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A vida moderna como uma peregrinação: o peregrino que há em ti

Entre os viajantes contemporâneos, o turista simboliza a busca de experiências diversas e a rejeição de compromissos duradouros. O turista move-se geralmente em função do prazer imediato, da curiosidade e da novidade, privilegiando a singularidade das experiências em detrimento da sua continuidade.

A vida moderna como uma peregrinação: o peregrino que há em ti

Marília dos Santos Lopes

01 de julho de 2026

Num mundo em que a mobilidade é um dos elementos caracterizadores da sociedade contemporânea, não admira que a viagem se torne cada vez mais do que só uma forma de se deslocar de um local para outro, mas antes um modo de ser e estar. Várias são as razões e condições que motivam uma maior mobilidade, derrubando as tradicionais conceções de espaço e tempo. Movimentando-se pela internet, deslocando-se livremente de um local para outro, o homem contemporâneo experiência o mundo como a sua casa, manifestando uma procura ininterrupta e um ilimitado desejo de liberdade, evitando reduzir-se a um só lar, a uma só pertença, a uma só identidade. Num permanente desejo de evasão, o passaporte é, cada vez mais, o seu documento de identidade.

A modernidade é a impossibilidade de permanecer fixo. Ser moderno significa estar em movimento, salienta o sociólogo Zygmunt Baumann. Conceitos como o de nómadas digitais, entre outros, exprimem esse desejo de abandonar a permanência num lugar e de equacionar uma renovada busca de conhecimento e experiências sem destino certo, nem rota pré-definida, na esperança de poder vir, desta forma, a deparar-se com descobertas únicas e invulgares.

Neste mundo em movimento, Zygmunt Bauman apresenta a vida moderna como uma peregrinação. O sociólogo escreve: “A figura do peregrino não foi uma invenção moderna […] Mas a modernidade deu-lhe uma nova importância e uma nova inflexão seminal” (Vida fragmentada, p. 89). Zygmunt Bauman recorda que o peregrino era aquele que escolhia viajar em busca da presença do divino para dar sentido à sua vida, pois a verdade estaria, na sua crença, num outro lugar. Geralmente, numa árdua e longa jornada, que não tinha prazo para terminar, ele não tinha pressa, pois mais do que a chegada, era o trajeto, era o caminho até ao lugar escolhido que maior valor detinha. Na sociedade atual encontramos, segundo Bauman, muitos peregrinos que, sem terem tomado eles próprios a opção de o ser, percorrem um mundo que lhes é, muitas vezes, adverso e muito pouco acolhedor.

Entre os viajantes contemporâneos, o turista simboliza a busca de experiências diversas e a rejeição de compromissos duradouros. O turista move-se geralmente em função do prazer imediato, da curiosidade e da novidade, privilegiando a singularidade das experiências em detrimento da sua continuidade.

Entretanto são muitos os testemunhos de crentes e não-crentes que procuram uma orientação mais profunda e uma experiência mais duradora e espiritual no caminhar. O filósofo Frederic Gros reflecte (numa entrevista ao Público, em abril de 2024): “Caminhar horas e horas permite-nos deixar para trás elementos da nossa identidade social e história familiar na beira do caminho, bem como todos os fantasmas que nos obcecam no dia-a-dia. A nossa reputação, a forma como os outros nos veem, as nossas ambições, a construção das nossas carreiras, etc., tudo isto são coisas que, quando se caminha bem, acabam por desaparecer. E, no fim, voltamos a ser um puro corpo”. Neste sentido, defende que: “Caminhar é uma oração prática. É uma oração silenciosa, que não se faz com palavras, mas com as pernas, que avançam. É uma expressão de gratidão, um modo de prestar homenagem à paisagem e ao mundo. E esse, creio eu, é o sentimento religioso mais arcaico.”

Um prestigiado autor da escrita de viagens contemporânea, Gonçalo Cadilhe, escreve num dos seus livros sobre a viagem que fez a pé de Lisboa a Coimbra na esteira do jovem Fernando de Bulhões, futuro Santo António: “A minha caminhada demorou oito dias e foi uma peregrinação no sentido mais lato do termo: não religiosa, mas certamente espiritual. Foi também um reencontro com as paisagens, a História e os ambientes culturais da minha pátria. E foi um longo e preguiçoso devaneio por memórias e momentos formativos da minha vida. Foi, portanto, uma experiência pessoal e bastante introspetiva, mas tão luminosa e inspiradora que quis que fosse partilhada contigo” (Por este Reino acima, p. 15). Mais adiante, Cadilhe interroga-se: ”Sou afinal, sim ou não, um peregrino? Talvez nem sempre ao longo deste itinerário […] Mas o que descobri hoje é que basta sentires-te em peregrinação uma vez durante a caminhada e terá germinado o peregrino que há em ti” (Por este Reino acima, p.76) .

A escrita permite fixar aquilo que é por natureza efémero, transformando o movimento e a experiência em narrativa. Ontem como hoje é o desejo de descortinar o espanto e a novidade que leva os viajantes a elaborar os seus escritos como forma de mapear outras cartografias e um convite aos seus leitores para os acompanhar neste caminho. Numa permanente relação com o espaço, com o outro e com o mundo, a narrativa de uma viagem real e interior tornou-se um instrumento de conhecer, e se conhecer, ponto de partida e de chegada, num incessante e ininterrupto trajeto de delinear por um lado, uma cartografia mais abrangente e mais global sobre o mundo, por outro lado, uma cartografia pessoal. E que surpresa quando se descobre o peregrino dentro de nós.

“Viajar hoje”, escreve Gonçalo Cadilhe, “é mais fácil. Mas quando a viagem atinge a nota certa, o resultado é o mesmo: encontramos um lugar dentro de nós que não está ao nosso alcance nos demais dias da nossa vida. António, há oitocentos anos, com os seus pasmos e pensamentos; eu, hoje, com os meus.” (Nos passos de Santo António, p.147).

Fica, então, o convite para descobrir o peregrino em nós.

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