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Bovarismo eclesial

As várias tentativas de uniformização da Igreja, quer nos seus ritos, quer nas suas posições pastorais, em vez de contribuírem para uma maior unidade, causam maior divisão, arriscando perder a verdadeira riqueza do património eclesial, a sua diversidade.

Bovarismo eclesial

João Duque

17 de dezembro de 2025

“É impossível ser-se feliz no sítio mais bonito do mundo” diz Raimondo, o irmão de Parthenope, no filme epónimo de Paolo Sorrentino. Por essa razão, pede para embarcar num navio em direcção ao Báltico, fugindo da beleza das praias de Nápoles que ganham carne na beleza da sua irmã. O contrário também acontece em romances como Madame Bovary ou O Primo Basílio quando as protagonistas julgam que vivem vidas medíocres e preferem refugiar-se num idealismo baseado nos livros que lêem, forjando uma identificação indistinta entre realidade e ficção. Ambos os exemplos são casos do mesmo sintoma, o de uma frustração e de uma falta de capacidade de olhar para a realidade tal como ela é.

São Paulo escrevia na sua Carta aos Colossenses que “a realidade é Cristo” (Cl 2, 17). Esta expressão surge na sequência de um discurso sobre o Corpo Místico de Cristo, do qual Ele é a Cabeça. Aliás, a palavra traduzida por “realidade” é, no original grego, “corpo”, contrastando com a palavra “sombra”, que se refere à ilusão sedutora do pecado da antiga condição. Paulo alerta para o perigo da fuga para aquilo que não é a realidade mas a aparência. O Papa Francisco, na sua exortação apostólica Evangelii Gaudium, renovava o mesmo apelo quando escrevia que “a realidade é superior à ideia” (nº 231-233). O problema tem dois mil anos e parece ser hoje aquele que provoca mais rupturas na unidade da Igreja.

Muito se tem discutido sobre a polarização, as margens, as periferias, os partidos, a oposição entre tradicionalismo e progressismo nos meios eclesiais. Talvez seja útil ler a afirmação do Papa Francisco que causou tanta polémica: “Todos, todos, todos. Na Igreja, há lugar para todos” não tanto numa perspectiva de fora para dentro (que certamente também será assim) mas sob um ponto de vista interno. Aliás, se alguma lição ficou da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, de entre as muitas que pudemos guardar, foi de que a realidade da Igreja é diversa na sua unidade, manifestando-se em numerosos movimentos, culturas, línguas e ritos. Esta diversidade humana é imagem e semelhança da vida trinitária, que necessita da diferença para amar. Foi e continua a ser esta a Igreja que Cristo amou e pela qual deu a sua vida. É esse o desafio que persiste e que nos foi lançado pelo mesmo Senhor, amar a Igreja tal como ela é e não como gostaríamos que fosse ou como imaginamos que ela será. As várias tentativas de uniformização da Igreja, quer nos seus ritos, quer nas suas posições pastorais, em vez de contribuírem para uma maior unidade, causam maior divisão, arriscando perder a verdadeira riqueza do património eclesial, a sua diversidade.

Foi significativo que a primeira viagem apostólica do Papa Leão XIV tenha sido à Turquia para comemorar os 1700 anos do Concílio de Niceia. Diante de uma Igreja ainda tão europeísta, mas numa Europa que se vai esquecendo das suas raízes cristãs, o Papa dirigiu-se para o Oriente cristão, diferente nos seus ritos e na forma como vive a sua fé, mas que a professa com as mesmas palavras, mesmo após tantas feridas à comunhão, causadas ao longo dos séculos. Esta viagem é mais um sinal do que parece ser uma linha condutora no pontificado do Papa Leão, a começar pelo seu lema “In illo uno unum” (N’Aquele que é uno, somo um). Este desejo de unidade tem sido manifestado em diversos gestos de escuta de diferentes pessoas e movimentos mas também no apelo de que a sinodalidade seja uma escuta real de todos os intervenientes, e que não sufoque nem exclua nenhuma voz, como disse Leão XIV na conferência de imprensa, no avião de regresso a Roma. O que o Santo Padre deseja é que não haja monólogos na Igreja, alicerçados em visões idealistas sobre ela. Aos jovens americanos, o Papa pediu para que não se utilizassem categorias políticas para se falar sobre a fé, porque na Igreja não pertence a um partido político nem é um conjunto de partidos em oposição.

No final de um ano jubilar dedicado à esperança, é esta que se há-de prolongar como dom confiado por Deus para que o façamos frutificar em virtude. A esperança, tal como a fé que professamos no Credo, refere-se não apenas a Deus mas também à Igreja. Sabemos que, assim como Raimondo, Emma Bovary ou Luísa, não podemos estar plenamente satisfeitos e felizes nesta terra. À Igreja, aplica-se a mesma expressão dita acerca de Maria, de quem é figura: “Mais bela, só no Céu”. Enquanto caminhamos nesta terra, enquanto formamos o corpo da Igreja peregrina, procurando saciar a sede humana do amor de Deus, procuramos construir o seu reino, contemplando a beleza desta Igreja, que já tem as rugas de dois mil anos, mas que nem por isso perdeu a beleza e a juventude do amor esponsal, fraterno e maternal.

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