Olga Tokarczuk: Estrela Nobel da Literatura em Língua Portuguesa

Os Encontros do Centenário ocorreram no âmbito das Comemorações do Centenário de José Saramago, promovidos em parceria com a Fundação José Saramago e a Rede de Bibliotecas de Lisboa na Biblioteca do Palácio das Galveias, moderada pelo Professor Manuel Frias Martins, conhecedor da obra de José Saramago, Herberto Hélder e James Joyce.

Olga Tokarczuk: Estrela Nobel da Literatura em Língua Portuguesa

Francisca Gigante

09 de novembro de 2022

O que têm em comum o coração de Chopin, o coração de D. Pedro IV e a língua de Santo António? Contou-nos Olga Tokarczuk, Nobel da Literatura que, além de ter pulsado no peito durante a vida de Chopin, o coração do virtuoso pianista-compositor polaco foi levado de volta para Varsóvia pela sua irmã a pedido do próprio. Sobreviveu a ambas as guerras, à ocupação russa e à destruição da cidade durante a ocupação nazi.

Lembrei-me das notícias no jornal que diziam: “Coração de Dom Pedro IV está no Porto mas segue para o Brasil”; depois de ter sido levado até Brasília “Coração de D. Pedro IV regressa ao Porto e fica em exposição pela última vez”; e “A cidade ficou a conhecer ainda melhor um dos seus tesouros.”

Também escutei com atenção o que me contou o historiador Francisco Teles da Gama que me acompanhou ao Palácio das Galveias em Lisboa. Investigou a vida de Santo António – o primeiro conhecido viajante português no mundo – e descobriu que o mesmo tinha acontecido com a língua do santo. Revelou-me que uma das partes mais frágeis do corpo do batizado Fernando de Bulhões tinha sido encontrada perfeitamente preservada após a sua morte durante a Idade Média. Na Segunda Guerra Mundial, com receio sobre os bombardeamentos na cidade, os frades foram obrigados a transladar a língua do santo do relicário para uma caixa de ferro. Ali permaneceu durante dois anos. Depois regressou ao lugar sagrado. Séculos mais tarde, o aparelho vocal do santo encontra-se intacto na Basílica com o teto estrelado por Giotto.

As portas e as janelas do Palácio das Galveias estavam abertas, por isso tomei a liberdade de escrever as palavras que o vento levou depois da sessão, para que esta estrela brilhe alto na constelação dos amigos nas artes.

- Porquê este interesse pelos mortos?
- É o reflexo dos tempos que estamos a viver. Somos andantes do apocalipse. A guerra que ultrapassa o local para o global. A ameaça da crise climática. Neste momento, estou à procura de respostas e esta é uma procura de grande ansiedade. As respostas não vêm do centro que é invisível, mas do que está escondido e à volta.

- Apesar desta atmosfera dos mortos, estranha e bizarra, encontro na sua obra uma ironia muito eficaz na avaliação dos comportamentos humanos. Qual o lugar da ironia na sua obra e na literatura global como leitura do mundo?
- Eu provenho de uma cultura irónica. É uma parte habitual na cultura polaca e no seu lado mais obscuro. Não levar tudo tão seriamente. Não consigo imaginar a literatura sem ironia. A ironia é uma corrente que corre [posso ter errado na transcrição...] por baixo da literatura. Conseguir ver a ironia entre linhas é inteligente e sobretudo apostar num tradutor bom, eficaz e que procura o sentido das palavras. Estamos sempre a aprender.

- Em “Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos” está patente a ironia da vingança dos animais sobre os habitantes de “Planalto,” numa crítica mordaz à forma como a sociedade teima em colocar-se numa posição de superioridade face aos animais e à Natureza. O que podemos fazer quanto ao sofrimento dos animais?
- Temos de viver consciencializados dos milhares de milhões de pessoas que viveram antes de nós. É uma enorme responsabilidade sobre o mundo. Cada vida é um milagre, e devemos observar quão importante cada vida é, compreender como somos quase parentes. A presença dos mortos no mundo dos vivos deixa-nos a refletir e a viver de forma mais atenta e, por isso, tentei olhar de forma intrínseca para a minha obra para encontrar esta resposta.

