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Alarga o Espaço da Tua Tenda

A fraternidade é o maior desafio da construção eclesial e, simultaneamente, o mais necessário para que a Igreja seja aquilo que o Senhor espera dela: um povo de baptizados que vive a comunhão e a unidade à imagem da Santíssima Trindade.

Alarga o Espaço da Tua Tenda
Pe. Sérgio Leal
30 de novembro de 2022

Estas palavras capítulo 54 do livro de Isaías - «Alarga o espaço da tua tenda!» (Is 54,2) – são o título escolhido pela Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos para o documento de trabalho da etapa continental. Permiti que intitule estas linhas que escrevo com as mesmas palavras, não pela falta de criatividade para encontrar um título mais original, mas, sobretudo, pela imagem inspiradora que estas palavras oferecem ao caminho sinodal que a Igreja é chamada a viver e pelo estilo eclesial que todos somos chamados a acolher e abraçar.

O profeta Isaías, proclamando a glória da nova Jerusalém, convida a entoar cânticos de louvor e de júbilo pela fecundidade que o Senhor gera no meio do Seu povo, porque aquela que era estéril se tornou fecunda e os filhos da desamparada são mais numerosos que os da mulher casada. Por isso, é o próprio Senhor quem exorta pela boca de Isaías: «alarga o espaço da tua tenda, estende sem medo as lonas que te abrigam, e estica as tuas cordas, fixa bem as tuas estacas, porque vais aumentar por todos os lados. Os teus descendentes possuirão as nações, e povoarão cidades desertas» (Is 54,2-3).

Como é belo olhar para este caminho sinodal como uma tenda que se alarga e que chega ao coração de cada homem e de cada mulher, que envolve todos os baptizados e, a partir deles, alarga o horizonte evangelizador a todos sem excepção. É a dinâmica evangelizadora do próprio Jesus que tem como interlocutor privilegiado as multidões, mas não como uma massa abstracta. Os discursos dirigidos a todos, complementam-se com a palavra particular e incarnada dirigida a cada um: «dá-me de beber» (Jo 4,7); «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa» (Lc 19,5); «Segue-me!» (Mt 9,9). A palavra dirigida a cada um, no concreto da sua existência, complementa-se ainda com o convite feito aos Doze, a quem chamou a participar na especial missão de serem garantes da apostolicidade e da unidade da Sua Igreja.

A Igreja sinodal, nascida do coração de Deus, inaugurada em Jesus Cristo e animada e vivificada pela força do Espírito Santo, é testemunha desta dinâmica evangelizadora e, na diversidade de dons, carismas e ministérios, caminha na história, alargando a sua tenda para que seja lugar de acolhimento, comunhão e unidade.

Envolver, acompanhar e integrar são verbos fundamentais da dinâmica sinodal e devem moldar a nossa acção eclesial. O caminho sinodal, inaugurado a 10 de Outubro de 2021, pelo Papa Francisco, em Roma, e que nos conduzirá à XVI sessão geral ordinária do Sínodo dos Bispos, realizada por vontade expressa do Papa Francisco em duas sessões a decorrer em Outubro de 2023 e 2024, é testemunho e sinal que os eventos, estruturas e processos sinodais são momentos paradigmáticos para viver, potenciar e operacionalizar o estilo eclesial que deve caracterizar a Igreja: ser um povo que caminha na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo (LG 4).

A sinodalidade é o «modus vivendi et operandi» da Igreja, pois, como afirma S. João Crisóstomo «Igreja e sínodo são sinónimos». Sabendo como é fácil e tentador que mesmo os conceitos mais belos e mais bem formulados teologicamente possam ficar encerrados na sua formulação teórica e abstracta, é necessário que a sinodalidade se torne operativa e dinâmica. Como nos recorda o documento para a etapa continental, este caminho já está a produzir frutos, a gerar comunhão e a potenciar a unidade, mas não está isento de dificuldades que devem ser identificadas e abraçadas como pontos de esforço para que a comunhão seja mais fecunda e a unidade mais verdadeira.

Alargar a nossa tenda implica a capacidade de aplanar terrenos que são ainda tortuosos e escarpados, para que a alegria da sementeira e o júbilo pelos frutos já recolhidos, nos encorajem sempre a arrancar as ervas daninhas. São muitas as dificuldades apontadas para o exercício concreto da sinodalidade – o clericalismo, a falta de formação dos leigos, o défice das estruturas de participação e corresponsabilidade, a confusão com a democracia – contudo, importa referir, que, para mim, são sintomas de uma causa mais profunda: o défice de fraternidade. Na verdade, o défice de sinodalidade que assistimos, na Igreja, é proporcional ao défice de fraternidade.

A fraternidade é o maior desafio da construção eclesial e, simultaneamente, o mais necessário para que a Igreja seja aquilo que o Senhor espera dela: um povo de baptizados que vive a comunhão e a unidade à imagem da Santíssima Trindade. A fraternidade é a maior força motriz da missão evangelizadora, desde a evangelização da primeira comunidade crente, que evangelizava mais pelo amor que colocavam nas relações interpessoais, que pelos longos discursos que faziam. Partilhamos uma igual dignidade baptismal e somos corresponsáveis na única missão da Igreja que consiste em fazer presente no mundo o Evangelho que é o próprio Jesus Cristo e, só o poderemos fazer, de verdade, como irmãos: «nisto reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13,35).

A sinodalidade, para que seja verdadeiramente um estilo eclesial para uma permanente conversão pastoral, reclama um estilo de vida fraterna que seja testemunho de comunhão e unidade, sublinhando que a missão da Igreja tem como sujeito todo o Povo de Deus, que na variedade dos dons, carismas e ministérios, realiza no aqui e agora do tempo e da história a comunhão e unidade que um dia espera habitar em plenitude no céu.

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