Por vezes a vida parece-nos lenta

“Arranquei as plantas secas do vaso do parapeito da janela. Dois crisântemos. Secos. Não sei o que os matou. Quando os puxei, vi raízes fortes e abundantes.”

Por vezes a vida parece-nos lenta

Carolina Serrano

12 de janeiro de 2022

Por vezes a vida parece-nos lenta. Os dias corriqueiros, alesmados. A luz é frouxa, as árvores escuras. Por vezes a vida parece-nos lenta. Os dias parecem-nos lentos, frouxos, escuros, corriqueiros. Por vezes não se sabe o que dizer, o que fazer. Estar quieto desassossega.

Olho pela janela.

Abro uma caixa de bolachas, está vazia. Ando uns passos pela casa, é pequena. Oiço o som do frigorífico constantemente. As máquinas são uma presença que não nos dá nada.
Ontem arranquei as plantas secas do vaso do parapeito da janela. Dois crisântemos. Secos. Não sei o que os matou. Quando os puxei, vi raízes fortes e abundantes. Não esperava que assim o fossem, com aquele caule raquítico e desolado. Surpreendeu-me a violência de as ter arrancado e de ver a terra presa às raízes que não queriam sair, que me resistiram. Deitei-os fora, no lixo da cozinha. Arrependi-me.

Penso então no que está submerso, enterrado. Aquilo que não se vê, que só se vem a descobrir quando se mexe, quando se escava, quando se suja as unhas. O que está escondido. Tapem-me os olhos para eu ver. Já me tinha esquecido.

Já me tinha esquecido da pequena solidão, da presença de mim própria. Já me tinha esquecido dos dias cinzentos. Do olhar a janela. Já me tinha esquecido do que é ver-me ao espelho, ver-me na casa. Deambular, ficar quieta.

A terra do vaso agora não tem nada. Tenho medo de lá por o que quer que seja. Eram tão bonitos os crisântemos. Não sei o que os matou.

O que está escondido, o que está dentro, o que não se vê. O que se vê no silêncio. O que se ouve na casa vazia. Lembro-me da frase “o tempo é uma medida do espírito”, várias vezes. Várias vezes me lembro da frase. Vou revisitar Santo Agostinho. Vou revisitar a memória. A minha memória que me dá vida, que me lembra a vida, que me diz quem sou. Vou revisitar quem sou.

O tempo passa. Sinto-o a ir-se embora, a escorregar-me pelos dedos. “A vida é um sopro” diz-me a minha mãe tantas vezes. Sei o que ela quer dizer, mas não deixo de apreciar a beleza do outro sentido. Gosto desta palavra, sopro.

Olho pela janela. Divido-me na ideia se o tempo dá ou se o tempo tira. Talvez dê. Acho que dá. Apesar de tudo.

Mesa Redonda 
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