- Por que é importante para si retratar a Polónia rural?
- Para mim foi importante dar a conhecer a ruralidade da Polónia porque estes ambientes mostram os pequenos detalhes destes lugares, o que é especial nas aldeias no interior leste da Europa.

- No livro “Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos,” a temática do isolamento é causada pelos próprios personagens ou é causada por fatores externos?
- Aqui devo sublinhar a família que nos foi dada, que pode ser fonte de dramas e de traumas. Mas devemos também apoiar-nos nos amigos, na família que escolhemos. No livro, a professora reformada Janina Duszejko é uma personagem livre que cria família nos animais que a rodeiam.

- Conhece a obra “As Intermitências da Morte” de José Saramago?
- Não sou especialista, mas conheço e sinto-a muito. Li os livros traduzidos para polaco. José Saramago gostava de brincar com a linguagem. Um leitor atento pode sentir que bebi da sua literatura. Saramago tinha uma capacidade rara para criar alegorias. Era um criador de alegorias. A alegoria é como se fosse açúcar para a narração. É muito viciante, lemos muito rapidamente e temos muito prazer. Os livros escritos com base na alegoria nunca morrem. Nesta obra de Saramago, a ira e a zanga são emoções que se encontram escondidas na sociedade. Sou psicóloga e tive casos onde a ira e a zanga traziam distúrbios para a vida das pessoas e, na verdade, não se pode tratar estas emoções como uma emoção mutável capaz de alterar toda uma vida. A ira existe quando algo nos está a limitar. Quando não podemos ir a mais lado nenhum. Saber e conhecer a razão que nos faz produzir ira pode conseguir-nos libertar. Se a sabedoria fosse considerada uma emoção, seria a ira. Ambas as personagens dos livros vêem, entendem e começam a agir sobre esta emoção.

- Como se deve encontrar o fio condutor em “Viagens” [“Bieguni,” em língua polaca, que em português significa “fugitivos” ou “Flights” em língua inglesa, que traduzido à letra em português quer dizer “voos”]?
- Viajei muito e quis descrever as minhas experiências. Existem muitas formas de abordar a escrita, através de diários, reportagens, longbooks; temos múltiplas possibilidades para escrever. Na verdade, nenhuma destas formas cabia em mim, eram pequenas demais. Eu estava à procura de uma forma multifacetada que pudesse refletir “Viagens.” [A autora diz “Viagens” propositadamente em língua portuguesa, a mesma língua e a língua que é completamente diferente da língua física do santo que se encontra a 10 minutos de Veneza, em Pádua. Diz com uma cadência molto vivace, com uma sonância suave e decidida. Fala tal e qual alfacinha no meio da praça a decidir se leva mais um molho de vagens de feijão maduro para o almoço. “A forma como a língua é falada por alguém que a compreende é enternecedora”, segredava-me o Francisco à saída deste encontro.] Quando conhecemos alguém, essa pessoa marca o início, o começo de uma história. Quando visitamos um museu, as galerias estão repletas dessas mesmas inspirações. O mais importante é o nosso eu-viajante, aquele que sente o sofrimento. Que sofre e aceita. Pois o que rodeia o ser humano é o caos. A história da astronomia revela-nos Andrómeda, Cruzeiro do Sul, Cassiopeia, Ursa Maior, Ursa Menor, Pégaso, Fénix, Órion... e nós gostamos dessa ordem. As constelações do céu estrelado são completamente distintas, mas podemos sempre encontrar um novo aglomerado.

- Qual a razão para chamar romance-constelação a “Viagens”?
- Chamei o meu romance de constelação, pois dizem os neuropsicólogos que o nosso cérebro pensa em fragmentos, em trechos, em pequenas histórias que se interligam. A nossa consciência é diferente da que tiveram Saramago e Flaubert [que publicou os livros Madame Bovary, A Tentação de Santo António, A Lenda de São Julião Hospitaleiro e O Coração Simples]. As histórias não são aleatórias, algumas estão mais perto ou mais longe. Escrevi o livro “Viagens” numa sala e no chão tinha diversos papéis com as histórias espalhadas. Colocava linhas entre uns papéis e outros. Desta forma estabelecia ligações entre as várias histórias. Um gabinete de curiosidades [que deve ser aqui lido como uma reinterpretação histórica das criações iniciadas no século XVII] tem a mesma construção de “Viagens”.

