A estrada, a sede... e o sonho

Finalmente, na Cova da Iria. Só falta ir à capelinha das Aparições dar graças por termos conseguido chegar. Depois, virá a vigília nocturna: o terço e a eucaristia, com a solene procissão das velas, e os acordes arrebatadores do adeus. Findas as cerimónias, sobra o desafio maior: «Não sejamos só crentes...sejamos credíveis».

A estrada, a sede... e o sonho
João Pires Silva
13 de maio de 2021

Dia, hora e local da partida: 7 de Maio, pelas 9 horas da manhã, Rotunda do Relógio, junto ao Aeroporto. O número de pessoas que integra o grupo é de somenos importância. Seremos sempre suficientes.
Para os que vêm pela primeira vez há um acolhimento especial, porventura mais jubiloso; quanto aos demais, saudamo-nos como irmãos que há tempo se não vêem. Em ambos os casos, a mesma alegria dos encontros fraternos.
Depois, a expectativa da caminhada... no mesmo sentido.

Antes da partida, a oração que a Dona Felismina nos faculta e nos convida a rezar:
«Senhor, ... concedei-nos a Vossa protecção ao longo de toda a viagem que vamos iniciar.»

Para robustecer o sentido deste retiro-em-marcha, levo na mala, que a carrinha de apoio já acomodara, o “Elogio da Sede”*, de Tolentino de Mendonça. No termo de cada jornada, há-de saber-me bem ler passagens desta obra de referência e dessedentar-me de uma sede que não é “...de água, mas é maior: é sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contacto com as nossas feridas” - Papa Francisco (12).
Confiantes e com entusiasmo, vamos partir. O grupo desfaz-se logo nas primeiras passadas. Para evitar lesões musculares graves, cada um deve adoptar o seu próprio ritmo de marcha. Por isso, muitos peregrinos caminham solitariamente.

Para protecção do grupo, os dois irmãos organizadores, posicionam-se em lugares estratégicos: um na vanguarda, em jeito de guia, outro cá atrás, como cerra-fila.

A primeira paragem é já ali, nos Olivais. Um café, um reforço de água, o recurso a uma casa de banho. Retomamos a marcha. De novo, a dispersão do grupo. Já se notam ligeiros cansaços e, num ou noutro caso, os pés a reclamarem carinhosas massagens.
Para nos recordar que «A fé não é um pódio: é uma estrada»(103), os quilómetros apresentam-se-nos agora com outras dimensões; são enormes.
Quando sucede chover também se dão graças. Nestas circunstâncias, a chuva é bem mais aprazível que os ardores dardejados pelo sol de Maio. O calor, a sede e a estrada: provações que temperam a nossa fé.
Depois, o almoço. Leve, como convém. Mais à frente, sentamo-nos para rezar o terço. Pouco importa o bulício que nos rodeia. Procuramos abstraír-nos: estamos focados em Fátima.

Vila F. Xira vai-se insinuando na paisagem. Lá muito longe, primeiro; depois, gradulamente mais perto. Já todos ansiamos por um revigorante banho, pelo tratamento dos pés, pela recuperação muscular das pernas (dir-se-ia, do corpo todo), e pelo almejado conforto de uma qualquer cama.
“O Senhor...disse aos seus discípulos...:
vinde...e descansai um pouco“ (17)

Novo dia - A mesma alegria dos reencontros matinais, após uma noite provavelmente bem dormida. A mesma oração da partida e a garantia de que, desta vez, a caminhada configurará um mero passeio: poucos quilómetros (é a etapa mais curta da peregrinação: Vila F. Xira-Azambuja), estradas e caminhos planos e de bom piso. Pontualmente, o grupo dianteiro pára em lugares previamente anunciados.
“Então Jesus, cansado da caminhada,
sentou-se... na borda do poço” (20).

No terceiro dia o percurso é mais longo (Azambuja-Santarém) e exigente, com acentuadas subidas e descidas. A oração da manhã a favorecer e a potenciar o entusiasmo do início da jornada. E lá vamos rumo ao Cartaxo, onde se almoçará.
Pelo fim do dia, na chegada a Santarém, regozijamo-nos pelos companheiros cujos pés e pernas se mantêm incólumes, e partilhamos solidariedades com aqueles que ostentam mazelas sérias. Quando algum dos nossos é forçado a desistir os abraços são de sentida angústia. E só Deus sabe «o que está dentro de um abraço» (25).

Percurso do quarto dia: Santarém-Alcanena. Por estes caminhos, vamos encontrando cada vez mais grupos de peregrinos. As saudações solidárias que permutamos acabam por contribuir para o reforço das nossas fraquezas que, a cada passo, vamos procurando que se transformem em forças. Em cada um de nós, há um enorme querer, continuamente alimentado pelo crer que nos move.
As orações da partida, o terço a meio da tarde e a força que nos advém das meditações solitárias que a estrada nos suscita, convocam-nos para a valentia. «A estrada tem mais a ensinar-nos do que estalagem” (105).

Eis o último dia: Alcanena-Fátima. Quem chegou até aqui...
Fátima já se anuncia pela orografia acidentada e pelos ares límpidos da montanha. As estradas estão pejadas de peregrinos. E alguns como nos apoucam! Um grupo que caminha desde Beja. Tão longe! Um casal, cada um com a sua enorme mochila: ali transportarão todos os pertences para a caminhada. Uma jovem madura que vem a Fátima apenas para agradecer o facto de ter conseguido uma segunda ocupação, que exercerá no início de cada noite, após o horário normal do seu primeiro emprego. Desta maneira, poderá custear os estudos universitários do filho. Que bonita maneira de dizer, como Etty Hillesum, «Tu, Senhor, não nos podes ajudar, mas nós é que temos de ajudar-Te»(125). Que rochedos de fé!
Agora, é a recta que antecede a chegada a Fátima a suscitar-nos sentimentos ambivalentes: o fim da jornada já se avista; porém, o caminho nunca mais acaba. Conforta-nos a certeza de termos, na rotunda dos Pastorinhos, a saudação maternal da Dona Felismina, a mentora e inspiradora destas nossas peregrinações, que ainda nos obsequeia com uma saborosa fatia de tarte de maçã.

Finalmente, na Cova da Iria. Só falta ir à capelinha das Aparições dar graças por termos conseguido chegar. Depois, virá a vigília nocturna: o terço e a eucaristia, com a solene procissão das velas, e os acordes arrebatadores do adeus.
Findas as cerimónias, sobra o desafio maior: «Não sejamos só crentes...sejamos credíveis» (149).

Entretanto, acordei. E que saudades do meu sonho!

* Quetzal - As citações, bem como a indicação das páginas, reportam à 1ª edição - 2018.
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