Lições bíblicas

No evangelho deste III Domingo da Páscoa somos designados como «testemunhas» dos acontecimentos de Jesus Cristo. Isto é, somos chamados a envolver-nos de tal modo na história e na vida de Jesus, a ponto de a fazermos nossa, para a transmitir aos outros, não através de discursos inflamados ou esgotados, mas com a vida!

III Domingo da Páscoa

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Queres ser testemunha?
É este o apelo vocacional que nos deixa a liturgia deste III Domingo da Páscoa.
Ainda os dois discípulos de Emaús faziam a busca interior do que lhes tinha acontecido no caminho e de como Jesus se lhes deu a conhecer, no partir do pão, quando, uma vez mais, o próprio Ressuscitado, superando tudo o que poderiam ser as barreiras contingentes do mundo, irrompe e fica de pé no meio daquela assembleia de discípulos e saúda-os com grande o anúncio pascal: «A Paz convosco!».
Vem, por isso e uma vez mais, sem ser esperado e sem se fazer anunciar. Mostra as mãos e os pés que levam a reconhecer o Ressuscitado como o Crucificado, sendo essas as marcas da sua vida entregue. A sua maneira de ser, portanto, é dar a vida. E é dando a vida que Ele está connosco até ao fim dos tempos.
Nós, como os discípulos, ficamos sem palavras, estupefactos, mudos mesmo, diante de tão Mistério, inéditos e inusitados sinais. Por isso, precisamos de nos dispor para a escuta, e que seja Jesus a falar-nos, explicando, uma vez mais, o sentido da escritura e de tudo o que “tinha de acontecer”: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: ‘Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos’». E acrescenta: «Vós sois testemunhas (mártyres) destas coisas». É a primeira vez que os discípulos são designados como testemunhas.

No mundo de hoje, sobretudo no nosso contexto católico, não é muito comum designar os seus membros por testemunhas. Mais rapidamente, nas estruturas oficiais e documentais se cataloga como «praticantes» ou «não-praticantes». Mas aqui, é Jesus que nos designa como testemunhas.
No contexto secular, falar de testemunhas é falar de alguém que, por exemplo, tendo presenciado um acidente, se compromete depois, se necessário em tribunal, a apresentar o seu ponto de vista sobre o que presenciou. Alguém, portanto, que é chamado a comprometer-se com uma história que não é a dele.
Infelizmente, na nossa sociedade, marcadamente indiferente e despreocupada com o próximo, acontece muitas vezes que, como se diz, para evitar chatices…, mesmo os que viram acabam por dizer à partida que não viram nada.

Ora, no evangelho deste III Domingo da Páscoa somos designados como «testemunhas» dos acontecimentos de Jesus Cristo. Isto é, somos chamados a envolver-nos de tal modo na história e na vida de Jesus, a ponto de a fazermos nossa, para a transmitir aos outros, não através de discursos inflamados ou esgotados, mas com a vida! Sim, pelo batismo, aquela história e aquela vida é a nossa história e a nossa vida. É a nossa vocação!

Em 1975, São Paulo VI, na exortação apostólica Evangelii nuntiandi, sobre a evangelização no mundo contemporâneo, no nº 41 afirma: «para a Igreja, o testemunho de uma vida autenticamente cristã, entregue nas mãos de Deus, numa comunhão que nada deverá interromper, e dedicada ao próximo com um zelo sem limites, é o primeiro meio de evangelização». E, citando o seu Discurso aos Membros do "Consilium de Laicis", continua: «"O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, dizíamos ainda recentemente a um grupo de leigos, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas” […] Será pois, pelo seu comportamento, pela sua vida, que a Igreja há de, antes de mais nada, evangelizar este mundo; ou seja, pelo seu testemunho vivido com fidelidade ao Senhor Jesus, testemunho de pobreza, de desapego e de liberdade frente aos poderes deste mundo; numa palavra, testemunho de santidade».

Esta exortação foi sendo renovada pela doutrina e os vários documentos dos Papas posteriores. Com efeito, aqui está bem definido o que é chamado a ser o evangelizador: testemunha. E fica claro, portanto, que a Missão do anúncio do Evangelho não é facultativa, não é uma opção entre muitas outras no “leque” vocacional. Não, a Missão insere-se no âmbito da necessidade do plano de Deus e da Igreja.
São Vicente de Paulo recordava que a grandeza da nossa vocação era a de sermos chamados a fazer o que fez o Filho de Deus.

Hoje, também iniciámos a semana de oração pelas vocações. Na sua mensagem para esta celebração, o Papa Francisco, recorda-nos que «Deus vê o coração (cf. 1 Sam 16, 7) e, em São José, reconheceu um coração de pai, capaz de dar e gerar vida no dia a dia. É isto mesmo que as vocações tendem a fazer: gerar e regenerar vidas todos os dias. O Senhor deseja moldar corações de pais, corações de mães: corações abertos, capazes de grandes ímpetos, generosos na doação, compassivos para consolar as angústias e firmes para fortalecer as esperanças. Disto mesmo têm necessidade o sacerdócio e a vida consagrada, particularmente nos dias de hoje, nestes tempos marcados por fragilidades e tribulações devidas também à pandemia que tem suscitado incertezas e medos sobre o futuro e o próprio sentido da vida. São José vem em nossa ajuda com a sua mansidão, como Santo ao pé da porta; simultaneamente pode, com o seu forte testemunho, guiar-nos no caminho.»

A vida de São José sugere-nos três palavras-chave para a vocação de cada um, diz-nos o Papa. A primeira é sonho, a segunda é serviço e a terceira fidelidade (cf. Mensagem para o 58º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, 2021 | Francisco (vatican.va).
Que São José, guardião das vocações, nos acompanhe com coração de pai!

Pe. Fernando Soares, CM