- Começou a publicar a sua poesia em 1989 [data da queda do Muro de Berlim, “o fim da História” para Francis Fukuyama ou o quinto álbum de Taylor Swift] com uma coletânea de poemas intitulada “Miasta w lustraché” [em língua portuguesa traduzi este título para “Cidades em lustros”]. Qual o lugar da poesia na romancista consagrada Olga Tokarczuk?
- Quando era jovem escrevia poesia porque não tinha tempo para escrever prosa. Para mim, o romance é a melhor forma de escrever.

Talvez seja esse o segredo: continuar a escrever, encontrar a melhor forma de escrever.

E continuar a procurar a razão pela qual o coração de Frédéric Chopin deixou de bater [depois de ter escrito a sua sonata para piano mais conhecida, a Sonata No. 2, Op. 35, em Si Bemol Menor, o ritmo lento da A Marcha Fúnebre (1837-1839), que ressoou nos funerais de John F. Kennedy, Margaret Thatcher, Miguel Hérnandez e Winston Churchill]. Sabemos que após a morte, o coração pianista foi levado de Paris pela sua irmã. Sabemos que foi preservado em conhaque durante centenas de anos [passou o cabo dos trabalhos] e sabemos que se abrigou numa igreja em Varsóvia ao lado da passagem “Onde estiver o teu tesouro, aí estará o teu coração” (Mateus 6, 21), mas até hoje não sabemos porque parou de pulsar.

Conhecer a história da vida de D. Pedro IV é conhecer melhor a época do grito que significa “rio vermelho” na língua tupi declarado pelo rei que proclamou a independência a um lugar que não era seu [: o Brasil, eternizado por gerações de artistas, António Carlos Jobim, Caetano Veloso, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Chico Buarque, Criolo, Eduardo Galeano, Elis Regina, Gal Costa, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, João Gilberto, Jorge Ben Jor, Machado de Assis, Maria Bethânia, Maria Creuza, Maria Gadú, Marilá Dardot, Milton Nascimento, Novos Baianos, Os Mutantes, Rita Lee, Rubel, Susana de Moraes, Tereza de Benguela, Tim Bernardes, Tim Maia, Torquato Neto, Vinicius de Moraes...]. “E a manhã tropical se inicia” (Geleia Geral, 1968) / “Viva a bossa-sa-sa.” (Tropicália, 1968) / “Nascer, Viver, Morrer, Nascer” (Mil Coisas Invisíveis, 2022). Todos diplomatas da palavra.

Saber que milhões de peregrinos rezam em Pádua junto à língua incorrupta do santo da palavra [ou quando procuram objetos perdidos], é acreditar que o Sermão de Santo António aos Peixes escrito pelo Padre António Vieira [aqui lembramos os tempos de escola, além da obra incontornável de Fernando Pessoa e os seus heterónimos, Sophia de Mello Breyner Andresen e as profundezas do mar ou os pioneiros do Grupo do Leão, os modernistas da Geração d’Orpheu e os seus cafés de Lisboa], pregado no Maranhão a 13 de Junho de 1654 foi escrito em defesa da humanidade. Ser capaz de olhar para as estátuas do santo casamenteiro da cidade de Lisboa é compreender que todos falamos por gestos a língua do amor.

Olga Tokarczuk continuou, “Encorajo todos a fazerem perguntas.” Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos? Estas são as questões de todos os dias que os artistas-estrela nos colocam através dos livros que lemos, como nos explicou a nossa amiga Olga, Prémio Nobel da Literatura.

O que têm em comum o coração de Chopin, o coração de D. Pedro IV, a língua de Santo António e os livros que lemos? Extravasam fronteiras. Vivem depois da vida como viajantes do mundo.

Mesa Redonda 
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