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A IA e a desumanização na comunicação

compreendo o quão aliciante possa ser ter uma máquina a responder – rectius, a propor uma resposta – a uma mensagem recebia, sobretudo quando se trata de responder a dezenas ou centenas de e-mails, por dia, em contexto profissional.
Mas nem tudo o que é aliciante é necessariamente benéfico, bem o sabemos.

A IA e a desumanização na comunicação

João Andrade Nunes

23 de setembro de 2026

Com maior frequência, em contexto profissional e extraprofissional, tenho ouvido comentários sobre a IA enquanto ferramenta “fundamental” para enviar ou responder a e-mails e mensagens (já não falo na escrita de textos de outra natureza). O argumento preponderante parece residir na rapidez da tarefa, encaminhando esse tempo para outras atividades. Na ótica, diria, dos mais preguiçosos, perigosamente, na desnecessidade de “ter de pensar numa resposta”.

De facto, compreendo o quão aliciante possa ser ter uma máquina a responder – rectius, a propor uma resposta – a uma mensagem recebia, sobretudo quando se trata de responder a dezenas ou centenas de e-mails, por dia, em contexto profissional.

Mas nem tudo o que é aliciante é necessariamente benéfico, bem o sabemos. Pessoalmente, repudio a ideia de ter uma máquina a pensar por mim ou a propor-me algo quando ainda nem sequer o solicitei (o que, em muitas situações, já acontece!). Não obstante, o problema maior parece-me ser outro. Julgo residir num plano de respeito (ou da falta dele): de respeito pelo tempo que o outro guardou para mim ou, se quisermos, que despendeu comigo. Um tempo que jamais as máquinas entenderão.

Quando endereçamos uma mensagem, independentemente de ser em contexto pessoal ou profissional, estamos, tão-só, a interagir com outrem. A forma de comunicação (escrita ou verbal), para o caso, parece-me irrelevante. Ora, se seria insólito, numa comunicação face a face, pedir a um robô para interagir por nós – imagine-se o caricato de termos um aparelho a sugerir uma resposta, à frente do interlocutor, ao estilo de “grilo falante” – por que fazê-lo quando essa comunicação ocorre por via digital?

Custa-me entender tais avanços tecnológicos como benéficos para a Humanidade. Ao invés, pressinto um caminho, bem sinuoso, para a tão propalada “desumanização” que, recentemente, o Papa Leão XIV, de forma crua, expôs na sua encíclica Magnifica Humanitas.

Concatenada com esta questão do respeito pelo outro ainda me atrevo a suscitar outra provocação: sempre que se recorre a esta tecnologia com o argumento de “canalizar esse tempo para outra atividade”, pergunto: que outra atividade? Termos mais tempo para estarmos com a nossa família? Mais tempo para estarmos com os nossos amigos ou para ajudarmos quem precisa? Será mesmo isso que acontece? Será um propósito filantropo o das forças que se movem sem rosto na corrida ao desenvolvimento tecnológico? Novamente, na referida encíclica, Leão XIV, sabiamente, fala-nos de um “jejum da IA” (não exclusão!).

A escolha, por enquanto, ainda nos pertence.

Mesa Redonda 
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