A comunicação da Igreja é um encontro

Este livro situa a Igreja no centro do nosso mundo contemporâneo, acompanhando as suas dinâmicas e não ficando à parte como um ecossistema puro e perfeito, atemporal e acontextual, que não é. Pensar a Comunicação na Igreja no tempo da Sociedade da Informação é entender que os desafios com que o mundo tem de lidar são prementes e são para todos. É evidente que a Igreja não pode deixar-se estar, mas deve estar andando.

A comunicação da Igreja é um encontro
Inês Espada Vieira
10 de novembro de 2021

O livro que o leitor tem na mão é um objeto de si mesmo. Objeto corpóreo e tátil, concreto, que é ele próprio prova de encontro. Ele é o gesto de comunicação e é também espaço onde o encontro tem lugar. Não esgota em si a comunicação e o encontro, mas faz parte dessa dinâmica essencial, do movimento em direção ao outro. Porque só há encontro se houver movimento.

O dínamo desta engrenagem é a Palavra e esta consciência está presente ao longo de todo o livro, no suave e constante diálogo com textos da Bíblia, sobretudo do Novo Testamento.

O livro divide-se em três partes. O primeiro capítulo trata “A Cultura do encontro como regresso ao essencial”. Um encontro pode ser fruto do acaso ou pode ser preparado. Quando é preparado ele parte de um convite, da ação da vontade. É a partir deste gesto que começa a proposta de pensamento que o leitor tem nas mãos: o convite ao encontro e a definição desse encontro. Pedro Guimarães alicerça a sua reflexão nessa evidência essencial: o encontro é com Cristo, um encontro que é vida, incarnação, caminho, um “saber habitar” e uma realidade escatológica.

Em todo o movimento de encontro há igualmente a possibilidade de desencontro, o avesso de que trata o segundo capítulo. Não se trata, porém, de uma lista de discrepâncias mas sim de uma leitura contínua das mensagens papais para o Dia Mundial das Comunicações Sociais que acompanham as mudanças que a sociedade tem vivido ao longo do século XX e XXI. Esta leitura permite construir um panorama que, como numa ampla tela, representa uma imagem pretérita e narra a evolução de que fazemos parte, enquanto ajuda a compreender o que somos. Assim, este percurso à volta do passado e o olhar particular sobre como ele é testemunhado pelas Mensagens referidas permite ajudar a preparar o futuro, o modo como a Igreja pode e deve comunicar(-se) no mundo global.

O segundo momento do segundo capítulo demora o olhar sobre a Globalização, sobre o tempo e o espaço, a pessoa, a família, a sociedade e a Igreja. Pedro Guimarães propõe nos títulos dos vários pontos estas categorias de análise, ligando-as a passagens do Novo Testamento, numa fértil e criativa atenção ao detalhe que se nota também ao longo de todo o livro. A Palavra está em relação connosco e com as nossas circunstâncias.

O terceiro capítulo é o ponto de chegada da reflexão proposta anteriormente, mas não é uma chegada que descansa, ou que conclui. É antes como um novo apeadeiro para seguir viagem, agora com mais bagagem, com maior experiência. Ao falar sobre “uma comunidade comunicativa”, o autor lança-nos uma provocação. E uso esta palavra no seu pleno sentido performativo: provocar para incitar, levar à ação, causar um movimento que seja origem de algo novo. No caso que temos em mãos, Pedro Guimarães faz propostas concretas para que, em diversos âmbitos, mais do que informar, a Igreja saiba “comunicar o que somos”. Neste contexto, o autor atenta na importância da renovação da linguagem e na formação, sobretudo dos jovens. Creio que este último capítulo – que não teria a mesma força sem os dois anteriores – é a grande virtude do livro que o leitor e eu temos nas mãos. É um apontar de direção para pôr mãos à obra e estar presente; para agir, também, nesse ecossistema paralelo e complementar que é o espaço dos media tradicionais (agora reinventados na sua relação com o online) e das redes sociais. Pedro Guimarães propõe três “elementos de ação” a ter em conta: uma equipa concreta, uma passagem da Bíblia, e um caminho-projeto; propõe também critérios de avaliação (e quantas vezes nos esquecemos destes momentos de ponderação e eventual revisão dos nossos projetos, porque sentimos que não há tempo para parar).

