O Velho Novo Oeste: Entrevista a Francisco Teles da Gama
No seu novo livro O Oeste Hipster, Francisco Teles da Gama percorre os meandros do distrito de Leiria, área Oeste de Portugal. Esta região tão afetada pelas catástrofes naturais nas últimas semanas serve de palco a uma vida intelectual e cultural que floresce entre lendas ancestrais e o património da Humanidade.


Francisca Gigante
29 de abril de 2026
No seu novo livro O Oeste Hipster, Francisco Teles da Gama percorre os meandros do distrito de Leiria, área Oeste de Portugal. Esta região tão afetada pelas catástrofes naturais nas últimas semanas serve de palco a uma vida intelectual e cultural que floresce entre lendas ancestrais e o património da Humanidade. Esta obra é composta por contos curtos, herdeira da tradição de Jorge Luis Borges e influenciada pelo testemunho de Irene Vallejo. Recorde-se o seu primeiro romance Cantiga Para Poeta Em Águas-Furtadas, lançado em 2024 pela Book Cover Editora, que foi muito bem recebido por leitores de todas as gerações, inclusivamente pela banda britânica The Kooks.
A sessão de lançamento da publicação O Oeste Hipster, coeditada pela Book Cover Editora e a FITA Press, contará com uma conversa com o autor Francisco Teles da Gama, moderada por mim no dia 30 de abril de 2026, às 19 horas, na livraria Good Company Books, em Lisboa. Quatro escritores foram convidados a escolher e a ler contos desta obra, que se destacam pelas temáticas da História, Arte, Mitologia, Ténis e Cinema. Desta forma, contamos com a participação do premiado autor Nelson Nunes, dos poetas Zé Bernardo da Fonseca e Pedro Brum da Silveira e do professor e curador Tomás Agostinho. O microfone ficará disponível para quem se aventurar a ler uma das narrativas deste intrépido Oeste Hipster.
O momento será ainda mais especial, porque assistiremos ao primeiro passo da FITA Press, nova casa editorial da instituição cultural FITA – Friends In The Arts, onde todos têm uma morada literária. A FITA Press dedica-se à publicação de obras literárias, do romance à poesia, e académicas, da monografia aos estudos interdisciplinares, movendo-se na constelação das Artes e Humanidades. Produz livros, revistas e catálogos, que ecoam as vozes de escritores, artistas e investigadores internacionais, construindo uma ponte entre o gesto e a memória. Constitui um arquivo transversal, que convoca o diálogo entre culturas e o avanço do conhecimento.
Francisca Gigante/7M – Francisco, o que te motivou a publicar um livro de contos sobre as raízes da cultura Hipster?
Francisco Teles da Gama – Acompanhei de perto o desenvolvimento da cultura Hipster do século XXI, com o surgimento de escritores, bandas e artistas contrariados com a cultura de massas. Estava atento ao que melhor se produzia na música e literatura, procurando pelos nomes menos referidos na comunicação social. Neste percurso, fui publicando contos em periódicos, como o Jornal da Batalha, a convite do seu diretor Carlos Ferreira, e revistas, de que é o maior exemplo a FITA Magazine. Em quase todas essas histórias havia um denominador comum, a minha presença na narrativa. Eu era uma personagem ativa. Este facto faz sentido, porque parte destas aventuras têm um fundo de verdade, portanto o leitor terá oportunidade de vislumbrar momentos insólitos e que ajudaram a moldar o percurso dos hipsters em Portugal.
Francisca Gigante/7M – A que espaço geográfico te referes? O Oeste Hipster é real?
Francisco Teles da Gama – Ao longo dos anos, várias pessoas questionaram-me de onde vinha, sendo um ser exterior a Lisboa. A minha resposta era a vila da Batalha e a cidade de Leiria, centro da região Oeste de Portugal. Por norma, ripostavam com a seguinte constatação: “Claro que és, vocês hipsters vêm todos de lá!” Mesmo que eu não me insira em qualquer subcultura urbana, a sociedade afirma que sou hipster. A associação de Leiria com esta cultura é algo geral entre a geração Millennial, obviamente, por boas razões. Leiria tem trazido a palco músicos irreverentes desde a década de 1990, dos Silence 4 aos First Breath After Coma. Além disso, é uma cidade que aposta na poesia, literatura e em festivais inovadores no nosso país. O Oeste Hipster é a região de Leiria, mas também Portugal, que se localiza no ponto mais a Oeste da Europa. Portanto, este lugar lendário representa-nos a todos.
