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Espaços do Pentecostes

Foi recentemente publicada a encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV. A Torre de Babel ocupa um lugar predominante nas imagens utilizadas na encíclica, apresentando-se em paralelo a escolha que devemos fazer entre edificar a torre de Babel (lida sob o prisma da arrogância de auto-suficiência humana e uma pretensão de uniformidade) ou reconstruir as muralhas de Jerusalém (enquanto empreitada comunitária em que cada um toma responsabilidade por fazer a sua parte com diligência para o bem comum). Gostaria primeiro de convidar a um détour por estas imagens. Ambas evocam estaleiros de construção, com características bem distintas.

Espaços do Pentecostes

João Valério

03 de junho de 2026

Foi recentemente publicada a encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV. A Torre de Babel ocupa um lugar predominante nas imagens utilizadas na encíclica, apresentando-se em paralelo a escolha que devemos fazer entre edificar a torre de Babel (lida sob o prisma da arrogância de auto-suficiência humana e uma pretensão de uniformidade) ou reconstruir as muralhas de Jerusalém (enquanto empreitada comunitária em que cada um toma responsabilidade por fazer a sua parte com diligência para o bem comum).

Gostaria primeiro de convidar a um détour por estas imagens. Ambas evocam estaleiros de construção, com características bem distintas.

Babel é, antes de mais, o reino da verticalidade. Espacialmente, a perpendicular ao solo surge como marco na paisagem, desde os menires, passando pelas fortificações altas das civilizações antigas, pelas torres das cidades-estado italianas, até aos nossos contemporâneos arranha-céus. São marcos identitários, antes sequer de serem potenciais elementos defensivos.

É um estaleiro alto, cheio de andaimes e gruas, que cresce de dia para dia. É um elemento centralizador da paisagem, um ponto de referência a partir de onde irradia a cidade e que pressupõe também uma ideia de controlo e domínio. Este estaleiro implica uma precedência lógica e estrutural, já que não podemos construir os andares superiores sem os inferiores estarem concluídos.

As muralhas de Jerusalém surgem com um carácter perimetral. Pela sua conformação, abrangem uma territorialidade efectiva e não apenas de influência (como acontecia com a torre). É um estaleiro longo, que, aqui, se pode construir de uma só vez. A comunidade pode empregar os seus esforços colectivamente, lado a lado. É por isso um elemento de acolhimento comunitário na paisagem, uma marcação construída da envolvente, sensível na experiência da civilização em contraponto com os espaços abertos e inóspitos.

Estes dois estaleiros, na sua existência textual mais essencial, carregam a possibilidade de leituras complementares. Numa dinâmica de olhar para o reverso das ideias, revisitemos estes mesmos locais.

Babel é uma torre audaz aos olhos de Deus, pelo autor do Génesis. Mas é, também, um lugar que expõe graficamente uma narrativa etiológica sobre o desabrochar das línguas, sobre o nascimento da diversidade, um dos mistérios primordiais que ocupa a imaginação da humanidade há milénios, a par da criação do mundo, das calamidades ou do sentido da vida. Revela, por isso, muito da humanidade que nos habita (dessa “Magnífica Humanidade” que o Papa Leão destaca), da curiosidade e da necessidade de transcendência além do visível e do imediato. Este estaleiro revela por isso capacidades admiráveis da humanidade e do seu esforço colectivo, mesmo quando as suas intenções possam estar ainda desafinadas – afinal, esta torre também seria construída por uma comunidade unida, tal como a das muralhas de Jerusalém; de outra maneira não seria possível tal empreitada. Estas capacidades tornam-se verdadeiramente fecundas quando postas, em plenitude, ao serviço de Deus e do próximo, e não ao serviço do destaque ou da glorificação vazia. Essa tensão abre um rasgo que só será sarado mais à frente.

Também a muralha de Jerusalém, empreitada comunitária sob um auspício divino positivo, tem o seu reverso na leitura mais crua do espaço: a muralha é um limite que acolhe uma comunidade em lugar seguro, um dispositivo de reforço de identidade comunitária. Implica, por isso, uma delimitação e um corte com o outro que está fora da muralha. Algo que, no pensamento do Antigo Testamento, surge como ambiguidade, uma muralha que controla e exclui, e simultaneamente possui um papel de Jerusalém como lugar de universalidade e de atracção para todos os povos da terra.

Juntamos, por isso, uma terceira imagem, do Novo Testamento, que virá clarificar algumas destas ambivalências: a do Pentecostes. As línguas reúnem-se num entendimento renovado, não pela uniformização numa só língua efectiva, mas pela compreensão mútua. “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem.” (Act 2, 4)

É a redenção da torre de Babel – as línguas que se tinham separado voltam a encontrar-se; agora não como unidade singular, mas como unidade múltipla, na diversidade – as brechas recuperadas por um cuidadoso tear multicolor. É também a clarificação das muralhas de Jerusalém – o limite comunitário fechado que inequivocamente abre as suas portas, não só como lugar centrípeto, mas também como ponto centrífugo (“sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo” Act 1,8).

Os dois estaleiros do Antigo Testamento têm uma presença construtiva, matérica, implicam o esforço físico da construção. Recorrem a edifícios sólidos e com carácter de excepcionalidade. O Pentecostes ocorre já noutra dimensão: na tranquilidade e humildade da casa, que depois se expande para a ágora, “espaço-entre”, sem grande presença construtiva além do solo, e cuja existência depende sobretudo da cidade que a delimita e das pessoas que a habitam. Assistimos aqui a uma passagem da construção material para a construção relacional.

Passamos de torres e muralhas para espaços abertos; passamos da perda de unidade, da confusão das línguas e da necessária construção identitária subsequente para uma universalidade composta pela multiplicidade de dons; passamos da marcação ou delimitação territorial à abertura.

Deus não elimina a vocação humana à unidade em Babel; introduz uma camada adicional de diversidade na sua história. Também o Pentecostes não revoga essa diversidade; ensina a habitá-la.

Por isso, para concluir, proponho que voltemos ao início, retomando o Génesis: “Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projectos.” (Gn 11,6)

Pelo Pentecostes, as muitas línguas voltam a encontrar a sua unidade no Espírito Santo. Nessa trama formada por fios distintos mas complementares, saibamos dar bom uso a esse entendimento e colaborar no grande estaleiro imaterial que são as vidas de cada comunidade.

A Babel reconciliada pode ser um sinal de que, pelo Pentecostes, somos convidados a novas construções, sempre atentos à responsabilidade que essa participação e relação implica.

Fotografia de capa do artigo: Vitral do Pentecostes, Église de la Réconciliation - Taizé, Éric de Saussure

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