Escutar: o Pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza 2026
Este ano, em Veneza, o gesto da Santa Sé revela-se a partir da escuta contemplativa. A música é uma forma de conhecimento, a liturgia é sónica e ouvir é o desafio. A proposta: rezar através do som.


Francisca Gigante
26 de agosto de 2026
No dia de inauguração à imprensa da Bienal de Veneza de 2026, com o tema “Em Tons Menores” (In Minor Keys), proposto pela curadora Koyo Kouoh, que partiu um ano antes de ver concluída a sua visão, encaminharam-me para a fila de entrada do Pavilhão da Santa Sé, no Jardim Místico dos Carmelitas Descalços, em Cannaregio. Tem como título “O Ouvido é o Olho da Alma” (The Ear is the Eye of the Soul). Pertence à Igreja de Santa Maria de Nazaré, ou Igreja dos Descalços. Fica mesmo ao lado da estação de comboios. Não era a primeira vez que entrava neste jardim de paz e tranquilidade, inspirado pela vivência espiritual de Santa Teresa d’Ávila (1515-1582). Tinha tido o privilégio de o conhecer em visita guiada em 2018 com o grupo de estagiários internacionais da Coleção Peggy Guggenheim que coordenava, como forma de lhes dar a conhecer novos lugares em Veneza.
Recordo-me particularmente do calor húmido que se fazia sentir em maio de 2026 e que nos foi oferecido um copo de água enquanto esperávamos para entrar. Esta foi uma oferenda muito agradecida por todos. Enquanto esperava pelos auscultadores olhei para o mapa da Bienal. Este ano a exposição do Pavilhão da Santa Sé está dividida em dois lugares, à semelhança do que os curadores Adam Szymczyk e Ralph Rugoff tinham proposto nas suas curadorias da documenta14 (2017), “Aprender a partir de Atenas” (Learning from Athens), entre Atenas e Kassel, e da Bienal de Veneza de 2019, “Que Possas Viver em Tempos Interessantes” (May You Live in Interesting Times), Proposta A e B, entre os jardins (Giardini) e o Arsenal (Arsenale) de Veneza.
Assim, observei, terei de me deslocar mais tarde ao Complexo de Santa Maria Auxiliadora, no Castello, para poder encontrar um arquivo vivo, um scriptorum, um legado entre instalações e obras de arte. No oratório, o acervo reúne materiais de Santa Hildegarda de Bingen (1098-1179), monja beneditina, mística, escritora, teóloga, compositora musical e médica informal, que viveu em Bingen am Rhein, na Alemanha. Inspira-se na sua devoção e consolação. Inclui, por isso, uma profunda investigação realizada pela irmã Maura Zátonyi e as irmãs da Academia de Santa Hildegarda, organizada numa biblioteca multilíngue. Aí podemos ainda vislumbrar os livros de artista de Ilda David’ e projetos arquitetónicos Opera Aperta de Tatiana Bilbao Estudio, MAIO Architects e Dogma Architects, que constituem parte de uma instalação de filme e imagens de Alexander Kluge, a sua última obra em vida, organizada em doze estações.
Segundo o Cardeal José Tolentino de Mendonça, comissário da exposição, “Santa Hildegarda, uma voz contemporânea”, relembrava que tinha sido proclamada Doutora da Igreja em 2012 pelo Papa Bento XVI. Explicava a sua entrega: “toda a criação é um ato de amor e toda a escala das criaturas é atravessada pela caridade divina como a corrente de um rio. Sem o impulso correto do amor, o mundo está destinado a secar; com o impulso do amor, ao contrário, o mundo ativa novas energias, criatividade e reconstrução.” (10 de maio de 2012).
Este ano, em Veneza, o gesto da Santa Sé revela-se a partir da escuta contemplativa. A música é uma forma de conhecimento, a liturgia é sónica e ouvir é o desafio. A proposta: rezar através do som. Experimentar as obras de arte de artistas tão díspares quanto ecléticos. São poetas, compositores, músicos e artistas contemporâneos vindos de todos os lados: Bhanu Kapil, Brian Eno, Carminho, Caterina Barbieri, Devonté Hynes, FKA Twigs, Holly Herndon & Mat Dryhurst, Jim Jarmusch, Kali Malone, Kazu Makino, Laraaji (Edward Larry Gordon), Meredith Monk, Moor Mother, Otobong Nkanga, Patti Smith, Precious Okoyomon, Raúl Zurita, Suzanne Ciani, Terry Riley e as irmãs beneditinas da Academia de Santa Hildegarda, os seus cantos envolvem e lavam a alma. Além de saciarem a sede de fé que muitos pensam ter perdido.
A seleção curatorial coube a Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers, conhecidos curadores do mundo da arte e das Serpentine Galleries, em Londres, em colaboração com o grupo musical Soundwalk Collective, fundado por Stephan Crasneanscki e Simone Merli, que desde 2001 colabora com músicos, cineastas e investigadores, como, por exemplo, Patti Smith, Mulatu Astatke e Philip Glass. Salientaram a importância das composições sonoras serem, em grande parte, inéditas e criadas especificamente para a exposição, que se desenvolvem ao longo da experiência de som.
Quando chegou a minha vez, entrei no Jardim Místico e deixei-me conduzir pelos instrumentos e vozes para me levar a descobrir árvores, plantações e uma capela com frescos belíssimos. Sentava-me por vezes nos bancos perdendo a noção do tempo e, mesmo, do espaço. Os meus ouvidos tornavam-se vigilantes no meio de vozes sublimes e de acordes angelicais. Na prática, o modelo utilizado consistiu numa instalação sonora, que recorre a uma tecnologia de áudio imersiva, capaz de responder dinamicamente à posição e ao movimento dos participantes.
Se entrasse por um trilho, podia escutar a peça de FKA Twigs, do lado oposto, noutra passagem serpenteando entre a vegetação, ouvia os acordes de guitarra portuguesa de Carminho, enquanto me deliciava com os cheiros de ervas aromáticas e medicinais, hortícolas, legumes e árvores de fruto. Não cheirava apenas os limoeiros, mas também as oliveiras e uma espantosa romanzeira ao centro, que a comunidade cuida com todo o amor. É um Pavilhão com obras de arte dentro de uma enorme Obra, um inesperado refúgio de biodiversidade. Para lá das portas do Jardim, milhares de turistas continuavam o seu percurso pela serena cidade de Veneza. Se os seus passos frenéticos pudessem falar, talvez cantassem em coro o que por vezes parecem esquecer: é preciso parar para escutar.
Ao mesmo tempo que a memória coletiva se ativa pelo som entre o jardim e o oratório, o nosso Cardeal Tolentino recordava nesta ocasião as palavras do Papa Leão XIV: “Voltar a servir o ritmo da vida, a harmonia da criação e curar as suas feridas.” Recorrendo a estas reflexões, proponho que a contemplação e a paciência possam constituir os nossos afazeres nos encontros vindouros de setembro. Relembremos:
1. Voltar a servir o ritmo da vida;
2. Escutar a harmonia da criação;
3. Curar as feridas.
