Shilpa Gupta, Tacita Dean e Salomé Lamas: quando a arte ecoa espiritualidade

Gupta, Dean e Lamas são três artistas contemporâneas que tenho acompanhado nos últimos tempos e às quais vale a pena dar especial atenção neste caminho de quarenta dias no deserto.

Shilpa Gupta, Tacita Dean e Salomé Lamas: quando a arte ecoa espiritualidade

Francisca Gigante

16 de março de 2022

Gupta, Dean e Lamas são três artistas contemporâneas que tenho acompanhado nos últimos tempos e às quais vale a pena dar especial atenção neste caminho de quarenta dias no deserto. As três artistas têm feito um percurso extraordinário no mundo artístico e, de facto, com provas dadas em grandes exposições internacionais.

Hoje lembrei-me que fazia sentido trazê-las a esta mesa – mas quem sabe, também às mesas de casa, no trabalho, ou com os amigos – para falar sobre arte contemporânea, sobre espiritualidade e sobre memória. E para refletir sobretudo na forma como trabalham as temáticas das suas obras e como as podemos aplicar às nossas vidas durante este período tão intenso que vivemos.

Shilpa Gupta nasceu em 1976, vive e trabalha em Mumbai na India, onde estudou escultura na escola de belas artes. Tacita Dean nasceu em 1965 em Canterbury, Inglaterra, vive e trabalha entre Berlim, Alemanha, e Los Angeles, Califórnia. Salomé Lamas nasceu em 1987 em Lisboa, estudou cinema em Lisboa e Praga, artes visuais em Amesterdão e é doutoranda em arte contemporânea em Coimbra. Desenho, fotografia, vídeo, instalação. Estes tipos de média são basilares a estas artistas. Vão ao limite das capacidades técnicas dos meios que utilizam para trabalhar.

“For In Your Tongue I Cannot Fit” é uma instalação sonora composta por 100 altifalantes, microfones, texto impresso, e suportes metálicos, apresentada pela primeira vez no YARAT Contemporary Art Space no Azerbeijão e posteriormente na 58.ª Bienal de Veneza “May You Live In Interesting Times”. Shilpa Gupta trabalha continuamente para criar pontes entre artistas que se confrontam com linhas de controlo político. Cem microfones em sete filas aparecem suspensos acima de cem espigas de metal, cada espiga de metal perfurando uma página com um verso, numa sala pouco iluminada. Ouvem-se os versos em voz alta num refrão de sussurros em altifalantes ocultos. Os versos, datas, e nomes dos autores, podem ser encontrados escritos nas páginas. A peça sonora dura mais de uma hora e alterna entre uma multiplicidade de línguas: árabe, chinês, inglês, hindi, russo, espanhol, turco, urdu, entre outras; alternando sequência após sequência, como se todos os poemas fossem murmurados em uníssono, e orquestrando um coro de vozes. As palavras são compreendidas por falantes dessas mesmas línguas; mostrando o intenso período de pesquisa de Gupta para identificar as obras poéticas, que se estende por treze séculos e inclui diferentes regiões em torno do mundo oriental e ocidental. O título baseia-se no poema homónimo do poeta azerbaijanês Seyyid Imadeddin Nesimi (1369-1417), escrito no século XIV, quando a sua pátria havia sido devastada pela invasão mongol. Começa com o verso “Ambos os mundos podem caber dentro de mim, mas neste mundo não posso caber / eu sou a essência, não tenho lugar, mas na existência não posso caber”, publicado pela Fundação Heydar Aliyev. A maioria dos poemas foi escrita a partir do século XX, refletindo os conceitos de estado-nação, a luta pela autodeterminação, o acesso à democracia, e o direito humano fundamental da liberdade de expressão. Esta instalação sonora em grande escala dá voz a uma centena de poetas que foram presos ao longo dos séculos pela sua escrita ou alinhamento político. Realçando o direito à liberdade de expressão, há um diálogo contínuo entre o espaço e o tempo na obra de Shilpa Gupta.

Lembro-me, por exemplo, quando Tacita Dean produziu uma obra para a Turbine Hall na Tate Modern em 2011, o resultado foi um “FILM” silencioso em 35mm, de uma praia, com uma imagem de sol ao entardecer sobre as ondas do mar, sobre um monólito de mais de 13 metros de altura. A artista fez uso de uma imagem que evoca o misterioso monólito do filme 2001: Odisseia no Espaço (que curiosamente teve dois finais alternativos, um feliz para o mercado americano, e outro trágico, para o mercado russo) e coloca imagens captadas na praia misturadas com a montagem de vídeo a preto e branco, de vídeo a cores, e vídeo colorido à mão. Estas mudanças verdadeiramente subtis poderão ser mudanças que conseguimos ou não descodificar. Para Tacita Dean este foi um período que, explica, foi marcado pela auto-descoberta. Ao fazer a reconstrução de eventos a partir da memória, das memórias que tem de outras cenografias, estendeu a transformação da imagem e levou a espiritualidade para outra dimensão.

E, por fim, “OURO E CINZA / GOLD AND ASHES” (obra em desenvolvimento) de Salomé Lamas, com escritos que falam sobre o corpo e o ser – “Sou um impulso, uma ideia, um portento de sonhos impossíveis.” (traduzido pela autora) –, sobre a moral humana – “Deito-me entre o céu e a terra, entre o bem e o mal, entre a paciência e a explosão.” –, sobre a experiência do amor verdadeiro – “Quando falamos em amor e vivemos por amor, a verdade no amor será o nosso conforto. Quem somos está limitado apenas por quem pensamos ser. (...) Há palavras que só existem na mente do céu, um saber brilhante, um momento claro de ser.” A artista procura levar, através do script e imagem que se desenrola na nossa mente, fragmentos de sentimentos que surgem enquanto rezamos. Fá-lo com alguma perspicácia, adiciono eu, e normalmente em dualidades, através de diferentes personagens, que poderão ser humanas ou sobrenaturais. Esta existência espiritual, avança Salomé Lamas, acaba por ser moldada pelo poder e pelas relações construídas com o ambiente em redor. E, por sua vez, à medida que rezamos, continuamos a produzir associações de coisas, que nos vêm à memória, para uma possível redenção.

De certa forma, sempre que faço presente (mesmo que seja através da memória) as obras destas artistas, sinto uma enorme transformação. Passo a explicar, podem ser vistas como bombas de oxigénio, de forma a dar um impulso aos dias mais difíceis ou mais complicados de mastigar. Podem ainda surgir de relance para dar algum ânimo, ou ser luz num caminho árduo por entre desertos.

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