Lições bíblicas

Neste domingo em que celebramos o dia mundial das missões é muito animador perceber que o cego recupera a vista quando é enviado: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho».

Domingo XXX do Tempo Comum

A liturgia da palavra deste XXX domingo coloca diante de nós, pela voz do profeta Jeremias, uma grande procissão de alegria e de esperança em que participam todos, em que ninguém fica de fora: os cegos, os aleijados, as grávidas, as parturientes. Verdadeiramente, o Senhor fez maravilhas em favor do seu povo! Esta procissão da esperança e da compaixão leva-nos a Jericó onde Jesus continua a revelar o caminho dos discípulos missionários.

Mal inicia a etapa final do caminho para Jerusalém, detém-se para responder ao clamor do pobre cego Bartimeu. Deixa-se comover pelo seu pedido, interessa-se verdadeiramente pela sua situação. Não se contenta em dar-lhe uma esmola envergonhada e para «descargo de consciência». Mas aproxima-se para se inteirar da sua situação e provocar o encontro. Não lhe dá instruções, nem juízos sobre o que o levou àquela circunstância, mas faz uma pergunta que para muitos seria inútil: «que queres que te faça?».
Aliás há um adagio popular português, quando se quer afirmar uma coisa como óbvia, que se inspira neste episódio evangélico, «ainda perguntas ao cego se quer ver?!»

Na verdade, pode parecer uma pergunta inútil, pois que poderia um cego desejar senão a vista? Mas é precisamente com esta pergunta para muitos de nós “inútil”, feita cara a cara, direta e respeitosamente, que Jesus manifesta que quer escutar as suas (e as nossas) necessidades. Jesus deseja um diálogo com cada um de nós, feito de vida concreta, de situações óbvias, mas reais...Para uma Igreja sinodal também aqui nos podemos e devemos inspirar.

Neste domingo em que celebramos o dia mundial das missões é muito animador perceber que o cego recupera a vista quando é enviado: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho». Como nos diz o Papa Francisco a abrir a mensagem para este dia: “Quando experimentamos a força do amor de Deus, quando reconhecemos a sua presença de Pai na nossa vida pessoal e comunitária, não podemos deixar de anunciar e partilhar o que vimos e ouvimos. […] Com Jesus, vimos, ouvimos e constatamos que as coisas podem mudar. Ele inaugurou – já para os dias de hoje – os tempos futuros, recordando-nos uma caraterística essencial do nosso ser humano, tantas vezes esquecida: «fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor» (Francisco, Carta enc. Fratelli tutti, 68).” (Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2021 | Francisco (vatican.va))

Nesta linha e voltando ao relato bíblico, há nele um detalhe muito interessante. Jesus pede aos discípulos que vão chamar Bartimeu. Estes fazem-no usando duas palavras que só Jesus utiliza no resto do evangelho. Primeiro, dizem-lhe «coragem!» e depois «levanta-te», tal como Jesus tinha dito a tantos doentes, tomando-os pela mão e curando-os. Isto é, os discípulos “limitam-se” a repetir as palavras animadoras e libertadoras de Jesus, conduzindo-o até Ele sem lhe fazerem sermões. Também hoje, é a isto que são chamados os discípulos missionários de Jesus: pôr o homem, nomeadamente os mais pobres e vivem nas periferias dos caminhos da humanidade, em contato com a misericórdia, a compaixão o amor de Jesus que salva.

Quando o “clamor dos pobres” se torna, como o de Bartimeu, ainda mais forte, não há outra resposta para realizar a Missão senão adotar as palavras de Jesus e, sobretudo, imitar o seu coração.
Mas este relato do evangelho de hoje põe, ainda, em evidencia pelo menos duas tentações para quem segue Jesus.

A primeira é que nenhum dos discípulos para, como faz Jesus. Continuam a caminhar, avançam como se nada fosse. Na verdade, se Bartimeu é cego, eles (e nós também em muitíssimas situações) são surdos: o problema de Bartimeu não é problema deles. Pode ser o nosso risco: face aos imensos problemas podemos adotar como constante a indiferença e continuar para diante sem se deixar perturbar. Desta maneira, como aqueles discípulos podemos estar com Jesus (e até recebê-l’O na comunhão sacramental), mas não pensamos como Jesus, não vivemos em comunhão. Podemos falar d’Ele e “trabalhar” para Ele, mas viver longe do seu coração, que se inclina para quem está ferido.

A segunda tentação é cair numa «fé de tabela». Podemos caminhar com o povo de Deus, mas já temos tudo estipulado: sabemos aonde ir e quanto tempo gastar; todos devem respeitar os nossos ritmos e qualquer inconveniente nos perturba. Quem incomoda ou não está à altura há que o excluir ou deixá-lo para trás. Jesus, ao contrário, quer incluir, sobretudo quem está relegado para a margem e grita por Ele.

No fim, Bartimeu põe-se a caminho e segue Jesus. Não só recupera a vista, mas une-se à comunidade dos discípulos missionários que caminham com Jesus. Neste tempo sinodal caminhemos com Jesus e continuemos pelo caminho que o Senhor deseja.

Pe. Fernando Soares, CM