Um dos aspetos centrais propostos para a relação da Igreja com os meios de comunicação é a da renovação da linguagem, comunicando a sua identidade e o seu coração, e não somente informando acerca do que se faz. Sobre a linguagem, ainda, o autor alerta-nos para a necessidade de ter consciência de que estamos perante um momento novo e exigente: “não se trata apenas “saber usar” esta nova linguagem, mas de ir mais além, ir mais profundo. Trata-se de compreender, interpretar e falar esta «nova linguagem» em modo pastoral, descobrindo os desafios que esta realidade coloca à Igreja.”

Uma vez mais, além de considerações sobre esta importantíssima questão da linguagem, o autor oferece-nos um guia prático para ultrapassarmos um eventual impasse e usa para isso verbos de criação e ação: gerar (proximidade); começar (em família); experimentar (a misericórdia); crescer (na esperança); anunciar (a verdade); testemunhar (a História).

Estamos diante de um ensaio, com uma estilística límpida, e é de destacar também a elegância ponderada dos títulos de cada ponto e dos tópicos apresentados. É bom lermos ensaio com esta qualidade de investigação e reflexão, mas também com este cuidado na escrita. É que o autor põe desde logo em prática neste livro esse saber narrar sobre que escreve, e que permite redescobrir a memória e, assim, exercitando um novo olhar sobre a realidade presente, valorizar o substantivo em detrimento da habitual primazia dos adjetivos.

Por conseguinte, quando pensamos no nosso (nós, indivíduos, nós, Igreja) lugar face aos media, é no sujeito (individual e coletivo) que devemos centrar-nos: “É a pessoa, enquanto ser que se projeta nos media, que deve ser educada e não o seu movimento de estar fora ou dentro dos media.” Esta educação não é um condicionamento controlador, mas nasce da liberdade, da compreensão e do dom.

Uma nota ainda para destacar um dos sinais mais importantes da proposta de Pedro Guimarães: a atenção à juventude que, claro, se alicerça na própria atenção do Papa Francisco aos jovens. Em todo o caso, trazê-la para o final deste livro mostra que é um trabalho inteiro, que não perde fôlego, e que claramente tem uma visão de futuro. O que se percebe, igualmente, na apresentação dos lugares comuns (assim, sem hífen) para uma experiência comunicativa plena e abrangente, que convoca as dimensões física e digital da vida, tão bem sintetizadas no neologismo estrangeirado do onlife.

Este livro situa a Igreja no centro do nosso mundo contemporâneo, acompanhando as suas dinâmicas e não ficando à parte como um ecossistema puro e perfeito, atemporal e acontextual, que não é. Pensar a Comunicação na Igreja no tempo da Sociedade da Informação é entender que os desafios com que o mundo tem de lidar são prementes e são para todos. É evidente que a Igreja não pode deixar-se estar, mas deve estar andando. Escrevi este gerúndio para indicar a continuidade do movimento, a dinâmica imperiosa que deve ser a do agir cristão, sobretudo num mundo que se reconhece diverso. Diversidade entendida como riqueza, mas diversidade também identificada com desigualdades.

Ao longo da obra, Pedro Guimarães recupera uma das imagens que o Papa Francisco propõe na EG: a imagem do poliedro, da figura que, na sua unidade, mantém ainda assim a individualidade de cada face. Neste sentido, o encontro poliédrico realiza-se não já em sentido vertical, mas num sentido horizontal, segundo o modelo da mesa redonda, também inspirado na EG. É a essa mesa que estamos sentados, acompanhados. Partilhar a mesa não é menos importante do que partilhar o pão.

Uma outra imagem que nos fica desta obra é a do coração. Não é, digamos, uma imagem original (não por isso menos simbólica e necessária), mas o autor enriquece-a valorizando a sua dimensão de movimento, de sístole e diástole. O encontro é dinâmico; vimo-lo diversas vezes, só há encontro se houver movimento.
Como observámos até aqui, um dos importantes contributos deste estudo de Pedro Guimarães é o de nos apresentar um encontro que é concreto, que pode ser realizado com gestos reais, que passa de um apelo da vontade para uma realidade experiencial. Neste contexto, o autor resgata das Mensagens do Papa Francisco para o Dia das Comunicações Sociais a figura do Bom Samaritano (Lc 10, 29-37) que, como sabemos, ganha protagonismo na mais recente encíclica papal, Fratelli Tutti. Escreve Pedro Guimarães: “Comunicar não é apenas aquele que se faz próximo, mas é quem cuida daquele que encontra; não só porque reconhece o outro como seu semelhante, mas tem a capacidade de se tornar semelhante ao outro.”

A epígrafe vicentina que abre este livro liga-se assim de forma indelével ao exemplar e criativo encontro sobre que nos escreve e ensina Pedro Guimarães.

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