Em casa com Heidegger
É neste ponto que a casa adquire uma ambivalência, simultaneamente lugar de abrigo (onde o sujeito se protege contra a dispersão do exterior) e lugar de resistência (contra a perda de si mesmo), onde se torna possível o encontro com o próprio nada. A casa já não é só o espaço que defende do exterior, mas também o lugar que expõe o ser à própria existência.


João Valério
04 de fevereiro de 2026
Em La buena vida, Iñaki Ábalos (Editorial Gustavo Gili, Barcelona, 2000) propõe uma leitura filosófico-arquitectónica da casa de Heidegger – uma cabana de montanha em Todtnauberg cedida pela Universidade de Freiburg – inscrevendo-a no pensamento do seu habitante. Trata-se de um espaço fortemente centralizado, estruturado em torno de uma figura paternal – o pater familias – que organiza simbolicamente a vida doméstica e lhe confere coesão.
Esta centralidade não é apenas formal, mas ontológica: a casa surge como dispositivo de protecção face ao mundo exterior, ao público e às forças naturais, ancorando-se no lugar e preservando uma ordem interna que assegura a continuidade do habitar. Estamos, assim, perante uma casa que se fecha para garantir a sua estabilidade e identidade.
Contudo, esta leitura da casa como refúgio ganha espessura adicional quando colocada em diálogo com a reflexão de Josep Maria Esquirol em La Resistència Íntima: Assaig d’una filosofia de la proximitat (Quaderns Crema, 2015). A partir da herança heideggeriana, Esquirol aprofunda a noção de “nada”, não como simples ausência ou negação, mas como condição primordial, anterior ao próprio gesto de negar – o nada enquanto possibilidade fundadora. Neste contexto, o autor sublinha o papel do tédio, entendido como pleno repouso e suspensão da funcionalidade, como via de acesso ao “nada” específico de cada sujeito. Trata-se de uma experiência silenciosa, que não remete para um vazio estéril, mas para um confronto com o que sustenta a própria existência.
É neste ponto que a casa adquire uma ambivalência, simultaneamente lugar de abrigo (onde o sujeito se protege contra a dispersão do exterior) e lugar de resistência (contra a perda de si mesmo), onde se torna possível o encontro com o próprio nada. A casa já não é só o espaço que defende do exterior, mas também o lugar que expõe o ser à própria existência.
Desta forma, a casa de Heidegger, que inicialmente víamos interpretada como espaço centralizador e interno (a casa-refúgio), pode ser uma estrutura menos estática do que aparenta. O movimento de recolhimento que a constitui cria as condições para um gesto inverso: o eu, protegido, pode confrontar-se com o nada e, precisamente por isso, ser despertado para a acção. O refúgio não anula o movimento; dá-lhe origem.
Colocando estas duas referências em diálogo, é possível extrair algumas ideias potencialmente enriquecedoras da experiência doméstica contemporânea. Por um lado, uma casa que se fecha sobre si mesma pode constituir a condição da sua verdadeira abertura. Dito de outro modo, uma casa permanentemente exposta, excessivamente aberta ao exterior, dificilmente oferece o lugar necessário ao confronto existencial e tenderá, por isso, à estagnação e à superficialidade. A abertura aqui em causa não se refere apenas à relação com o mundo, mas também – e sobretudo – ao desabrochar mais profundo da vida interior de cada habitante.
O lugar da casa pode ser o espaço fundamental do silêncio e da paragem. Uma casa frenética, confusa, marcada pela omnipresença dos ecrãs e pela sucessão ininterrupta de actividades, dificulta esse movimento introspectivo. Evidentemente, uma casa feita de mutismo seria igualmente desequilibrada, por lhe faltar a dimensão da saída e do encontro com o exterior. E ainda que este equilíbrio seja delicado, é no abrir de espaço para este silêncio e paragem que nos tornamos capazes de, aos poucos, o calibrar de forma intuitiva e natural.
É preciso, por fim, reconhecer que uma casa – tal como a vida que nela pulsa – não é classificável nem redutível a uma única categoria ou leitura, sob pena de se transformar num monólogo vivencial. Da mesma forma, uma deriva historicista ou nostálgica pode converter a casa refúgio num peso, negando a privacidade e substituindo a autenticidade do habitar por uma ordem artificializada. Contudo, quando cuidadosamente ponderada, esta mesma casa pode oferecer equilíbrio aos seus habitantes e constituir a base a partir da qual o mundo é vivido de forma mais plena. Estas reflexões representam, assim, um de muitos começos possíveis, uma das faces do poliedro da vida humana: uma dimensão essencial, mas não exclusiva, que só ganha sentido quando se deixa completar por tudo aquilo que cada vida, na sua singularidade, traz de fora.
Fotografia de capa do artigo: Martin Heidegger Hütte über Rütte, Todtnauberg, Foto: Muesse, 2007



