Húmus: cultivar como prática
Conhecendo de antemão o extenso trabalho de Pomar e Morais, foi uma belíssima surpresa encontrar as paisagens de Moreira e Castro Neves. De baixo, a vista atravessa o espaço até ao piso superior, como se a própria arquitetura nos convidasse a percorrer as obras envolventes entre luz e sombra. Mergulhamos no húmus, esse organismo vivo: entre a morte e a vida, criador de energia, que nos propõe a curadora Ana Rito.


Francisca Gigante
14 de janeiro de 2026
Entramos no Atelier-Museu Júlio Pomar por ruelas atrás de São Bento nunca calcorreadas até esse momento. Cheiram àquilo a que se referia César de Oliveira quando escreveu “Cheira bem, Cheira a Lisboa”, protagonizado primeiramente por Anita Guerreiro e logo depois por Amália Rodrigues. É um cheiro de sabão de jasmim misturado com lixívia, persistente no olfato. Longe de ser clínico, é suave e delicado. Também me recordaria desta letra se passasse pelas bancas de peixaria no mercado de Alvalade ou no Cais das colunas junto ao rio Tejo.
Após uma entrada a pés juntos, somos interpelados por um banco construído a azulejos pintados pelo artista Júlio Pomar com formas curiosas. Acotovelamo-nos para observar melhor este suporte tão tradicional. São caracóis em diferentes posições pintados a azul, cada um ímpar a espraiar-se ao sol. Compreendemos a dica: é preciso aprender a desacelerar e a ter vagar, com este animal. Recordamos a simbologia da eternidade, sem começo nem fim, nas suas conchas em espiral que lembram os ciclos infinitos de renovação.
Ultrapassadas as inevitáveis formalidades do acesso ao espaço, que contêm as saudações do costume, pego na folha de sala que me é indicada e o silêncio instala-se. Sinto logo a textura das folhas irregulares, feitas de outros pedaços de folhas usadas anteriormente e, assim, sei que as folhas se encontram habitadas com memória.
À minha pergunta inicial: “O que é o húmus?”, a primeira frase que leio explica tudo: “Húmus é matéria em trânsito.” É terra fértil, também sofrida, matéria em decomposição. Restos que geram vida. Terreno para novos ciclos. Através do diálogo entre diversas obras de arte, surgem conversas em flor, com ecos das obras de literatura Húmus (1917) de Raul Brandão e Húmus (1967) de Herberto Helder. Meio século de distância entre ambas.
A exposição nos dois pisos do atelier acolhe desenhos, fotografias, pinturas e esculturas dos artistas Júlio Pomar, Graça Morais, e do duo Daniel Moreira e Rita Castro Neves. Conhecendo de antemão o extenso trabalho de Pomar e Morais, foi uma belíssima surpresa encontrar as paisagens de Moreira e Castro Neves. De baixo, a vista atravessa o espaço até ao piso superior, como se a própria arquitetura nos convidasse a percorrer as obras envolventes entre luz e sombra. Mergulhamos no húmus, esse organismo vivo: entre a morte e a vida, criador de energia, que nos propõe a curadora Ana Rito.
Gosto particularmente da escada feita de troncos apanhados, de corda atada, que sobe a parede até à janela mais próxima. Gosto dos desenhos de árvores a caneta preta sobre papel e dos animais, carneiros, humanos e abelhas. E gosto ainda mais quando o desenho de três pinhas se encontra mais afastado, cerca de 30 centímetros do desenho do tronco. As montanhas dentro das caixas de luz surgem entre as folhas de papel de blocos creme e verde-água. Transporta-me até às montanhas verdejantes do Lichtenstein, dos penhascos íngremes nas Astúrias e dos picos onde desci em toboggan na Suíça. As montanhas de dia e de noite. Os animais que fazem das “montanhas atentas” casa. Um vulcão ao longe desenhado em erupção leva-me a recordar que ainda tenho em casa o livro O Amante do Vulcão (1992) de Susan Sontag para terminar.
É então que estaco e colo os meus pés ao chão, porque não vi o que estava bem próximo do meu olhar: a poesia no rodapé pela sala do atelier: “Na árvore, a alma da árvore Na pedra, a alma da pedra Todos deitam flor O que estava por baixo está agora por cima”. Concluo que são fragmentos do poema “Húmus” (1967) de Herberto Helder. A sua técnica literária de montagem em poesia recorre a material e a regra. A sua matéria-prima: “Material: palavras, frases, fragmentos, imagens, metáforas do Húmus de Raul Brandão”; a sua “Regra: liberdades, liberdade”. A nota de rodapé da curadora no andar cimeiro elucida-nos para o conceito de plagiotropia, termo botânico formulado pelo poeta Haroldo de Campos. Ao contrário de plágio, designa a apropriação criativa, que “reorienta: é o gesto de transplantar uma obra anterior para um outro solo, onde ela germina de forma diversa, abrindo novas possibilidades de sentido”.
Continuamos a nutrir calor pelas Folhas colhidas em casa dos Britos de uma principiante sua admiradora (1984), uma lembrança, de folhas de tulipeiro parece-nos, de Graça Morais para Júlio Pomar, que tinha realizado uma série de Estudos de plantas (circa 1956), em pequenos cadernos. Além das sombras que surgem atrás da folha de plátano, emerge de novo um caracol. Parece saído das surpreendentes caixas metade folhas pautadas, metade pinturas de Daniel Moreira e Rita Castro Neves. Os gestos tomam a sua intensidade inevitável.
E aí, podemos expandir-nos no outro, “outrar”, escreve Ana Rito, “A metamorfose é uma espécie de liturgia do fogo: nela o mundo converte-se em corpo vivo (...)[,] é língua húmida que molha os ossos do poema”. Nesse momento, surge mais de uma dúzia de ternas romãs desenhadas por Morais e um vídeo com dois canais num suporte de madeira binocular, que nos remete para o toque da nossa mão em musgo de Moreira e Castro Neves, como se de voyeurismo se tratasse. O cruzamento de tempos e latitudes distingue as imagens que contemplamos, como também deambula pela fragilidade dessas mesmas imagens. Neste encontro, pousar na permanência, na paciência e no desaceleramento do ritmo para acolher encontros, conversas e relações de amizade. É tudo o que desejo neste ano: Tocar a terra. Sentir a matéria. Cultivar como prática.
Exposição de arte contemporânea “Húmus. Júlio Pomar, Graça Morais, Daniel Moreira e Rita Castro Neves” patente no Atelier-Museu Júlio Pomar de 26 de novembro de 2025 a 5 de abril de 2026, com visita e conversa com os artistas Morais, Moreira e Castro Neves e curadora Ana Rito no dia 15 de março de 2026 às 15 horas. Mais informações no website:
https://www.ateliermuseujuliopomar.pt/exposicoes/humus/?qd=presente