Francisca Gigante/7M – De que forma os teus contos foram recebidos e ecoaram na opinião dos leitores?
Francisco Teles da Gama – O Oeste Hipster contempla uma coletânea de trinta e oito contos, escritos entre 2016 e 2026, sendo as reações dos leitores das mais diversas e díspares. Lembro-me de ter escrito histórias completamente ficcionais que alguns leitores acreditaram ser reais. No conto Carta de Maputo, onde relatava o testemunho de um repórter de guerra em Moçambique, foi a primeira vez que percebi que este facto acontecia. Mais tarde, escrevi sobre uma arqueóloga que descobria a espada do rei D. Dinis numa escavação do Castelo de São Jorge, em Lisboa, em O Conto das Portas de Veneza. Este acontecimento histórico teve lugar no Convento de Odivelas, mais de um ano depois de ter publicado a sua descrição. Já o meu conto As Lentes Bifocais, foi lido pela Irene Vallejo, que se viu refletida nas páginas, onde relatava casos de bullying na escola. Estes são apenas alguns exemplos da forma como a minha escrita impactou quem a leu.
Francisca Gigante/7M – Que influências literárias e musicais podemos encontrar nas páginas deste novo livro?
Francisco Teles da Gama – No campo da literatura, a mais evidente é Jorge Luis Borges, mas também Nikolai Gogol, Graham Greene, Jerome K. Jerome e Daphne Du Maurier, Se pensarmos em referências contemporâneas, não posso esquecer Amor Towles, Ilja Leonard Pfeijffer e Haruki Murakami. Na música, é inegável o papel que bandas como The Kooks, Capitão Fausto ou Luís Severo ocupam na minha escrita. Também o jazz é fonte de grande inspiração para mim, através das composições de Chet Baker, Oscar Peterson e Miles Davis. De facto, a forma repentina e improvisada que emprego na escrita leva a que alguns leitores a apelidem de jazzística.
Francisca Gigante/7M – O que esperas que os leitores descubram neste velho novo Oeste?
Francisco Teles da Gama – Um espaço fértil de liberdade e criação artística, onde o humor é uma prioridade. Aqui, no Oeste Hipster, todos somos bem-vindos, ninguém fica para trás, porque na literatura não existem barreiras. Através dos meus contos, procuro representar um mundo mais inclusivo e aberto.
Evento de Apresentação
Lançamento do Livro
O Oeste Hipster, de Francisco Teles da Gama
30 de abril de 2026, 19:00h
Good Company Books
Avenida Visconde de Valmor 2
1000-291 Lisboa
Entrada livre
Biografia do Autor
Francisco Teles da Gama nasceu na vila da Batalha. É Licenciado em História, Mestre em História Medieval e Doutorando em História da Arte, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Investigador no ARTIS - Instituto de História da Arte da FLUL e na Red Europea de Investigación del Tardogótico. Desenvolveu trabalho de arquivo e investigação em vários museus e monumentos, como a Peggy Guggenheim Collection, o Mosteiro da Batalha, o Museu de Lisboa, entre outros. Integrou a comissão para a candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura 2027. Encontram os seus artigos, contos e poemas em várias revistas e jornais, como o Observador e o Evelyn Waugh Studies. É fundador e diretor da FITA – Friends In The Arts e editor da revista internacional de artes e cultura FITA Magazine, com o Alto Patrocínio do Presidente da República. Foi o diretor musical de todas as edições do festival FITA Kiosk. Coordenou o Prémio International FITA Awards of Literature, que deu origem à obra Retrato do Artista Quando Escreve (2022). O seu poema Soneto Espelhado do Poeta Eterno, integrado na peça The Banquet of Eternity, esteve em exposição no Pavilhão da Croácia, na Bienal de Veneza de 2024. No mesmo ano, publicou o romance de estreia Cantiga para Poeta em Águas-Furtadas.
Texto inicialmente publicado em: https://setemargens.com/o-velho-novo-oeste-um-mundo-mais-inclusivo-e-aberto/
