Em nome do futuro convém ficar vigilante
A crença de que a IA, a máquina é detentora da verdade, sem a questionar, sem a pôr em causa é o receio que aqui está presente, um receio legítimo e fundamentado. Como diz Lídia Jorge, podemos estar a perder, pouco a pouco, a independência do nosso pensamento.


Marília dos Santos Lopes
04 de março de 2026
“Em nome do futuro convém ficar vigilante”. Este o repto lançado pela escritora Lídia Jorge ao receber o maior prémio da cultura portuguesa: o Prémio Pessoa. No seu discurso, a autora de obras exemplares da literatura portuguesa contemporânea como O Dia dos Prodígios, Costa dos Murmúrios ou mais recentemente Misericórdia, entre muitas outras, fruto da sua inspiração e criatividade, não deixou de incluir o tema da inteligência artificial na sua reflexão sobre o nosso mundo atual. Neste sentido, e olhando para as possíveis consequências do uso da IA, também no ato criativo da escrita, Lídia Jorge afirma:
“A poesia, linguagem comovida, cria discurso único e irrepetível porque a experiência pessoal de quem o diz e escreve é única e irrepetível. Mas a IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta nada. Não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria nem pranto. Só que fornece linguagem como se os tivesse.” E continua “Assiste-se a um corte epistemológico entre o criador e a criatura. Fica desfeito esse laço sagrado. Em nome do futuro convém ficar vigilante.”
Todos sabemos das grandes vantagens que a IA trouxe, e pode trazer futuramente, ao facilitar tarefas, ao poupar tempo, ao criar oportunidades, mas importa igualmente, como salienta a escritora, não nos iludirmos única e exclusivamente com as suas vantagens, como muitas vezes já o fizemos nos avanços da ciência e da tecnologia, como bem ilustra a história da Física no século XX. Como Lídia Jorge acrescenta: “Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação dos benefícios. A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, como Verbo, não tenha fim enquanto formos donos dela.” Este é, na verdade, um aspeto de suma relevância. O uso diário e frequente da IA é, como podemos constatar atualmente, uma realidade presente em todas as faixas etárias e, talvez, particularmente, entre os jovens. Já nas escolas é uma ferramenta a que se recorre para realizar as mais diversas tarefas, sejam os trabalhos de casa, as explicações ou os projetos escolares ou quaisquer outros fins. E muitas vezes são os jovens que são mais versáteis neste uso do que os professores que se deixam iludir pelos resultados surpreendentes de um uso não declarado e fraudulento da IA.
Mas não são só os adolescentes que usam e abusam da IA. No outro dia um medico queixava-se de doentes que se consideram mais informados pelo que leem do que pelas suas explicações, encontrando-se sem possibilidade de poder retificar as opções e sugestões apresentadas. A crença de que a IA, a máquina é detentora da verdade, sem a questionar, sem a pôr em causa é o receio que aqui está presente, um receio legítimo e fundamentado. Como diz Lídia Jorge, podemos estar a perder, pouco a pouco, a independência do nosso pensamento.
Na verdade, o que devem fazer os professores quando recebem dois trabalhos iguais em duas turmas diferentes? Ou ao não obter respostas após uma exposição bem feita, ao constatar a dificuldade em explicar o que se acabou de expor correta e adequadamente? Desta forma, os alunos contornam eventuais erros e falhas que poderiam ser úteis para toda a vida, ao acreditar nos resumos e apresentações feitos pela IA sem deixar que a leitura e as próprias interrogações façam o seu caminho no discernimento e entendimento das coisas e do mundo. Não é por acaso que se levantam dúvidas e questões relativas a uma maior passividade e dependência face às tecnologias, ou mesmo a uma profunda interferência no modo de pensar e estar usando a IA para determinar como se vestir, como agir, como tomar opções. Sem falar das histórias verdadeiramente trágicas em que se confundem experimentações digitais com sentimentos reais, substituindo amigos de corpo e alma com avatares no ecrã.
Como diziam alguns jovens num artigo publicado pelo Público a 12 de fevereiro sobre o uso de redes sociais, não se trata de proibir os meios digitais, trata-se de alertar, consciencializar, de tomar responsabilidade na aprendizagem e no ensino, ou seja, de ficar vigilante em “nome do futuro”. Tanto pais como educadores e professores, mas também os responsáveis institucionais e reguladores e toda a sociedade e mesmo os amigos e colegas devem fazer parte desta vigilância a fim que não perdemos a nossa autonomia e a independência do nosso pensamento, o nosso relacionamento humano, direto e presencial. “Por isso,” escreve Lídia Jorge, “eu desejo, como recém chegada, que este Prémio, que tem uma genealogia de 37 edições tão assinalável, continue a ir de vez em quando à procura dos que se entregam a manter o mundo humano, humano, pelo poder das palavras.”
Como sublinhou, também nestes dias, Miguel Esteves Cardoso na sua crónica no jornal Público, de 13 de fevereiro, a leitura faz parte das necessidades humanas. “A leitura é uma fuga como nenhuma outra, em que o veículo é o nosso cérebro e o livro é apenas a estrada: a gasolina é paga a meias.” Assim, de modo a satisfazer esta necessidade humana, seria importante, escreve ele, que “cada interessado pudesse provar as diferentes variedades de prosa, de forma a descobrir as suas particulares compatibilidades” e assim encontrar a leitura com que possa dialogar e que possa reforçar o seu domínio das palavras e do saber. É através desta experiência que se concretiza o verdadeiro poder das palavras – não como os “Large Language Models” que fazem a IA, mas como um relacionamento empenhado, sentido e sério com o mundo e as pessoas que nos rodeiam. Sem se deixar moldar e limitar por uma inteligência que nivela e padroniza tudo numa abordagem artificial sem passado e sem futuro.
