Lições bíblicas

Em tempo de pandemia, cujo caminho nos coloca diante de tantas questões, dúvidas, sacrifícios e onde se pode dar o risco de encontrar soluções que não passam de amarras de solidão, o encontro do leproso com Jesus permite-nos identificar alguns sinais da vitalidade da nossa fé em tempo de confinamento.

VI Domingo do Tempo Comum

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Queridos amigos,
Não sei se o confinamento permitiu perceber, mas na próxima Quarta-feira a Igreja começa a Quaresma. Razão pela qual começo por recordar que celebramos, hoje, o último Domingo desta primeira parte do Tempo Comum (VI Domingo)! Parte daqui o convite para meditar na Palavra de Deus proposta para este dia e, em especial, no Evangelho (Mc 1, 40-45) que nos apresenta o encontro de um leproso com Jesus, como Aquele que cuida e cura.

Mas para lá chegar, há dois aspetos prévios que devo ter em conta. O primeiro é que este Tempo Comum segue o ritmo do Evangelho de S. Marcos. Ao ler este Evangelho sentimos que estamos a caminhar com Jesus: Ele vai de terra em terra, anuncia, chama, cura… E, porque caminhamos com Ele, percebemos que cada momento nos coloca diante de perguntas que somos chamados a responder. Essencialmente, de duas: quem é Jesus? E quem somos nós, como seus discípulos? Respostas, essas, que iremos encontrar na voz do centurião diante da cruz: «verdadeiramente este homem era Filho de Deus» (Mc 15, 39).

O outro aspeto tem a ver com o olhar que podemos assumir para meditar no Evangelho de hoje. Recordo que no passado dia 11, a Igreja celebrou o Dia Mundial do Doente e o Papa Francisco, na sua Mensagem para este dia, diz-nos: «Assim o atesta muitas vezes o Evangelho quando mostra que as curas realizadas por Jesus nunca são gestos mágicos, mas fruto de um encontro, uma relação interpessoal, em que ao dom de Deus, oferecido por Jesus, corresponde a fé de quem o acolhe, como se resume nesta frase que Jesus repete com frequência: “A tua fé te salvou”».

Em tempo de pandemia, cujo caminho nos coloca diante de tantas questões, dúvidas, sacrifícios e onde se pode dar o risco de encontrar soluções que não passam de amarras de solidão, o encontro do leproso com Jesus permite-nos identificar alguns sinais da vitalidade da nossa fé em tempo de confinamento.

1. Quando o leproso veio ao encontro de Jesus e lhe suplicou que o curasse, afirma o Evangelista que «Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse…» (Mc 1, 41). Este olhar compadecido de Jesus recorda-me uma das dimensões fundamentais da vida cristã: trazemos connosco um olhar de compaixão que não nos permite ficar insensíveis ao que acontece à nossa volta. “Bombardeados” por tanta informação, tantas vezes centrada em números e análises técnicas, corremos o risco de confinar a compaixão, tornando-nos surdos à voz de quem chama por nós. O Dia Mundial do Doente e o testemunho deste leproso vêm-nos recordar que o cuidado do outro parte sempre de um olhar concreto que gera relação. Pode manifestar-se na escuta, no caminho lado a lado, no gesto… mas não esquece que tem a sua origem na experiência de quem se descobriu amado por Deus, com consequências diretas na vida do outro.

2. O leproso, uma vez curado e advertido por Jesus para não contar nada a ninguém, não resistiu. Mal se afastou de Jesus, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera… (Mc 1, 45). O Evangelista coloca-nos diante de uma das maiores certezas diante da fragilidade: podemos esquecer as palavras, mas não esquecemos o gesto de quem “nos fez bem”. É por isso que este aparente desrespeito pela ordem de Jesus revela a força de quem experimenta o “toque” de Jesus na sua vida (a consequência do amor na vida do outro). É impossível ficar calado, mesmo que Ele o peça! Descobre-se neste encontro o verdadeiro impacto da caridade: aquele que vivia excluído da sociedade, confinado na sua doença e visto como um perigo para os outros, encontra em Jesus o acolhimento e a gratuidade que, no toque, o liberta e o cura, devolvendo-lhe a dignidade de ser “mais um entre os irmãos”. Jesus recorda-nos que pela linguagem da Caridade, aqueles a quem fazemos bem tornam-se anunciadores do Amor de Deus.

A poucos dias de começar a Quaresma – caminhada de 40 dias de retiro para preparar a celebração dos mistérios centrais da nossa fé (paixão, morte e ressurreição de Jesus) – peçamos ao Senhor a graça de nos deixamos tocar pelo seu Amor para identificar e transformar tudo aquilo que nos impede de reconhecer o outro como irmão.

Pe. Pedro Guimarães, CM