Tomai e lede
Propor a leitura da Bíblia como actividade individual tem sido um desafio na história da Igreja, e não é diferente o que se passa hoje. Se, outrora, o receio pela interpreta ção individual dos textos sagrados motivou discussões graves e separações, nos dias de hoje, em que qualquer indivíduo tem uma Bíblia disponível para a ler e interpretar de forma livre, a abordagem não parece ser muito diferente.


João Duque
29 de julho de 2026
Quando perguntaram à Madre Teresa o que recomendaria a alguém que duvidasse da presença real de Cristo na Eucaristia, certamente esperavam dela, uma mulher tão activa, uma resposta não muito diferente daquela que vemos em ambientes eclesiais: argumentos teológicos sólidos, propostas assentes em grandes planos pastorais, etc. – mas ela respondeu: “Reze. O fruto da oração é sempre a alegria de amar Jesus, uma aproximação maior d’Ele.” “E se alguém disser que não sabe rezar?” “Eu ensino-o [que é como quem diz, eu rezo com ela]”. E a Santa de Calcutá continua naquilo que poderia parecer, à primeira vista, uma tautologia: “aprendemos a rezar, rezando”.
Há coisas que não podemos ensinar a ninguém mas apenas desafiar a fazer ou apontar para algo. A oração é uma delas e, por isso, a afirmação da Madre Teresa é tão certeira. Por muitos tratados de espiritualidade que se possam ler, por muitos workshops de oração mental que se possam frequentar, o real deal é sempre diferente, porque não há como forjar o que só Deus e o orante podem contar acerca do que se passa na sua intimidade. A oração, como diria outra Teresa, “não é mais do que uma relação de amizade, estando muitas vezes a sós, com Quem sabemos que nos ama”.
Na oração, a Palavra de Deus tem precedência em todos os sentidos, porque é primeira, porque é criadora e salvadora, e porque dá forma àquilo que muitas vezes nem nós próprios sabemos descrever. Aliás, a leitura (da Sagrada Escritura e não só) é um fenómeno que nos ensina muitas vezes coisas que só mais tarde é que viremos a conhecer na vida prática. E, nesse sentido, a leitura pertence ao tipo de actividades que descrevíamos há pouco como necessariamente solitárias e privadas, que exigem recolhimento. Se, por um lado, vemos a importância dada à Palavra proclamada nas liturgias, por outro, sabemos que esta só penetrará o solo e dará frutos se houver uma meditação dos textos escutados, como que um ruminar. Se é verdade que a Palavra é para ser dita ou cantada, também é verdade que é para ser significada, lida.
A leitura como actividade que requer silêncio, favorece a escuta, e a interpretação desperta a discussão, contrastando com a dispersão a que estamos expostos hoje nas redes sociais ou com a preguiça intelectual a que nos tenta a inteligência artificial. E a escuta da Palavra de Deus, apesar de experienciada na solidão, não é uma actividade solitária porque consiste no encontro com o Deus Vivo que fala através da Escritura. Esta solidão habitada satisfaz o desejo humano de encontro, no qual somos vistos por Deus tal como somos quando estamos sós. Isto contrasta com a solidão das redes sociais, nas quais somos vistos como queremos, e cujo encontro prometido, mais cómodo, imediato e que suprime distâncias é tantas vezes fonte de desilusão.
Propor a leitura da Bíblia como actividade individual tem sido um desafio na história da Igreja, e não é diferente o que se passa hoje. Se, outrora, o receio pela interpretação individual dos textos sagrados motivou discussões graves e separações, nos dias de hoje, em que qualquer indivíduo tem uma Bíblia disponível para a ler e interpretar de forma livre, a abordagem não parece ser muito diferente. Mas, enquanto em tempos idos, o problema estava sobretudo na falta de acesso à leitura, quer por motivos educacionais, quer por falta de materiais, hoje o problema está na profusão de propostas pastorais sobre esta matéria, que se detém mais em contextos catequéticos, histórico-geográficos, explicações de géneros literários, suposições autorais ou que procuram normalmente encontrar um sermão debaixo das pedras. E, entretanto, a leitura desinteressada e continuada da Bíblia, sem as amarras de pretextos, é esquecida. São raras as ocasiões em que se propõe um close reading da Bíblia que vá directo ao texto sem explicações prévias (seria até interessante fazer a experiência de Stanley Fish em “How to recognize a poem when you see one”, não fosse a maior parte da linguagem dos textos bíblicos amplamente inconfundível), ou uma leitura só pelo prazer de ler, pelo prazer de escutar a voz de Deus, de reconhecer o texto como uma leitura infinita, como descrevia o Cardeal Tolentino.
É interessante verificar os frutos do que tem acontecido nestes últimos anos em Portugal no que toca ao tema da Bíblia. Temos visto crescer a tradução da Conferência Episcopal Portuguesa, que reúne biblistas de todo o país, que está quase no seu termo. A primorosa tradução do Professor Frederico Lourenço, recentemente concluída, da Septuaginta (única em Portugal) e do Novo Testamento, tem tido um sucesso editorial extraordinário. Assistimos também ao surgir de programas sobre a Bíblia, nomeadamente o Podcast “Histórias da Bíblia”, da Rádio Observador, que vai já na sua segunda edição. E, last but not least, vimos nascer aquele que é, talvez, o projecto mais extraordinário que vimos em Portugal nas últimas décadas, o Podcast “+365”, criado pelas EJNS, que se propõe a ler a Bíblia inteira durante um ano, um dia de cada vez, com o acompanhamento de diferentes sacerdotes e bispos.
O sucesso destes projectos contrasta com a fraca adesão que costuma caracterizar as formações bíblicas que as dioceses e paróquias procuram oferecer. E talvez a razão seja porque saltamos este passo fundamental, que é solitário, a leitura, a escuta orante da Palavra, o diálogo de resposta com Deus. O problema não está em querer oferecer uma contextualização do texto mas em esquecer que o texto não pode ser apenas conhecido mas lido e de que a leitura deve ser o primeiro passo. Isto implica corrigir um erro enraizado na cultura de muitos católicos, que, por conhecerem parte do texto ou por terem ouvido paráfrases dele, presumem um conhecimento completo sobre a matéria, e julgam não ser necessária a leitura, transformando a Bíblia numa obra que toda a gente conhece mas ninguém lê, como a Recherche de Proust ou Ulysses de Joyce. Mas, feitas as devidas vénias aos romances mencionados, nenhum deles se considera como o fenómeno extraordinário que é saber que Deus fala através de um texto. Será que o queremos ler?
