Depurar o mármore, encontrar a escultura
O activismo religioso que nos absorve revela uma insegurança de que tudo o que fazemos é pouco e tudo depende de nós, mas no silêncio que contrasta com este cansaço eclesial, o Senhor ainda nos diz no Evangelho “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5).


João Duque
01 de abril de 2026
É frequente ouvirmos na liturgia o hino da Carta aos Filipenses, que proclama:
Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz. Por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai. (Fl 2, 6-11)
Infelizmente, a tradução utilizada nas nossas celebrações está longe da literalidade do texto grego. A tradução litúrgica, que apresenta o verbo “aniquilar”, está distante do original grego “esvaziar”, felizmente conservado na tradução da Bíblia dos Capuchinhos (a tradução da Conferência Episcopal optou por “despojar”, verbo que embora mais próximo do sentido original, acrescenta um significado posterior). Enquanto “aniquilar” significa reduzir a nada ou destruir, “esvaziar” remete para uma transferência de conteúdo. O continente, Jesus, decide esvaziar-se da sua condição divina para a oferecer à humanidade, elevando-a consigo à glória de Deus, como o apóstolo refere no final do hino, com palavras semelhantes às do Evangelho de João “quando eu for elevado da terra, atrairei tudo a mim” (Jo 12, 32), referindo-se à entrega do seu corpo na cruz e nas espécies eucarísticas, nas quais se doa inteiramente a cada homem para o transformar, unindo-se a ele. Noutro passo do Evangelho de João, Jesus explica este processo: “É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, para a retomar depois. Ninguém ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal é o encargo que recebi de meu Pai” (Jo 10, 17-18). O peso do verbo “aniquilar” traz consigo a possibilidade da destruição total e irreversível da existência, que é a essência da condição divina, transmitida aos seres e renovada na vida em plenitude, na eternidade.
Este problema de tradução na liturgia não é único. Mas o problema maior é que o acto da tradução errada revela o contrário do seu significado correcto. O movimento apresentado por Jesus neste hino paulino não consiste em acrescentar mas em esvaziar, depurar, afim de ganhar espaço para a vida nova que o Pai nos quer oferecer. Na liturgia, como na vida espiritual, somos tentados a acrescentar elementos, substituí-los, alterá-los, acabando por atulhar as celebrações e o nosso espírito. É curioso que uma das decisões da reforma litúrgica tenha sido simplificar repetições na liturgia quando nas liturgias hodiernas vemos uma constante atitude de querer acrescentar textos, gestos e símbolos, como se a Palavra de Deus, que abrange a maior parte das palavras da Missa (mesmo aquelas que não pertencem à Liturgia da Palavra), não tivesse robustez suficiente para satisfazer as nossas necessidades. Na liturgia, somos convidados a manifestar os nossos anseios e angústias recorrendo à Palavra de Deus, que se fez palavra humana (não apenas na encarnação do Verbo mas na própria elaboração da tradição escrita e oral dos textos sagrados), como que de um beijo se trate, em que a boca humana e divina se unem numa só voz. Adélia Prado dizia que a “Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum” porque “A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso”. Esta concepção de poesia é semelhante àquela que encontramos no poema de Sophia de Mello Breyner “O jardim e a noite” quando lemos:
Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.
A pureza que descobrimos nestas descrições não é aquela à qual estamos habituados a encontrar em leituras moralistas, para as quais esta virtude se insere exclusivamente num domínio afectivo, mas antes, como diria São Josemaría Escrivá, uma “afirmação gozosa”, algo que diz respeito ao ser humano na sua inteireza. Por outras palavras, a pureza não deve reservar-se a mera política sexual mas deve abranger toda a forma de vida humana ou cultura, que inclui a espiritualidade e a actividade pastoral. O activismo religioso que nos absorve revela uma insegurança de que tudo o que fazemos é pouco e tudo depende de nós, mas no silêncio que contrasta com este cansaço eclesial, o Senhor ainda nos diz no Evangelho “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5). O ponto de partida da nossa missão como cristãos deve ser sempre a Palavra de Cristo e o ponto de chegada será sempre a vida eterna que Ele nos quer dar, a começar desde já nesta terra. Se não tivermos este horizonte a longo prazo, a novidade que apresentamos não é a Páscoa do Senhor, mas a felicidade que pode depender da nossa criatividade, e que satisfaz apenas o nosso orgulho, numa atitude pouco casta. O resultado desta estratégia imediatista, que não confia na eficácia da Palavra Divina, será sempre o ridículo de quem não tem consciência da assimetria entre aquilo que nós podemos acrescentar ou substituir e aquilo que só Deus pode oferecer, entre a gula do que acumulamos e a sede que só o Senhor pode saciar. Na Páscoa que vivemos, a pergunta repetida tantas vezes no Evangelho de João ainda ressoa “A quem procuras?”.
