãos estrangeiros e um cidadão português ficou ferido. As vidas têm todas o mesmo valor?

“Se cada um vale assim tanto, temos de dizer clara e firmemente que «o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente»” [FT106], escreve o Papa Francisco na sua mais recente encíclica Fratelli Tutti. Mas até há ali mesmo, naquela província, uma das maiores reservas mundiais de gás natural e a maior mina de rubis do mundo! Então, quem tem acesso e usufrui da riqueza proveniente deste recurso? “É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns.” [FT116] Pode haver justa distribuição da riqueza se há injusto acesso à formação, à saúde, ao emprego, à organização social?

A Arquidiocese de Braga, através do seu Centro Missionário Arquidiocesano (CMAB) criado com o intuito de dinamizar a ação missionária na diocese, coordena, desde 2014, um projeto de cooperação missionária com a Diocese de Pemba, que corresponde territorialmente à província de Cabo Delgado. Este projeto tem como principal objetivo contribuir para a criação e o aprofundamento de laços de comunhão e de partilha espiritual e material entre as duas Dioceses irmãs. Como irmãos que somos, sofremos com as notícias que nos vão chegando da Diocese de Pemba. Queremos o melhor para os nossos irmãos! E como podemos nós contribuir para isso?

Em julho do ano passado, já o número de pessoas deslocadas era mais de 350 mil, D. Luiz Fernando Lisboa, à data bispo da Diocese de Pemba, e grande impulsionador do acordo de cooperação missionária entre as duas dioceses, quando questionado por nós com a pergunta anterior, desafiou Braga a lançar uma campanha de angariação de fundos para apoiar a Cáritas diocesana de Pemba no trabalho com os deslocados. Para onde vai o dinheiro?

É uma pergunta óbvia e muitas vezes feita. Nós confiamos que a Diocese de Pemba, através da Cáritas diocesana e dos seus projetos, dará o melhor fim ao dinheiro, fazendo apoio psicossocial e apoiando as famílias na reconstrução das suas vidas num novo local. Os irmãos confiam uns nos outros. Tentando dar visibilidade nacional à campanha, que intitulámos “Juntos por Cabo Delgado”, contactamos várias figuras públicas para um vídeo promocional, mas obtivemos poucas respostas: porque era verão, porque eram férias, porque há COVID, porque as pessoas não estavam para aí viradas. Mas os likes não enchem a barriga nem diminuem as dores... Como chamar a atenção da sociedade civil para uma causa?

A campanha “Juntos por Cabo Delgado” foi lançada em setembro de 2020, mas só perto do Natal teve uma maior adesão local e nacional, por influência das diversas intervenções do D. Luiz Lisboa, das poucas pessoas que falava incessantemente do tema, e da solidariedade natalícia, que valeu um valor simpático de mais de 54.000€ até ao final de 2020. E no resto do ano, o que acontece à generosidade das pessoas?
No final de 2020, D. Luiz Lisboa propôs ao CMAB fazer uma campanha para angariação de bens materiais, pois a Câmara de comércio Portugal-Moçambique de Pemba comprometeu-se a financiar o envio de um contentor de Portugal para Moçambique, caso se recolhessem os bens em Portugal. Consideramos, acima de tudo, que seria uma boa forma de não deixar cair a situação de Cabo Delgado no esquecimento, compromisso que assumimos como irmãos. Perguntamos quais seriam os bens necessários. A Cáritas enviou-nos uma lista de bens que incluíam materiais para os projetos de apoio à reinserção das pessoas em casas e numa atividade laboral. Perdemos a conta ao número de vezes que fomos contactados por pessoas que tinham roupa, calçado, brinquedos e comida para oferecer (bens que não estavam na lista de necessidades enviada pela Cáritas). Porque queremos dar o que nos parece melhor aos nossos irmãos de Cabo Delgado e não aquilo que nos é apresentado por eles como necessidade? Porque achamos que a roupa, calçado e brinquedos que já não nos servem em casa vão servir aos nossos irmãos?

Perdemos também a conta ao número de vezes que explicamos o porquê de enviarmos aqueles bens e não os que nos parecem que podem ser as necessidades das pessoas. Apesar de cansativo, foi um processo muito positivo porque a maior parte das pessoas compreendeu e doou os bens solicitados e, muitos dos quais, novos. Os resultados estão à vista: serão enviados dois contentores com os bens solicitados. E estes bens vão fazer a diferença?

Acreditamos que possam servir para suprir algumas necessidades, mas acreditamos que se ajudou a que se falasse mais sobre a situação de Cabo Delgado, já valeu a pena, porque “Ao olhar para si mesmo do ponto de vista do outro, de quem é diferente, cada um pode reconhecer melhor as peculiaridades da sua própria pessoa e cultura: as suas riquezas, possibilidades e limites. A experiência que se realiza num lugar deve desenvolver-se ora «em contraste» ora «em sintonia» com as experiências doutras pessoas que vivem em contextos culturais diversos.” [FT147]

Para além de ajuda humanitária, os nossos irmãos de Cabo Delgado precisam de paz! E se não deixarmos Cabo Delgado cair no esquecimento, ao mesmo tempo que partilhamos o que temos e rezamos pelos nossos irmãos, acreditamos que estaremos a contribuir para a paz!

(1) “A relação que temos com a terra e com um lugar não se reduz a uma simples funcionalidade no uso e aproveitamento do mesmo: é uma relação vivencial, literalmente vital, porque nos une aos nossos antepassados, nos oferece uma história e nos enraíza a vida. A terra, o lugar, a natureza, é a garantia da vida de família e da comunidade. Pedir a uma família que deixe a sua terra é pedir-lhe que corte com a sua história e abandone os seus antepassados.” In Carta Pastoral dos Bispos Católicos de Moçambique - “À Tua descendência darei esta Terra” (Gn 12,7)
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