Lições bíblicas

É nesta esperança viva que o Senhor nos convoca e é pela sua grande misericórdia manifestada pela sua Ressurreição que ganhamos folgo para nos enchermos da verdadeira Alegria, esta mesma alegria que é provada e submetida às intempéries da vida

II Domingo da Páscoa

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Caros Irmãos e Irmãs, estamos no II Domingo da Páscoa, ou melhor dizendo, no Domingo da Misericórdia. Certamente cada um de nós questiona-se sobre o sentido desta Páscoa. Como viver este tempo pascal se mais parece uma Quaresma?

É impossível eliminarmos a realidade que nos envolve. É impossível retirar este vírus da nossa presença. Os tempos litúrgicos não encaixam na realidade atual. Mas a nossa vida, sim. Hoje, celebramos a Páscoa ritual, mas o nosso coração deve ansiar, viver na esperança de poder viver a Páscoa real, ou seja, aquela Páscoa que nos liberta e que nos faz estar juntos, tal como nos diz o Livro dos Atos dos apóstolos: “todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos”.

Nesta impossibilidade resta-nos imitar estes mesmos apóstolos: “partiam o pão em suas casas; tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração, louvando a Deus e gozando da simpatia de todo o povo…”. A nossa casa transformou-se em Igreja e a nossa família em comunidade. O nosso altar a mesa de cada dia e a nossa oração a súplica que nos enche a alma do desejo de nos podermos voltar a reunir.
É nesta esperança viva que o Senhor nos convoca e é pela sua grande misericórdia manifestada pela sua Ressurreição que ganhamos folgo para nos enchermos da verdadeira Alegria, esta mesma alegria que é provada e submetida às intempéries da vida… Só uma fé verdadeiramente provada é capaz de se fortalecer…

Mas não é Deus que nos faz isto como se de um teste se tratasse. As dificuldades aparecem porque vivemos no mundo. A grande diferença que a prova da fé nos trás é o modo de enfrentar a realidade. Com fé, sabemos que não estamos sós. Sem ela vivemos na solidão e na falta de sentido, na busca de culpados e de bodes expiatórios, na crítica e na desunião.

O Evangelho alerta-nos para isto mesmo. E, mais uma vez, é na casa que se dá toda a cena.
Estavam todos reunidos na oração, menos Tomé. Jesus manifesta-se, mas como Tomé não viu, não acreditou. Este é, muitas vezes, o primeiro ponto da nossa falta de fé. Vivemos uma fé solitária e só acreditamos se esta se manifestar nos olhos da carne. Esquecemo-nos de que uma fé objetiva não é fé, mas evidência. E uma fé solitária pode cair no risco de uma fé meramente particular, construindo um Deus à minha medida.

Passando para a segunda etapa, vemos que novamente a comunidade se reúne e Jesus se manifesta diante de Tomé e faz com ele toque nos sinais do Ressuscitado. Se repararmos esses sinais são os mesmos do crucificado. Tomé acredita e faz um grande ato de fé.

Esta aparente pequena passagem ensina-nos a viver a nossa fé. Em primeiro lugar, não vivemos uma fé solitária, mas em comum. O acreditar de Tomé e o esclarecimento da sua dúvida, dá-se quando toda a comunidade está reunida. Quando ele estava só, não acreditou. Em segundo lugar, a fé clarificou-se quando este fez a experiência de Jesus. Ou seja, quando Tomé descobriu que todas aquelas dúvidas, legítimas, que tinha sobre o Homem que lhe ensinou tudo, se clarificam na sua vida. É Ele o Messias.
Pensemos que também nós vivemos este mesmo sentimento. Coloquemo-nos no seu lugar. Tirou-o da sua terra, transformou o seu ofício, prometeu-lhe uma vida nova e afinal morre e a sua vida continua igual. Como será tudo isto? Certamente não podemos imaginar as dúvidas de Tomé… Seriam imensas… Mas podemos perceber o seu ato de fé: aquele “Meu Senhor e meu Deus” soa como uma espécie de “finalmente todo o peso desta dúvida, esta falta de sentido acabou”. O alívio de Tomé ao sentir que a sua fé não saiu defraudada.

Mas sabemos porquê? Porque, apesar da dúvida, da incredulidade, Tomé permaneceu. Não desistiu. Não abandonou!

Caros Irmãos e Irmãs, o exemplo de Tomé ilumina-nos. Quantas vezes, neste tempo de quarentena, nos afastámos de Deus tentando viver uma fé solitária ou apagando-nos dela? Quantos de nós duvidámos da presença de Deus neste tempo de sofrimento? Quantos de nós queremos um Deus à nossa medida, sem cravos nem chagas? Quantas vezes perante a dúvida preferimos desistir de O procurar?
Este tempo de dúvida, de incerteza e de solidão é certamente um teste à nossa fé. Mas, se seguirmos a receita de Tomé certamente poderemos não sucumbir à mínima dificuldade. Basta estar: em casa, em família (comunidade), ser assíduo e persistente na oração, ser solidários partilhando com os outros o que temos e, se assim o fizermos, termos o caminho mais fácil para viver a nossa Páscoa, e exclamarmos:” Meu Senhor e Meu Deus!”.

Pe. João Soares, CM