Paisagem flutuante

Suspiramos na procura de uma outra cidade que nos arrebate, que nos tire os pés do chão como Veneza o faz, mas até aqui ainda não a encontrámos. (Escrevam-me quando a encontrarem!) O Mar Adriático tem algo de estrondosamente especial.

Paisagem flutuante

Francisca Gigante

17 de novembro de 2021

Basílicas num lugar como Veneza, um peixe-ilha,
que se faz de um conjunto de cem ilhas independentes
construídas por homens e mulheres há milhares de anos,
Basílicas existem quase em cada esquina.
Um total de cento e quarenta e oito igrejas, seis basílicas, quatrocentas e trinta e nove pontes, cento e quarenta e duas fontes,
Se quisermos chegar mais longe – mil cento e sessenta portas de água.
Entram embarcações, saem renovadas.
O que não existe, hoje em dia, são fiéis em quantidade suficiente para as proteger.

Aprendi há exatamente um ano e uns meses com um artista que veio para a bienal:
La Serenissima é sustentada por estacas de carvalho e pinheiro
sobre as quais existe solo feito de lama que as faz encolher e inchar.
Trazidas da floresta de Cansiglio, anteriormente utilizada
para a construção de remos das galeras,
a ilha existe, fica à superfície.

Existem pontes em cada ponta,
pontes que cruzam locais, estrangeiros e viajantes
saúdam-se, acotovelam-se, contam os passos
pelo meio desta Cidade Invisível, assim mesmo a descrevia Italo Calvino.

Não escrevo sobre os reflexos dos canais, pois é uma experiência íntima,
escrevo, ao invés, sobre os quilómetros de briccole, troncos de madeira
que sinalizam os percursos dentro da laguna.

Entremos no vaporetto para um paesaggio galleggiante (paisagem flutuante).
Do lado de fora do pequeno barco que ondula,
a ilha parece-nos uma construção perfeita. Ziguezagueamos pela maré.
Respirando fundo nada me parece igual.
E tudo está exatamente como os antepassados o deixaram.
Não há terraços, palácios decadentes ou pavilhões nacionais
que possam cancelar estas memórias.

É a cidade que nos entrega a navegação para as mãos.
Entre elementos terrestres e aquáticos,
gravitamos à volta da sua natureza natural,
criamos raízes sem o esperarmos.

Tomamos consciência de que esta ilha nos leva a questionar:
- A jornada da arca de Noé, a salvação das espécies,
- O projeto Hypotethical Islands de Robert Smithson em 1970, no auge da Land Art,
- A obra de arte do casal Christo e Jeanne-Claude, Surrounded Islands, nos anos 80.
- ...

Suspiramos na procura de uma outra cidade que nos arrebate,
que nos tire os pés do chão como Veneza o faz,
mas até aqui ainda não a encontrámos.
(Escrevam-me quando a encontrarem!)

O Mar Adriático tem algo de estrondosamente especial.
Entra a água, aqua alta, cento e vinte centímetros, surgem as sirenes.
Apontam o número de centímetros que a água irá subir esta noite.
Sem descanso para aqueles que veem a sua vida a alagar.
Saímos de botas largas encontradas no fundo do armário, botas entregues por alguém que deixou a ilha, por alguém que já não espera o seu tempo.
Alguém que deu o seu tempo a esta ilha, alguém que quis que ela ficasse suspensa por entre as suas respirações.

Voltamos às Basílicas.
O compromisso seria enorme.
Deixar a cidade alagar, as Igrejas debaixo de água tal Atlântida –
escrevia Platão: “para lá das Colunas de Hércules” –
seria devastador. Talvez seja por isso que continuam as peregrinações.
Talvez seja por isso que não cessam os acordes graves saídos dos tubos dos órgãos reconvertidos. Talvez seja por isso que continuamos a ser comunidade.
Não nos resta esperar por mais fiéis, resta-nos rezar pela nossa fidelidade a um lugar brilhante, que nos impele à oração.

Abro os olhos enquanto a homília avança. Fala-se do nosso patriarca.
Fixo os mosaicos bizantinos uma e outra vez.
Deixo-me encantar pela beleza das pedras: revelam a história de vida de Cristo,
dos amigos e da família que o seguiu.
Procuro acompanhar o compasso da Palavra. Não é fácil pois o italiano em dialeto veneziano é fugaz. Desvio o olhar da magnificência destes desenhos. Uma e outra vez.

Marco Polo, explorador veneziano, regressa.
“Jamais poderia imaginar que existisse uma cidade parecida com esta.”
Tenho medo de perder Veneza, cidade aquática, que alterna os caminhos.
Todos os dias o trajeto altera-se. Subimos, descemos escadas, passamos pontes, ruas estreitas. Não há mapa que nos valha,
sentimos o peso das pietre de Ruskin,
a Fondamenta degli Incurabilli de Brodsky.
Quais tratados de arte e arquitetura?
São humanos tratados pela grandiosa arte de descrever o que observam,
numa cidade que nos contempla de frente, numa cidade que nos prende o olhar.
Foi o que tentei fazer. Agora resta-me rezar.

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