Algo que se encontra - Parte I

Pode ser, precisamente, pela ruptura dessa fronteira que toda a arte verdadeira e, deste modo, toda a escultura verdadeira possam, somente, por isso, tornarem-se possíveis.

Algo que se encontra - Parte I

Carolina Serrano

18 de maio de 2022

Do mesmo modo que o conceito de espiritualidade, em sentido lato, é capaz de acomodar vários tipos e meios diferentes de procura e jornada espirituais, a dimensão espiritual na arte é também bastante multiforme. Sabemos que o espiritual, enquanto categoria, de certo modo, expansível, pode incluir o sagrado e o religioso sem, no entanto, depender deles. A espiritualidade, enquanto procura e jornada, é uma dimensão que não está implicitamente comprometida com a fé religiosa, e com a ministração dessa fé, por parte de uma instituição organizada e hierarquizada, que dita as suas próprias práticas, credos e doutrinas. Por sua vez, o sagrado, tantas vezes por nós, hoje, associado a uma determinada coisa, prática, pessoa, lugar, ou período de tempo, é algo, como o seu termo latino “sacer” nos informa, que se encontra separado, que nos surpreende, e, por isso, ultrapassa as noções comuns de lógica, destruindo os nossos horizontes, perspectivas e pressuposições convencionais. Segundo Richard Kearney (1954), um professor de filosofia irlandês que ensina na Universidade de Boston, o sagrado reside algures entre o espiritual e o religioso.

Através do seu conceito de “anateísmo”, explica que o sagrado “difere do espiritual na medida em que é algo que se encontra ao invés de algo que se procura. Está por aí (out there), algures, ao invés de aqui (in here), por assim dizer. Aparece antes de nos apercebermos que apareceu – antes da auto-consciência, antes da consciencialização, antes da epistemologia. Nós não conhecemos o sagrado, nós reconhecemo-lo.” (1) É neste sentido que Kearney defende que o “anateísmo” é voltar a imaginar o sagrado e que o sagrado pode ser experienciado dentro, após e através do secular, ou seja, que o “anateísmo” (2) é uma tentativa de sacralizar o secular e secularizar o sagrado. Contudo, “o anateísmo não diz que o sagrado é o secular; diz que está dentro do secular, através do secular, para o/em direcção ao (toward) secular”, isto é, “o sagrado é inseparável do secular, embora permanecendo distinto. [sublinhados do autor].” (3) Com este pensamento, o Deus do “anateísmo”, através de chegadas e partidas perpétuas, é um Deus que já apareceu, mas que está sempre prestes a regressar, renascendo constantemente no ordinário. Com isto em mente, talvez seja, precisamente, neste sentido que o cineasta Andrei Tarkovsky, ao pensar sobre a procura e a experimentação na arte, tenha afirmado: “como foi ridículo quando interrogaram Pablo Picasso acerca da sua procura artística. Indignado com esta pergunta, Picasso respondeu, inteligente e preciso: Eu não procuro, eu apenas encontro”(4). Neste pressuposto, se o artista “encontra”, é porque, talvez, a Poesia – a sua ‘matéria’ – já faz parte do mundo e, por isso, a sua demanda seja senti-la, ‘recolhê-la’ e traduzi-la para os outros. Através da sua disciplina, sensibilidade e linguagem artísticas, o Poeta, isto é, o Artista, ‘simplesmente’ a desvela e a torna acessível, porque “se a fé necessita dos seus profetas, também necessita dos seus poetas”(5). Já Bruce Nauman afirma que o artista revela as verdades místicas do mundo. Se pensarmos o artista enquanto um mediador entre o mundo visível e o mundo invisível, dando a ver aquilo que o olho ‘comum’, à primeira vista, não apreende – as realidades invisíveis – é porque pode quebrar, ao mesmo tempo, a barreira que existe entre o profano e o sagrado. Talvez, neste sentido, essa fronteira, afinal, seja mais permeável do que estamos habituados a pensá-la. Talvez, quem sabe, possa mesmo não existir…Pode ser, precisamente, pela ruptura dessa fronteira que toda a arte verdadeira e, deste modo, toda a escultura verdadeira possam, somente, por isso, tornarem-se possíveis.

(1) KEARNEY, Richard; Jens Zimmermann (Ed.) – Reimagining the Sacred: Richard Kearney Debates God. New York : Columbia University Press, 2016, p.16.
(2) “Ana-” é um prefixo que, no “Shorter Oxford English Dictionary”, se entende por “no espaço ou tempo, regressar, outra vez (up in space or time, back again, anew).
(3) Ibid., p.18.
(4) TARKOWSKY, Andrej Cit. por CHAFES, Rui – Würzburg Bolton Landing. Lisboa : Assírio & Alvim, 1995, p. 10-11.
(5) KEARNEY, Richard; Jens Zimmermann (Ed.) – Reimagining the Sacred: Richard Kearney Debates God. New York : Columbia University Press, 2016, p. 15.

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